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A pequena fresta em sua cortina fez a fraca luz do sol aquecer a pele em seu pescoço, uma sensação gostosa de calor que irradiava a fazendo acordar minutos antes do pequeno alarme. Levou os dedos ao rosto limpando dos olhos o sono, deu um pequeno sorriso ao se lembrar de flashes de um sonho que ela sequer sabia mais do que se tratava, restando apenas aquela sensação boa e aquele nome a ressoar em sua mente ainda sonolenta. Mordeu o lábio inferior e agarrou o lençol. Nunca teria dado aquele passo e ela agradecia que Andy Flynn fosse um pouco mais ousado nestas questões. Foi um jantar delicioso que terminou em sua sala, cada um com uma xícara de café. Os rostos muito próximos e a voz sussurrada. Sharon moveu os dedos dos pés, aquela sensação de formigamento que subia sua espinha era exatamente como ela se sentiu quando ele deu um beijo de despedida, perigosamente perto de seus lábios.

O som do despertador foi um duro choque de realidade. Ela não era a adolescente da casa, precisava domar seus hormônios e acalmar seu corpo. Respirou longamente, os pés tocando o chão frio a enviava uma noção de solidez que o sonho havia roubado. Vestiu-se com o roupão e bateu a porta de Rusty. Demorou apenas um segundo para se lembrar que estava sozinha em casa e isso a fez suspirar.

Desde que Rusty fez alguns amigos no clube de xadrez, Sharon se sentia um tanto mais tranquila e aliviada. O garoto ainda era muito auto depreciativo, incapaz de se enxergar como ela o via, um jovem esperto e inteligente, com toda a vida pela frente. Sua admiração por ele crescia; a forma como ele estava finalmente encaixando as peças a fim de organizar a vida de modo aceitável a fazia respirar mais leve. E, era devido a esse mesmo clube, que ele agora estava envolvido em um desses campeonatos estudantis. Essa agitação e nervosismo era algo que ela quase tinha esquecido. Com dois filhos já adultos, Sharon havia se distanciado totalmente das questões práticas de uma educação básica. Os passos abafados e apressados pela casa, vozes nervosas que ecoavam pelas paredes, e grunhidos de frustração, a faziam lembrar de como era ter um adolescente em sua casa novamente. Agora, que legalmente o havia adotado, ela teria que reaprender a lidar novamente com esse universo. Essa era a sua segunda chance, assim ela enxergava. Ao entrar na FID, seu foco principal não era apenas subir rapidamente o ranking, mas sua segurança como mãe de duas crianças. Contudo, o trabalho tinha horas inconstantes e isso a fez perder vários recitais de balé, jogos esportivos, feiras de ciências e tantos outros eventos que seus filhos nem se davam mais o trabalho de dividir com ela. Com Rusty, essa seria uma oportunidade de corrigir suas ausências passadas. Enquanto tomava um gole de seu chá matinal, uma risada escapou de seus lábios. Bem, ao menos ainda não estavam na época das peças de teatro. Duvidava que Rusty iria querer algum papel em peças clássicas como Sonhos de uma noite de verão . O que era uma pena, Sharon adorava o teatro.

Evidente que a segurança do rapaz não estava negligenciada, Como Capitã ela havia cuidado disso da forma que podia e as reclamações sobre ter colocado oficiais da SIS como segurança extra a seguiram durante toda a noite que antecedeu a viagem. Mas isso era o que ela chamava de 'Pacote Rusty Beck’. Com o celular em mãos ela enviou uma mensagem desejando um ótimo dia e boa sorte na partida. Uma olhada rápida na hora a fez se apressar. Uma coisa da qual ela sempre se orgulhou, além de seu senso de justiça, era sua pontualidade.

Com tempo apenas para uma parada rápida na cafeteria ela comprou um Latte para viagem, pouco açúcar e uma grossa espuma de leite sobre o café preto. De volta ao carro dirigiu por alguns minutos até pegar uma rua com trânsito, esse parecia ser um daqueles dias. O tempo estava fechando em uma velocidade vertiginosa e a Capitã podia prever que antes de conseguir estacionar em sua vaga a chuva já teria começado. Buzinas e falatório reinavam nas ruas, os carros avançando muito lentamente, de onde estava Sharon podia ver o  prédio da LAPD, porém ela sentia que demoraria alguns minutos presa ali. Abriu a tampa de seu Latte e misturou a bebida, o aroma de café invadindo seu sistema causando aquela sensação confortável que apenas os amantes de cafeína conhecia, a caminho de dar um primeiro gole o trânsito fluiu, equilibrando a bebida ela continuou a dirigir mas por poucos segundos apenas, voltando a arrastada procissão de metros por hora, junto disso o estardalhaço de buzinas enchiam novamente a rua. Sharon se inclinou sobre o volante para olhar o tempo logo após ouvir um claro som de trovoada, o carro à sua frente parou de repente e ela agradeceu a sua velocidade de reflexos. Um pé no freio e inevitavelmente uma mancha de café em seu perfeito blazer cor de creme.

