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Inflexão

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Tempos Atuais – Segunda Grande Guerra Shinobi, após deixar Sakura e Nagato a salvo com Tsunade

 

 

Após salvar sua flor, o homem Uchiha retornou ao seu esconderijo. Quando deixou seu henge desfazer-se, Madara olhou para suas mãos enrugadas e não pode evitar lembrar-se de seu amigo atrevido e suas perguntas atrevidas.

 

 

Yoshi foi o garoto, o amigo, que lhe fez pensar pela primeira vez em uma rosinha que vira quando ainda era criança. Mau sabia ele que Yoshi, cujo nome significa bom, era o homólogo de Jashin na Terra e que por meio do garoto o deus começou a pôr em prática seus planos de influenciá-lo.

 

 

 

Flashback on

No passado de Madara (5 anos antes da morte de Izuna)

 

Acampamento secundário Uchiha - Campo de treinamentos central – Noite antes da batalha contra o clã Hyuuga

 

 

 

Após um longo dia de descontração, todos os homens encontravam-se bêbados ou levemente alterados pelo álcool que regou os momentos de disputas amigáveis entre clãs aliados nas batalhas. Sendo este um território amigo, Uchihas e Hagoromos misturavam-se e igualmente festejavam as vitórias que viriam.

 

 

O acampamento secundário dos Uchiha servia de alojamento e estava sob os cuidados do clã Hagoromo. Mas, em épocas de batalhas contra os Hyuuga os Uchiha tomavam a posse das instalações principais como lhes era de direito.

 

 

O sol já havia se posto quando de baixo de inúmeras árvores espalhadas pela floresta, mulheres Hagoromo beijavam homens Uchiha e insinuavam-se. As fêmeas Uchihas não se faziam presentes porque moravam no assentamento oficial do clã e não acompanhavam os homens nos deslocamentos para a batalha. Já as Hagoromo viviam no acampamento cedido pelos Uchiha com suas famílias. O qual era visitado no momento.

 

 

Estranhamente, ou não, nenhum dos homens Hagoromo fez questão de companhia feminina naquela noite. Apenas bebiam como se não houvesse outro dia e fingiam não perceber a postura das componentes femininas de seu clã.

 

 

Uma coisa não saia como os Hagoromo planejaram. Dois dos mais importantes oficiais Uchiha não cederam aos encantos das mulheres. Porém, pelo menos pareciam não notar o plano em curso. Uchiha Madara e Uchiha Yoshi apenas bebiam ávida e silenciosamente.

 

 

A noite avançou e aqueles dois jovens meio cambaleantes adentravam um dos aposentos dos alojamentos destinados aos oficiais Uchiha. Sem muita cerimônia, retiraram suas botas e armaduras e jogaram-se cada um em seu futon. De tão cansados e pelo avançar da hora, ninguém se dispôs a banho.

 

 

Ambos os rapazes tinham feições, porte e modos típicos de Uchihas: Cabelos negros, olhos negros, pele clara, traços masculinos marcantes e atraentes, andar marcial e trajavam armaduras escarlates, como os olhos que as vezes se acendiam rubros na batalha. Não havia nada muito diferente disso que pudesse distinguir o mais jovem (16 anos) de todos os outros do clã. Exceto por ser muito falante e porque ainda não havia despertado seu sharingan, o dounjutso de assinatura Uchiha (ou era isso que ele queria que pensassem). Uchiha Yoshi, esse era seu nome.

 

 

Quanto ao mais velho, ele tinha todas as características de um Uchiha e possuía coisas que levaram seu pai, seu clã e as nações a reconhecerem que este era de fato um guerreiro perfeito, um Uchiha genuíno. Ele não podia ser comparado a ninguém porque como ele nunca houvera outro. Não, não havia shinobi vivo mais imponente, de tez mais dura, poder e genialidade na guerra maiores do que ele.

 

 

Bem, em poder e genialidade havia sim quem lhe fizesse frente, os irmãos Senju Hashirama e Senju Tobirama eram muito admirados por isso. Mas, este que comemoraria seus 17 anos com uma batalha para extermínio de um clã, era inigualavelmente mais temível e sombrio.

