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Chamada de Descontrole

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O Professor estava motivado. Extasiado. Encantado. Tinha sido a melhor noite de sua vida. Mesmo que Raquel ainda o chamasse por Salva. Mesmo que, para ela, ele fosse só um bom sujeito. Mas isso não o deixava menos entusiasmado: encontrara nela algo, um cheiro, um toque, que fazia seu coração se descontrolar. Seu plano pessoal era, agora, fugir com Raquel para um país do Caribe. Ao aceitar tal sugestão, a inspetora acabara por iluminar a vida do Professor, que havia sido reduzida, no início do assalto, a poças d'água e paredes escuras, uma solidão que ele não queria experimentar novamente.

Camarões havia sido um sucesso. Andrés falara extremamente bem, e tinha posto a polícia em maus lençóis. Estava tudo no plano.
Mas o mundo quase desabou quando a moça no jornal anunciou que o subinspetor Rubio estava para sair do coma.
O desespero tomou conta do corpo de Sergio, e era um problema que tinha que ser controlado. Pelo bem de todos. Seu primeiro instinto foi ligar para Andrés porque, certamente, ele saberia o que fazer.

"É uma armadilha."
"Uma armadilha em 90%."
"99%"

"Sergio, você é inteligente. Você sabe como deixar alguns policiais confusos"
O Professor riu.
"É verdade."
"Sabe que… Eu fiquei confuso com alguns acontecimentos que vi na televisão… Talvez queria me falar disso"
"Do que você tá falando, Andrés?"
Berlim respirou fundo.
"O que fazia na casa em Toledo?"
Sergio tremeu. Relembrar o medo que sentiu enquanto estava lá o fez gaguejar.
"Estava resolvendo outro cabo solto."
"Porra, Sergio, não mente pra mim. Se Rubio sabe sobre você, é porque você estava perto demais. E se estava perto dele, estava perto da inspetora também. Como você chegou lá, se só haviam policiais?"
O Professor encarava o tabuleiro de xadrez, abstraindo as possíveis jogadas, enquanto sua mente insistia em mostrar flashes de sua noite com Raquel. Balançou a cabeça para tentar afastar aqueles pensamentos. Tão errado, tão proibido e tão politicamente incorreto. Até pensar nela parecia proibido, talvez fosse o medo de que qualquer um desconfiasse do que acontecia. E agora Berlim lhe perguntava o que não deveria ser sequer pensado.
"É complicado, Andrés."
"Estou dentro da Casa da Moeda da Espanha, irmaozinho, tenho todo o tempo do mundo!"
O Professor suava, passando a mão pela testa e tentando achar uma maneira de fugir das perguntas. Ninguém podia saber.
"Não posso. Te conto os detalhes quando saírem daí."
Berlim se irritava.
"Sabe muito bem que eu posso não sair daqui. E que tudo pode dar errado"
"Andrés…"
"Sergio, por que você era o único civil na casa de Toledo?"
O mais novo encostou-se no sofá e olhou para o teto. Tudo era sujo, escuro e úmido.
"Eu não calculei direito." sussurrou o Professor, ajeitando os óculos, como fazia sempre.
"O que fez?"
"Andrés, eu…" as lágrimas surgiram nos seus olhos "Andrés, eu me envolvi com ela. Com a inspetora."
Berlim ficou estático. O telefone quase caiu.
"Sergio…" sussurrou, irônico "Sabia que você não era um homem tão decente quanto parece ser. Que decepção, dormir com a inimiga para tirar vantagem… Tsk tsk tsk…"
"Não foi nada disso… Eu… " respirou fundo, e em seguida levantou a voz "Eu me aproximei só por estar por perto, para ver se conseguia alguma informação… Foi completamente por acaso."
Berlim riu com deboche. Como seu irmão, tão genial, podia ter feito algo tão estúpido?
"Ah, sim. Vocês se trombaram na rua e decidiram que seria uma boa ideia arrancarem as roupas…"
"Me poupe, Andrés."
"Don Juanito, espero que saiba onde se meteu."
"Eu não tinha planejado!" gritou.
Berlim ficou mudo, percebendo o descontrole do irmão. Ele raramente ficava assim, geralmente em situações em que seu intelecto brilhante não resolvia um problema. E sempre ficou perceptível para Andrés que Sergio se descontrolava facilmente quando o tal problema era uma moça: o mais novo não conseguia conceber a ideia de que alguém o impediria de um raciocínio limpo, claro, objetivo.
O Professor respirou fundo novamente.
"Andrés, ela apareceu no café na primeira noite. Eu estava lá e ela entrou, sentou perto de mim. Eu TINHA que me aproximar, que aproveitar ao máximo essa chance. Só que…"

"Está gostando dela." Berlim concluiu.
As lágrimas correram pelo rosto do Professor e atingiram o tabuleiro. Ele suspirou e tentava conter a angústia de seu peito.
"Foi totalmente inesperado."
Berlim levantou os olhos, debochado, inquieto e completamente irritado com a situação.
"Que eu saiba você só se apaixonava platonicamente pelas enfermeiras e, depois, pelas garotas que trabalhavam nas bibliotecas."
Sergio levantou do sofá, pegou a cartolina vermelha e a encarou.
"Andrés, ela me dá vontade de viver."
Berlim riu.
"Só peço que você pense primeiro em como nos tirar daqui, e depois se concentre em ter vontade de viver."
Sabendo que tinha sido uma péssima ideia contar ao irmão sobre seu sentimento, o Professor sentiu vergonha, como se ter alguma "vontade de viver" no meio daquele caos que tinha se tornado o plano fosse algo ridículo. Nada podia ser considerado mais importante do que tirar os assaltantes de lá com vida. Sergio ajeitou os óculos, nervoso.
"Certo."
Berlim deitou na mesa de madeira, ainda segurando o telefone.
"Mas me diga… Estão juntos? Por isso ela te levou para a casa em Toledo?"
"Bom…" Sergio se concentrava na poça d'água sob seus pés "Sim. Um pouco mais complicado que isso, mas sim."
"E ela gosta de você também? Não me diga que ela também se apaixonou, irmaozinho, que ficarei extremamente surpreso de alguém ter se encantado com sua falta de jeito…"
"Berlim!"
"Ora, Sergio, me deixe brincar. Tenho certeza que minha cunhada inspetora ficará muito feliz em saber que seu novo namorado vai desaparecer numa questão de dias. E outra: ela não pensou em te investigar? Deve estar cega de amor…"
O Professor deixou a cartolina vermelha sobre a mesa, encarando a imagem do irmão na tela do computador.
"Andrés, eu estou lidando com isso da melhor forma possível. Por favor…"
"Ok, te deixo agora. Só me diga que, caso ela descubra antes da hora, vai fugir."
"Andrés…"
"Sergio..." suspirou "Escute: aproveite ao máximo, mas nos tire daqui."
"Com certeza"
"Mande lembranças à inspetora. E espero que ela não esteja fingindo orgasmos com você."
Berlim desligou o telefone com um sorriso no rosto, e semeou a insegurança do irmão. Mas não era momento para balançar.
O Professor tinha um compromisso muito importante.