 

Andy Flynn estava sentado em sua cadeira, alongando os braços enquanto um bocejo vinha lentamente. Havia passado boa parte da noite recordando o jantar com Sharon, dias atrás, resultando em uma noite mal dormida e uma manhã sonolenta que trazia um segundo bocejo.

- A noite foi longa hein Flynn, namorada nova? - A implicância veio de Provenza que sequer tirou os olhos de seu jornal enquanto falava com o companheiro. Ele soube do encontro que seu amigo idiota teve com a Capitã. O que era uma coisa a se pensar, já que ela parecia ter uma relação muito íntima com o livro de regras. Talvez ela fosse do tipo ‘faça o que eu digo, não o que faço’.

- Hmm, trabalhando nisso. - ele murmurou enquanto a Capitã entrava com seus saltos estalando no chão.

Era uma resposta automática ao estímulo que seu corpo movia para ver Sharon Raydor passar. Andy vinha fazendo muito isso nos últimos meses, ele começou pensando que não havia nenhum mal olhar discretamente, afinal ela podia ser muitas coisas e uma delas certamente era que, Capitã Sharon Raydor era gostosa. E ao contrário do que a maioria pensava ele sabia apreciar as curvas de uma mulher madura. Flynn também mal percebeu quando Capitã Raydor passou a ser apenas Sharon para ele, vindo com essa mudança os flertes de ambos os lados, isso ainda era delicioso. Uma mão suave que tocava seu ombro, os braços se tocando enquanto observavam o quadro. Gentilezas como, abrir uma porta, que o permitia desfrutar por um breve momento do perfume dela. Mas até isso se tornou pouco com o tempo. Andy Flynn era um homem exigente, e desejava muito mais. Agora que havia tido um encontro legítimo com ela, o Tenente se sentia muito bem em seu direito de observar as pernas perfeitas e um traseiro deliciosamente acomodado em uma saia lápis.

- Okay James Dean, você precisa superar isso.

Provenza virou a cadeira em direção ao outro Tenente, o jornal agora enrolado em sua mão apontava ofensivamente para Flynn. Isso estava ficando muito óbvio e significava problema. Flynn raramente desistia de uma conquista e o problema era; Ele simplesmente não iria poder ignorar as ligações assim que se cansasse de brincar com a Capitã. Namoro no trabalho era desencorajado por um motivo muito claro. Essa era uma das poucas regras que ela ajudou a escrever e que ele apoiava.

- Olha aqui Flynn, seu idiota. Pode ser uma dessas coisas, boa de olhar, - revirou os olhos. - se esse for o seu gosto, mas não ultrapasse a linha. Você sabe, Regras!

Sem obter qualquer indicativo de que o parceiro estava escutando, Provenza sentiu que precisava ser um pouco mais enfático, ele precisava tocar uma ferida da divisão.

- Não se faça de tolo, você por acaso precisa ser lembrado de Gabriel e Irene?

A isso ele recebeu uma reação, ou talvez fosse a porta a se fechar atrás da capitã que mudou o foco da atenção de seu amigo.

- Você está exagerando. - Andy se levantou ajeitando a gravata lilás e seu colete de cor chumbo.

O Tenente mais velho jogou as mãos para cima enfatizando o quão irritado estava com a situação. Isso chamou a atenção de Mike Tao e Julio, mas não durou, os companheiros de trabalho estavam acostumados às reações exageradas de Louie Provenza a praticamente tudo e raramente valia a pena questionar sobre o ocorrido. Ainda sentado, Provenza esticou um dedo acusador para Flynn. Ele sabia que isso tinha chances de explodir em seu colo e causar um problema muito, muito grande. Ele não queria ter o FID rodeando seu andar novamente por causa de uma medida disciplinar. Provenza estava satisfeito com a atual rotina.

Porém Flynn estava confiante em seu charme Italiano para conquistar Sharon. O encontro deles foi muito bom, um jantar romântico, uma conversa divertida. Sharon ficava mais solta depois de algumas taças de vinho e ele felizmente estava sóbrio para apreciar. Que mal havia? Era sim a sua chefe, mas eles eram duas pessoas adultas, maduras e podiam lidar com isso melhor do que Provenza pensava. Não haveria nenhuma catástrofe se eles namorassem. Ajeitou os cabelos e ignorando o amigo seguiu os poucos passos até a sala.

Duas batidas na porta e ele sorriu. Ela havia acabado de tirar o blazer e aquela camisa de seda presa sob o cós da saia fazia sua imaginação voar livre.