 

 

Uchiha Madara era a imagem da guerra, do poder e da morte personificados em um homem. O ódio parecia tomar conta do guerreiro de longa juba negra. Fingindo não conseguir dormir, Yoshi virou sua cabeça lentamente na direção de seu companheiro. Aquele se que se encontrava deitado no futon ao lado e insistentemente contemplava o teto como sempre.

 

 

Yoshi decidiu que era hora de instar o Uchiha reflexivo mais a fundo. O menino precisava de mais algumas respostas para decidir sobre o que estava por vir.

 

 

 "Não sentes tais desejos, Madara?"

 

 

‘Ele deve estar falando a respeito do acontecido com as Hagoromo, eu suponho’ Madara nem sequer o fitou, por isso não percebeu que a curiosidade do jovem ao seu lado era maior do que ele pensaria ser normal.

 

 

Alienado, o herdeiro apenas abriu a boca em resposta, permanecendo com a expressão demonstrativa de alguém que estava com a cabeça longe dali. Em outra dimensão até.

 

 

"Meus pensamentos somente são para a guerra desde que meu primeiro irmão faleceu e isso aconteceu quando eu nem ainda sabia manejar uma kunai direito".

 

 

Nisso, Madara em parte havia falado a verdade. De fato, seus pensamentos só se ocupavam com a guerra desde então.

 

 

No entanto, uma única vez pegou-se refletindo profundamente sobre 'sentimentos'. Lembrou-se ele, de quando seu pai o chamou para lhe passar ensinamentos sobre os costumes originais de matrimônio em seu clã.

 

 

Ao ouvir sobre suas tradições, o jovem Madara se questionou se de fato um dia teria condições de amar alguém além de seu último irmão. Ele sabia que a guerra não lhe deixaria nada. Então, tudo o que adolescente menos queria era mais alguém para lhe ser arrancado.

 

 

Se algum dia ele se casasse, mas perdesse seu irmão, a vida perderia o sentido de ser. Não seria qualquer estranha com pedaços de pele a mostra que o faria acender a lanterna na profunda escuridão que se tornaria seu coração.

 

 

O tempo passou e ele envelheceu, em suma, a única ideia de amor que o Uchiha experimentara era a de amor fraternal.

 

 

Yoshi, ainda mais intrigado com a resposta do amigo, resolveu tentar outra pergunta. Porém, ele sabia que já estava ultrapassando os limites da paciência do mais velho, que não era de muita conversa.

 

 

Todavia, o rapaz sentia que aquele momento era propício. Talvez fosse pelo efeito do saquê que parecia deixar o outro mais falante.

 

 

Então, sentando-se em seu futon, o jovem virou-se em direção ao amigo e com as pernas cruzadas (como quando se medita), espalmou as mãos cobrindo cada um de seus joelhos. Juntou as sobrancelhas em uma expressão enrugada de espanto/admiração em seu rosto.

 

 

"Sério, Marada-san?! Nunca amaste ninguém?"

 

 

Sim, ele se atreveu. Mesmo sabendo que estava literalmente “cutucando uma onça com vara curta” ... e neste caso estava mais para um gigantesco leão.

 

 

Pois é, Yoshi sabia que o temível Uchiha Madara odiava intromissões em sua vida privada (aliás parece que ele odiava tudo, afinal). Ele estava ciente de que tudo o que dizia respeito aos seus sentimentos do seu superior era sensível,  já que seu coração estava enegrecido pelo luto e ódio eternos. Mesmo assim, se atreveu.

 

 

Saindo de seus devaneios, Madara finalmente percebeu a curiosidade daquele que sem amor à própria vida lhe interpelava acerca de seu íntimo. Com calma admirável (para ele) e após um longo suspiro, respondeu:

 

 

"Não. Mulheres não significam nada para mim. São seres fracos e tediosos – Madara não sabia, mas Yoshi conhecia a verdadeira razão do porquê aquele homem sempre andava sozinho".

 

 

Um longo silêncio se seguiu, nisso Madara continuava suas reflexões. Desta vez, forçado pelo momento a pensar sobre mulheres.

 

 

O Uchiha lembrava-se de que fora sua mãe, que havia falecido, a única mulher com quem ele tivera contato foi uma certa pequenina menina de cabelos rosados (dar ordens a servas e pedir conselhos a Yume-baa-chan não contava para ele).

 

 

Foi difícil, mas ele admitiu para si mesmo ‘Eu poderia admirá-la também’.