- Bom dia Sharon.

- Andy.

O tom de voz dela indicava que algo estava errado. Ele deu um passo para dentro e fechou a porta recém aberta. Podia sentir os olhos de Provenza em sua nuca, mas isso não dizia respeito aquele velho intrometido. Em poucos passos ele encurtou a distância.

- Algum problema? - levou uma mão ao braço dela dando um suave aperto, seu polegar deslizando um pouco pelo bíceps antes parar próximo ao cotovelo.

- Arruinei um terno perfeitamente bom essa manhã. - indicou a peça sobre uma cadeira, a mancha castanha grande o suficiente para ser ignorada.

Andy tornou a voltar seus olhos para o rosto da mulher a sua frente, havia ali uma nota de consternação legítima. Ele se aproximou um pouco mais gentilmente invadindo seu espaço pessoal. O ar vibrava ao redor deles, carregado com o perfume dela, aquela nota floral com um fundo adocicado que lançava eletricidade em seu corpo. Foi difícil remover a mão do braço dela, mas ele corajosamente a colocou no meio das costas, sentindo o fecho do sutiã sob o tecido macio. 

- Eu conheço esse cara em Chinatown. - Ele forçou sua mente a se concentrar no assunto e não na ideia de abrir aquele pequeno fecho sob seus dedos. - Sr. Zhāng. Ele é ótimo com todo o tipo de manchas. Posso levá-la após o expediente. - ele sorriu. - Esticamos para um jantar?

Sharon o olhou, os olhos estreitos por trás dos óculos, havia ali um plano muito bem orquestrado disfarçado de uma oferta gentil. Mas, como no mundo ela teria forças para negar quando a mão dele estava tão firme apoiada em suas costas? Claro que ela tentava ignorar a forma como os dedos pressionavam sua carne, o polegar que brincou com o fecho ali e aquele sorriso sedutor que ele sabia usar muito bem. E como era impróprio na mesma medida que tentador, ela não tinha ideia. Esses pensamentos simplesmente brotavam em sua mente quando Andy estava perto. Principalmente depois deste jantar que foi nada menos que perfeito. Provavelmente ele notou sua hesitação, pois a mão dele se moveu para cima em suas costas, por baixo do cabelo, um polegar ousado agora tocando diretamente sua pele da nuca. Foi necessário todo seu autocontrole para não permitir seus olhos se fecharem e um suave gemido escapar. Não podia entregar tanto poder assim a ele, não ainda.

- Vamos, não me diga que não gosta de comida chinesa.

Ela sorriu, apoiando a mão no peito dele, os dedos tocando o tecido macio da gravata por breves segundos. O ar parecia denso entre eles, dando aquela sensação de se afundar lentamente e Sharon sabia que isso era receita para desastre. Mas ela estava bem com isso, se sentia pronta para arriscar e algo dizia que Andy Flynn era a pessoa que valia suas apostas.

 

A chuva caía pesada do lado de fora da LAPD enquanto Provenza arrumava sua mesa e reclamava infinitamente da dor em suas articulações. Isso era tudo aquilo sobre estar velho que Andy o provocava. E aparentemente a felicidade de Flynn fazia o humor de Provenza se estreitar a ponto de soltar pequenos palavrões.

- Foi um dia de merda, desperdício de tempo. - resmungou ajeitando o terno nos ombros.

- Eu não diria isso.

- Ah claro Gunga Din, você tem um encontro. Grande porcaria. Me faça um favor Flynn… - ele chegou a erguer o indicador...

Mas qualquer que seja a ofensa que Provenza soltaria foi impedida quando a porta de Sharon se abriu e ela se aproximou com uma suave expressão de divertimento. Ao contrário do resto da equipe que tendia a ignorar o Tenente quando ele estava com péssimo humor, Sharon parecia se divertir com os exageros dele.

- ...Divirta-se. - completou entre dentes denotando claramente que aquilo não era o que ia dizer.

Isso arrancou aquele riso contido que a Capitã dava quando achava engraçado as provocações do Tenente, levando uma mão aos lábios para esconder seu divertimento. Rindo junto, e sem sentir nenhuma culpa pelo mau humor de seu amigo, Andy, como um bom cavalheiro a ofereceu passagem. A descida do elevador até a garagem foi pontuada por resmungos de Provenza que não foi rápido o bastante em deixar os dois para trás. 

- Parece que estou em um maldito filme de William Wyler - ele reclamou sentindo que aquilo estava prestes a se transformar em um drama. Seguiu a direção oposta aos dois, arrastando os pés em direção a sua vaga. - E ainda essa maldita chuva. Tsc… Chuva em LA, parece piada.

- Tenha uma boa noite Tenente Provenza. - Sharon elevou a voz para ser ouvida chegando a ficar brevemente na ponta dos pés.