 

 

Nostalgia o inundava e um pequeno sorriso se ensaiou em seus lábios quando a tristeza repentinamente o atingiu.

 

 

‘A guerra já a deve ter levado... tanta inocência não pode sobreviver a esse mundo desgraçado’. Suas feições eram uma carranca dura agora.

 

 

‘Poder... Ódio... Guerra... Dor... É para isso que homens como eu foram forjados. Amor, talvez só pode descrever o que sinto por minha família e meu clã’.

 

 

"Eu acho que posso te entender... Talvez..." Yoshi quebra o silêncio novamente. E segue afoito, derramando várias dúvidas de uma vez só:

 

 

"Mas... mesmo dentre as moças do nosso clã, não achaste nenhuma digna para tornar-se sua hime? Que características tão especiais procuras?..."

 

 

"...Sabes que agora que estas próximo dos 18 anos completos, certamente teu pai e o conselho irão pressionar-te para escolheres a futura matriarca?! Afinal, não é dado a tua linhagem privar nosso clã de herdeiros".

 

 

Ao expor suas dúvidas Yoshi não evitou descortinar toda a curiosidade que tinha em sua expressão. O jovem viu em seguida o rosto de Madara empalidecer-se, um longo silêncio se seguiu acompanhado de um ar que se tornava cada vez mais denso.

 

 

Sabendo bem o que significava isto, o garoto resolveu pedir desculpas na tentativa de abrandar qualquer efeito negativo causado em seu companheiro por sua ousadia. Ele precisava ter calma. Já havia conseguido muito em uma única noite.

 

 

Baixando a cabeça e mudando sua expressão, antes curiosa agora para uma solene e servil, o garoto ajoelhou-se ao lado do futon do outro e com a testa colada ao chão iniciou seu pedido de desculpas.

 

 

"Madara-sama, por favor, me perdoe pela intromissão. Peço sinceramente que não me leve a mal, sei que não possuímos intimidade suficiente para que eu me dirigisse ao senhor nesse tom e ainda por cima falando sobre coisas tão intimas. Por favor, eu imploro que aceite minhas desculpas!" Para o mais velho, o menino pareceu estar de fato arrependido.

 

 

Madara, percebendo a constrição do rapaz, viu-se em um dos raros momentos em que não estava a fim de punir ninguém. Ainda mais alguém que claramente se arrependera de sua petulância.

 

 

Lembrou-se ele de que o garoto tinha gradual e incansavelmente conseguido fazer Izuna esquecer-se de suas perdas e voltar a guerra como o guerreiro que era.

 

 

Além de que, seu irmão já o via como um amigo verdadeiro. Yoshi ajudará Izuna a superar muitas das tragédias em sua vida, simplesmente por ouvi-lo, quando Madara não estava presente.

 

 

Neste momento, o Uchiha sem dúvida não puniria Yoshi por tão pouco, nem mesmo com a mais leve das punições.

 

 

O futuro líder de clã tinha mesmo que admitir, o garoto era uma boa pessoa. Madara confiava nele e gostava de ouvi-lo, apesar de fingir lhe ser indiferente todo o tempo.

 

 

O herdeiro Uchiha, que ainda fingia contemplar o teto do alojamento, virou-se dando as costas para o garoto. Yoshi permaneceu ajoelhado parecendo um tanto temeroso ao seu lado, até que seu senhor decidiu se pronunciar, em seu tom sério costumeiro:

 

 

"Você fala de mais, Yoshi. Vá dormir, porque se amanhã estiveres desatento durante a batalha pelos efeitos do álcool e falta de sono, te deixarei morrer".

 

 

'Hn...É como pensei!' Jashin exclamou satisfeito na mente de Yoshi. Ambos tinham um enorme sorriso estampado em suas feições, o do rapaz Uchiha estava visível, quando ele voltou ao seu futon.

 

 

'Boa atuação, Yoshi!'

 

 

'Eu disse que não decepcionaria, Jashin-sama!'

 

 

'Hn, a partir de agora teremos muito mais trabalho. Espero que continue assim'

 

 

'Hai!' O rapaz exclamou, já sonolento.

 

 

As noites de Madara se tornariam mais intrigantes a partir daquele dia, pois o ‘menino’ se certificaria de que seu amigo começasse a sonhar com as lembranças de seus encontros com uma mulher de cabelos rosáceos.