- Alguma coisa assim para você também Capitã! - Moveu a mão sem emoção.

Aquela expressão de olhos e lábios estreitos que Sharon fazia quando estava segurando uma onda de riso era a perdição de Flynn. Ela tinha tantos destes gestos, que se você gastasse um pouco de tempo conseguiria começar a desvendar o mistério que Raydor era.

Houve aquele tempo em que o Tenente Flynn odiaria ouvir o nome dela, chegava a lhe causar arrepios. E isso em grande parte era culpa dele e seu temperamento explosivo, sempre adicionando páginas a mais em sua ficha no FID. Naquela época ele considerava Raydor sua nêmesis, a mulher que tirava a alegria do ar quando entrava na sala. Mas conforme ela gastava horas de seu tempo pajeando Chief Johnson ele foi se acostumando. Provando que seres humanos eram totalmente adaptáveis. Ele ainda sentia arrepios quando ouvia seu nome, agora porém em um contexto totalmente, como diria Provenza, inadequado.

Andy sabia o exato marco que o fez olhar Raydor diferente. Aquela Shotgun não letal, o pequeno projétil de tecido avermelhado… Flynn viu pela primeira vez como Raydor era em campo e isso o despertou para algo. Ele ainda tinha aquilo, bem guardado em sua gaveta, andares acima deles. Com aquele tiro certeiro, Capitã Raydor não atingiu apenas a testa do suspeito, ela disparou em cada um deles e especialmente em Flynn. Desencadeando a série de eventos que culminaria onde estavam naquele exato momento.

Ela levou a mão à bolsa e a busca pelas chaves de seu Genesis foi muito curta, Sharon parecia saber exatamente onde cada coisa estava dentro de sua bolsa. E isso era um tanto diferente entre a Capitã e Chief Johnson. E havia inúmeros detalhes que tornava uma o perfeito oposto da outra. 

- Como faremos? - ela perguntou destrancando o veículo prateado quebrando os pensamentos de Flynn.

- Sobre?

Sharon riu, indo até o Tenente e segurando a manga do terno dele entre os dedos da mão que continha sua chave do carro, o movendo a sentir o tecido entre o polegar e o indicador.

- Mancha de café, lavanderia… jantar? - A última palavra foi quase um sussurro.

Andy olhou a mão dela se movendo em seu punho, o dedo polegar levemente tocando seu pulso. Teria ela percebido que neste momento seu coração batia um pouco mais rápido? Ele então se forçou a lhe dar uma resposta junto de um pequeno sorriso.

- Oh sim, eu me perdi em pensamentos por um momento… Provenza. Então, prefere me seguir com seu carro?

O Tenente sabia que ela tinha uma resistência sobre a proximidade entre eles. As coisas estavam avançando mais agora que ela havia se divorciado, mas ainda tinha muitos obstáculos que a fariam retroceder se ele forçasse um pouco além do que era devido. Motivo pelo qual ele apreciava muito quando era ela quem tomava alguma decisão importante.

- Eu preciso ir ao meu apartamento antes Andy. Para conseguir um blazer novo, aparentemente esta vai ser uma dessas noite de chuva e frio. - explicou quando percebeu que ele parecia um tanto confuso naquele momento. - Lá podemos decidir os detalhes.

- Certo, vamos fazer isso. - ele abriu o próprio carro e deu a partida.

Foi uma viagem rápida, em parte porque Andy estava muito pensativo sobre tudo o que poderia acontecer naquela noite durante o que seria, de certa forma, o segundo encontro deles. Dirigia no modo automático, seguindo as lanternas traseiras do carro dela. Ele estacionou do lado de fora, desceu e a viu fazendo o retorno para acessar a garagem do prédio. Nos últimos meses Andy sempre se pegava pensando em como ela era boa nas coisas que fazia. E além de tudo o que eles estavam habituados a ver e sabiam dela, Sharon era uma motorista muito habilidosa.

Usando a entrada de visitantes, ele acessou o prédio e chamou o elevador. Ajeitou os cabelos olhando seu reflexo distorcido na porta de aço escovado do elevador, ele não havia feito grandes planos, como na noite que foram ao Serve, mas aproveitar a oportunidade era algo que ele sempre soube fazer e ao ver uma brecha jogou uma carta que ela logo comprou dando início aos jogos daquela noite. E não era apenas sedução e prazer, Andy realmente se sentia bem ao estar com ela, feliz de uma forma diferente. A melhor descrição era; ‘como abrir presentes na manhã de natal.’

A porta se abriu e ele viu os olhos verdes tão intensos brilhando junto de um meio sorriso, e Andy quase perdeu o momento de entrar sendo preciso usar uma mão para impedir a porta de abrir. Era surpreendente o que Sharon conseguia fazer com o Tenente Andrew Flynn. Ela o reduzia a uma torrente de hormônios que ele pensou que aquela altura estavam começando a perder a força. A subida não foi tão lenta quanto ele gostaria e logo as portas se abriram novamente no décimo primeiro andar. Cedeu-lhe a passagem e a seguiu pelo corredor, seus olhos fixos no balançar suave dos quadris dela.

Sharon abriu a porta de seu apartamento e permitiu a entrada de Andy Flynn. Ao fechar a porta notou os primeiros passos de seu Tenente, incertos, como se estivesse cuidando de cada passo ao entrar ali, medindo até onde poderia forçar sua entrada. Tendo a certeza de que não seria ‘pega’ Sharon se permitiu um sorriso, era divertido essa sensação de explorar a novidade. Como voltar a época de escola onde você está ansiosa demais pelo convite para o baile. Com clichê cinematográfico e tudo, ele sendo o badboy popular e ela a garota do clube de ciências.

- Aceita um pouco de água? Chá talvez? - ela ofereceu indicando a cozinha.

- Estou bem, obrigado.

- Volto em alguns minutos, fique a vontade. - dando uma última olhada ela o viu escolher um lugar no sofá e se sentar muito rígido.

Ao fechar a porta do quarto, a Capitã se apoiou contra a madeira removendo os óculos ao fechar os olhos firmemente, se deixando sorrir um pouco mais abertamente. Eles estavam dando passos rumo ao desconhecido e depois de anos em um relacionamento onde era negligenciada por seu agora ex marido, ter alguém tão disposto a oferecer sua atenção aquecia seu coração. Empurrando a sensação nostálgica de ser cortejada de lado por um momento, ela foi até o closet e pegou um blazer limpo.

Andy percebeu que eles estavam sozinhos quando após alguns minutos ele se notou em meio a um silêncio massivo. Nas poucas vezes que esteve ali, fosse para buscá-la para o jogo dos Dodgers ou qualquer outra atividade, onde um desfrutou da companhia do outro ainda no terreno da amizade, Rusty sempre aparecia como se fosse a pessoa responsável em manter o nível de intimidade deles baixo. E o garoto lhe lançava olhares inquisidores sempre que Sharon não estava olhando. Uma inversão de papéis bastante desconcertante, afinal ter um adolescente vigiando seus avanços era frustrante.

Mas, naquele momento não haveria olhares desconfiados, nem troca de palavras forçadas. Era apenas Sharon e Andy em uma casa completamente vazia que lhes dava privacidade suficiente, e antes que sua mente o puxasse para uma espiral de pensamentos impróprios sobre o que adoraria fazer naquele sofá com Sharon, ela voltou vestindo um blazer azul marinho com um corte muito mais acinturado.

- Espero que a lavanderia não esteja fechada, eu realmente gosto desse. - ela indicou a peça de vestuário apoiada no braço do sofá.

- Eles ficam abertos 24 horas, um dos motivos que me fez escolher esta lavanderia em particular. - ele indicou a ela a porta. - Afinal os horários de um oficial da lei podem ser extremamente incertos.

O outro motivo era que a jovem atendente da época abusava muito de decotes reveladores e Flynn sempre gostou de admirar o corpo feminino. Mas isso ele guardou para si mesmo, afinal a garota em questão acabou se envolvendo com um empresário de filmes adultos e isso a fez desistir do emprego. Não que ele sentisse falta.

- Algum problema se formos no seu carro? 

- De forma alguma. - se levantou pegando o próprio casaco.

Nos segundos em precisaram até chegar ao elevador e conforme esperavam as luzes que mudavam indicando que o elevador vinha do térreo ele a notou muito mais relaxada, já havia percebido essa mudança antes, era apenas Sharon ali, de pé, seus dedos tocando a tela do celular enquanto um sorriso se formava. E ele podia quase apostar que era um dos filhos dela.

- Emily está estreando hoje como Swanilda, em Coppélia.

- Isso é grande! - ele não era tão versado em jargões de teatro quanto gostaria, mas ficava feliz em ouvir Sharon contar qualquer coisa sobre sua vida pessoal, dando-lhe a oportunidade de realmente conhecer a mulher por trás do título de Capitã.

- Ela mandou um abraço e disse para nos divertirmos bastante e… Oh não, isso é um pouco pessoal demais.

Viu Sharon corar levemente enquanto desligava a tela e colocava o aparelho celular no bolso de seu blazer. Ela mordeu o canto dos lábios e entrou quando a porta se abriu. E demorou apenas um momento para que ele entendesse que a mensagem descrevia algo que eles poderiam estar fazendo, algo muito íntimo. E naquele momento Andy estava um pouco fora de si ao tentar não pensar que isso poderia significar ele voltando ao apartamento dela no fim daquela noite. De pé, lado a lado, Flynn se encontrou completamente sem palavras e sentiu como um tolo, quase como se estivesse revivendo aquele encontro em que ele perdeu a virgindade, muitos, muitos anos atrás.

Por sorte ela se recompôs primeiro e puxou um assunto neutro trazendo de volta aquela sensação de tranquilidade, da qual grande parte vinha do suave tom de voz de Sharon. E eles mantiveram esse ritmo fácil de conversa enquanto faziam o trajeto. A chuva começou a cair fina, poucos minutos após pegarem a estrada em direção a Chinatown. Se há alguns anos atrás, alguém dissesse a Andy Flynn que ele estaria levando Sharon Raydor para jantar, ele teria oferecido apoio e ajuda psicológica. Mas agora, tudo o que ele queria no fim do dia era ter tempo de qualidade a sós com ela. A passagem pela lavanderia foi rápida, e ambos caminharam os poucos metros até o pequeno restaurante envoltos em uma conversa divertida sobre todos as fotos de celebridades que estavam penduradas na parede do lugar.

 

O restaurante escolhido por Andy para o jantar era um achado, pequeno e modesto, com uma decoração rica e nada exagerada. Ela sempre achou que esses famosos restaurantes chineses que vivem lotados eram muito caricatos, literalmente feitos para turistas. Jīn Hétáo, por outro lado, era um reflexo mais fiel a verdadeira herança chinesa. Mesas de madeira escura, estavam dispostas entre uma decoração simples e delicada que junto de uma música de algum instrumento de corda suavemente harmonizado com uma flauta. Era belo e de alguma forma sexy, mas ela não tinha certeza se era apenas a música ou todo o contexto do encontro potencializado pelo comentário de sua filha.

- Este lugar é adorável. - sussurrou ao ter sua cadeira elegantemente puxada por Andy.

- Nicole me contou sobre este lugar e sugeriu que viéssemos aqui.

- Não posso me esquecer de agradecer a indicação na próxima vez que nos encontrarmos. - abriu um pequeno sorriso ao aceitar o menu de uma jovem vestida com um tradicional kimono.

Nenhum dos dois percebeu o tempo passar, era natural perder a noção do tempo agora que estavam saindo juntos. Eles tinham uma sinergia que tornava o tempo que tinham juntos único. Foi apenas quando o volume da música diminuiu drasticamente que Andy notou que eram uma das últimas mesas ainda ocupadas. Não apenas isso, a jovem que os atendeu olhava fixamente para os casais apaixonados demais para notar que eles estavam perto da hora de fechar. Conhecendo a rigidez de horários e regras dos orientais, ele gentilmente informou a Sharon e decidiram que era hora de encerrar o jantar pedindo a conta. 

Voltar para o carro foi uma experiência à parte. Conforme andavam lado a lado, suas mãos se esbarraram e ele se surpreendeu ao sentir os dedos de Sharon segurando os seus. Em poucos segundos o que era apenas indicadores e médios unidos se tornou palma com palma e dedos entrelaçados como um clássico casal apaixonado. Isso aqueceu algo dentro dele, removendo qualquer dúvida sobre como ela via aquela relação. Ambos desejavam isso. E não era apenas o desejo carnal que ele sentiu tantas vezes antes, não era como tantos dos seus casos antigos. O sentimento era autêntico. Puro.

Nicole tinha razão, Sharon tinha um efeito positivo sobre as pessoas. Desde que ela havia sido remanejada para assumir a Major Crimes havia feito positivas mudanças não apenas na maneira como faziam o trabalho na LAPD, mas na vida de cada um deles. Ele pode ver dia após dia ela tendo de lidar com Rusty. Onde qualquer outro ser humano teria desistido, ela apenas se tornou resiliente e oferecia toda atenção e carinho que tinha, como se o rapaz fosse carne de sua carne. A atenção que ela tinha em perguntar sobre os aspectos cotidianos da vida de seus subordinados, atenção nos detalhes como aniversário ou datas importantes. Essas coisas foram lentamente quebrando aquela construção mental que ele tinha sobre ela ser uma mulher fria e difícil. Aquela construção que foi em parte por ouvir da boca das pessoas como ela era distante do marido, como ela sempre o afastava. E agora ele conhecia a realidade por trás dos boatos, Jack era um homem pequeno, mesquinho e tão longe do que ela merecia... Sharon era suave, leve e fácil de conviver, era cheia de vida e risos, ele aprendeu o humor dela e o que um dia era apenas desejo vindo de uma imagem selvagem, e Andy ainda relembrava mentalmente a Capitã andando com a Shotgun nas mãos prestes a disparar, se tornou amor. Piegas sim, ele não tinha mais idade para fingir, ele estava apaixonado no sentido completo da palavra. E a cada olhar dela, cada pequeno gesto que demonstrava algum carinho, ele se arrependia das duras palavras que já disse a ela.

 

Na curta viagem de volta Sharon percebeu Andy muito pensativo, eles mal trocaram palavras enquanto o automóvel ganhava as ruas em direção a seu apartamento. Tudo o que lhe restou foi enfrentar seus próprios pensamentos e chegar a conclusão de que, talvez, dar as mãos foi algo um pouco além do que ele esperava. Foi um impulso ao sentir as mãos se tocarem enquanto andavam, ela achou certo segurar os dedos dele com os seus, sentir a pele quente naquela brisa fria pós chuva. De certo um erro, sendo que sequer havia acontecido um primeiro beijo.

O olhou, reunindo tudo o que sabia sobre ele. Andy era um homem divorciado há muitos anos, que explorou sua sexualidade com inúmeras moças mais jovens, talvez ele não buscasse um relacionamento. E se fosse isso Sharon certamente o assustou ao permitir que suas mãos se entrelaçassem, era até compreensível que ele não quisesse conversar com ela naquele momento, mas eles teriam, Sharon não poderia ser casual como Andy estava acostumado, ela se orgulhava de ser uma boa cristã.

O carro parou e ela foi arrancada de seus pensamentos ao perceber que ele era elegante o suficiente para ser cavalheiro e lhe abrir a porta com um sorriso impecável no rosto.

- Café? - ela perguntou, as palavras saltando de sua boca sem que pudesse se conter.

- Por favor.

Parecia estranho, um tanto mecânico e ela queria se estapear por ter permitido que o bom clima se dissipasse com um gesto tão bobo, era apenas mãos dadas… Homens e suas limitações emocionais. E eles ficaram ali, se olhando por um tempo até ela indicar a porta com um movimento de cabeça. Passaram pelo saguão vazio o que ampliou o silêncio entre eles, continuaram o caminho até entrarem no elevador. E aquele silêncio estranho de quando ninguém sabia exatamente como agir, permanecia.

- Foi um bom jantar. - Andy murmurou se sentindo estranho sob a própria pele.

Ele a olhou quando apenas um murmúrio de concordância veio em resposta, havia um passo de distância entre eles que parecia incorreto, então Andy se aproximou, deixando seus braços se tocarem e foi a sua vez de puxar a mão dela e entrelaçar os dedos. E de repente tudo o que parecia fora de eixo se encaixou com a mesma perfeição que suas mãos.

- Foi um jantar maravilhoso Andy. - ela respondeu em um quase sussurro, sentindo todas as dúvidas se dissipar com um único toque da mão dele na sua. Era bom saber que, talvez, estivessem na mesma página. E isso não anulava a conversa que deveriam ter.

Mas, Sharon tinha de admitir, foi como um sopro de ar fresco, que varreu as preocupações no ritmo que o polegar dele se movia sobre o dorso de sua mão. Ela não se sentia inferior às moças jovens que tiveram algo com Andy, o real problema era se estivessem em momentos diferentes. Ela nunca gostou de sexo sem compromisso, mesmo tendo que admitir que havia feito algumas vezes ao longo dos anos e era semrpe um pouco sombrio, sem nenhuma elegância e a deixava com uma sensação de vazio a levando direto ao confessionário na manhã seguinte. Motivo o qual desistiu disso anos atrás, antes de ser transferida para a Major Crimes.

Eles se olharam por um breve momento, apenas apreciando a presença do outro e a atração inevitável os fez aproximar os rostos, os olhos verdes tendo uma visão de língua a umedecer os lábios finos. Se isso ia acontecer que acontecesse, Sharon estava uma massa de nervos e ansiedade desde o último encontro deles onde percebeu as intenções românticas. Mas foi o som do elevador parando e abrindo as portas que os chamou de volta a uma realidade confusa. As mãos se separaram e Sharon se antecipou a sair, suas sobrancelhas se unindo ao mesmo tempo em que soltava lentamente o ar dos pulmões. Era excitante, empolgante e levemente assustador a forma como as coisas tendiam a se aquecer quando estavam a sós. Ao abrir a porta, ela esperou ser recebida por Rusty com um comentário ácido, mas o silêncio a fez lembrar-se que estava sozinha. 

Sozinhos.

Puxou novamente o ar para seus pulmões e colocando a chave no aparador ela se virou para encarar o homem que parecia existir apenas para testar seus limites. Começou a remover o blazer para ter algo o que fazer com as mãos e sentiu as dele pressionando seus braços se arrastando para cima até os ombros a reduzindo a um gemido leve.

- Me permita. - pediu se posicionando atrás dela.

E que Deus olhasse para outro lado enquanto Andy invadia totalmente seu espaço pessoal removendo a peça de vestuário, deixando os dedos deliberadamente tocar a pele sensível de seu pescoço enviando um arrepio tentador ao resto do corpo. 

Andy se moveu, apenas seguindo o instinto, ignorando os avisos de sua mente de que poderia estar pulando etapas importantes. Ele precisava sentir. Conforme removia o blazer dela permitiu uma proximidade que ainda não haviam experimentado, o perfume o atingindo fortemente o levando a ousar um pouco mais ao aproximar o rosto e permitir que primeiro seu nariz a tocasse no pescoço, logo abaixo da linha da mandíbula. Foi um gemido que ela não conseguiu segurar que o inspirou ao próximo passo, beijando levemente a pele, seus lábios percorrendo uma linha imaginária até a parte de trás de uma orelha.

- Andy…

- Hmm?

- Oh céus...

A notou virando em seus braços, as mãos o envolvendo no pescoço ao passo que a pouca distância tornava-se nula. Os lábios dela tremiam levemente quando alcançou o limite de sua gola e os deixou se arrastarem ali, tornando a gravata muito apertada de repente. Abraçou, a mão esquerda se afundando nos cabelos macios, a direita segurando no queixo para ajustar a posição correta. O beijo veio em seguida, um impulso que Sharon parecia não conseguir controlar. Andy só podia imaginar o quanto isso a deixava exposta. Foram muitos anos que ela se fechou para essas sensações e era para ele que ela se abria novamente.

Ao compartilhar o primeiro beijo ela o olhou, a mente deliciosamente nublada, e o que começou sublime se tornou intenso em um breve afastar de rosto para uma rápida respiração. A mão dela se fechou em punho segurando o tecido do terno cinza, a boca assaltando a sua novamente com uma fome que o surpreendeu positivamente. As línguas envolvidas em uma dança antiga, antiquada e agitada, cada uma buscando explorar um pouco mais. E então a necessidade de um novo fôlego os fez por olhos nos olhos, foi a primeira vez que viu o olhar de Sharon daquela forma, olhos escuros por trás dos óculos, extravasando pura luxúria, e que o inferno o levasse, aquela era a coisa mais bela que ele já viu.

Era tudo Sharon Raydor naquele momento. O mundo lá fora parecia ter deixado de existir. Andy mordeu o lábio inferior controlando aquele pequeno comentário que sua mente fazia de modo insistente.

‘Leve-a para a cama.’

- Hmm, ainda vamos tomar café? - a pergunta veio a fim de cortar aquela linha ousada de pensamento, eles pularam alguns passos e não queria pular os próximos.

A pergunta dele fez Sharon rir, levando a mão aos lábios em busca de algum controle. E felizmente isso evitou que qualquer tensão pós primeiro beijo se formasse e ela o abraçou, seu corpo ainda se sacudindo levemente com as risadas.

- Claro. - o beijou no rosto pouco antes de se afastar e seguir em direção a cozinha.

- Mas não pense que terminamos isso…

- Oh, não? - ficou na ponta dos pés alcançando o pó de café. Ela gostava das coisas à moda antiga e o café caseiro era muito melhor do que feito por essas máquinas modernas. - E o que vem depois?

- Depois do café iremos para o sofá. - Andy a olhava, era adorável poder ver Sharon tão à vontade.

- E?

- E então veremos.

- Não parece ter feito planos a longo prazo Tenente.

- Oh, eu acho que a Capitã vai gostar de um pouco de improvisação.

- Talvez.

Eles se olharam intensamente enquanto a água aquecia, e novamente surgiu aquela urgência, Andy desfazendo o espaço entre eles a puxando em seus braços. Beijá-la era algo maravilhoso, extremamente viciante e ele sendo um homem fadado a vícios podia se enxergar claramente dependente disso. As mãos dele desceram das costas para a cintura apertando a carne sobre o tecido e em resposta a isso sentiu a perna dela subir lentamente em uma carícia um pouco mais íntima do que ele pensaria. E foi de improviso que a pegou no colo, colocando sobre a bancada, as mãos descendo para as coxas e subindo novamente, elevando consigo um pouco da saia justa de modo a criar espaço para estar entre os joelhos dela.

- O improviso parece muito bom. - Sharon falou, a mão segurando o pulso dele impedindo de ir um pouco mais adiante e arrancando dele um riso leve.

Foi fácil se perder em meio a todas as emoções que surgiam e a conversa que deveriam ter ficou esquecida em um canto remoto da mente de Raydor. Sua atenção era para o homem que estava feliz ali, agindo por impulsos em alguns momentos, mas andando a seu lado seguindo seu ritmo, um passo de cada vez. 

O cheiro de café sempre a lembraria daquele momento, tornando a bebida um pouco mais especial para ela. E ali no sofá, com as mãos próximas enquanto dividiam uma xícara de café, ela podia ver um futuro promissor para eles dois.