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Alguém Tem Que Ceder

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CAROLINE

 

Confesso que quando estou meio alta sob o efeito de álcool, meus sentidos ficam um pouco loucos e nada confiáveis. Ainda assim, me esforço para que minha mãe não saiba que eu bebi em sua ausência, afinal, ainda não tenho vinte e um.

Quando cheguei na casa de Hamptons levando o jantar, encontrei mamãe e Andrea na cozinha em um clima um pouco tenso e estranho. Me pergunto se elas estavam brigando, afinal, isso é comum. Elas têm um ar de crianças flagradas por um dos pais. Andrea confere sua camisola assim que eu entro e arruma o cabelo com os dedos. Minha mãe a olha um pouco chateada.

CAROLINE - Serviço de quarto!

MIRANDA - O que você está fazendo aqui a esta hora?

Me aproximo dela e a beijo, a abraçando com o braço livre.

CAROLINE - Tive um grande leilão de fotos hoje à noite, depois saí com um monte de gente, verifiquei minhas mensagens e recebi uma mensagem tão triste de Andy, tão entediada aqui. Achei que deveria sair e pelo menos ver como ela estava.

Me aproximo de Andy e lhe dou um selinho. Minha mãe pigarreia e percebo ela um pouco pálida. O que está havendo?

CAROLINE - A propósito, obrigada pelas flores lindas. Elas eram tão grandes...

Andy sorri e olha para mamãe, sigo seu olhar e percebo que ela está com os olhos fechados, parece irritada ou triste. Nunca a vi assim.

CAROLINE - Mãe? Você está bem?

MIRANDA - Claro, querida.

Ela sorri nada convincente. Eu estou realmente preocupada.

CAROLINE - Então, como vocês estão? Oh, isso é muito doce, você está fazendo panquecas? Awwn. E vocês duas estão de pijamas. Agora sinto que estou interrompendo.

MIRANDA - Não seja boba. Você sabe que eu nunca durmo e essa aí também não dorme. É... O que tem na sacola?

CAROLINE - Um litro de sopa de bolinho de matzoh para Andy. Para a mamãe, seu pão de passas favorito. E para mim... Minha vodka favorita.

MIRANDA - De jeito nenhum! Você não vai beber isso.

Ela confisca minha garrafa, meu celular começa a tocar e eu o atendo.

CAROLINE - Olá? Não, estou aqui, querida. Tempo recorde. Todo mundo ainda está aí?

Olho para a minha mãe e ela parece desconfortável, se mexe de forma estranha, arrumando o cabelo para trás de forma nervosa e  parece não querer olha para nós. Enquanto Andy não desvia o olhar dela. Desligo a ligação e jogo o celular na bolsa.

MIRANDA - Então, Bobbsey, agora que você está aqui, por que não termina as panquecas e eu volto ao trabalho...

CAROLINE - Mãe! Acabei de chegar aqui, espere. Então, seu ex-marido me deu um bolo hoje. Deveríamos almoçar na Barneys. Ele não apareceu. Ele sempre foi assim?

Abraço Andrea pela cintura e minha mãe parece ficar cada vez mais irritada, mas ela força um sorriso para mim. Achei que as duas tinham superado esse conflito.

MIRANDA - Querida, não sei...

CAROLINE - É o que acontece depois que um casal se divorcia, a criança herda todos os problemas. Não que eu seja uma criança.

Olho para Andy e lhe dou um novo selinho, mas ela parece distante e sem graça.

CAROLINE - Então, como você está, como se sente? Quando você pode ir para casa?

MIRANDA - Eu- eu realmente vou trabalhar um pouco... vocês duas terminam as... é só vocês…

Minha mãe está balbuciando?

ANDREA - Você não quer mais panquecas?

Andy pergunta com um tom de voz triste. Espera aí...

MIRANDA - Eu, uh, eu não acho que eu ... eu... Não. Eu não.

Ela olha para mim e depois para Andy, eu apenas observo ela sair um tanto desconcertada e então meu olhar se volta para Andy, seus olhos brilhando, seguindo minha mãe para fora da porta.  Esse sentimento tão claro que vejo no rosto dela, eu nunca vi quando ela olha para mim.

Não, não, não. Ela gosta da minha mãe? Isso não é nem tão chocante, mas minha mãe gostar dela!? Elas se gostam!? Putz, isso é tão perfeito!

QUARTO PRINCIPAL

Alguns momentos mais tarde, entro no quarto de minha mãe e ela está com novos pijamas. Calça e blusa. Deitada de lado mexendo em seu celular. Deslizo para cima da cama e a abraço por trás.

CAROLINE - Minha mamãe me falou que não é saudável ficar mexendo no celular no escuro.

Ela suspira e guarda o aparelho, se virando para mim e me abraçando. Minha mãe enterra seu rosto em meu pescoço e cantarola.

MIRANDA - Cheirinho de morango.

CAROLINE - Preciso parar com o shampoo infantil.

MIRANDA - Precisa tirar ela daqui.

CAROLINE - Mãe…

MIRANDA - Eu quero que ela vá embora, leve-a de manhã cedo.

Ela não diz em seu tom rígido costumeiro, mas sim, de um modo um tanto triste. Pobre mamãe. Imagino o quão deve ser difícil gostar da namorada da filha.

MIRANDA - Olha, eu consigo conceber que vocês namorem… eu… eu vi vocês duas e são simplesmente perfeitas. Jovens, com os mesmos interesses, cheias de energia e beleza. Vocês ficam realmente adoráveis juntas, mas não a suporto e a quero longe de mim.

CAROLINE - Eu vou terminar com ela.

Ela se move e me encara totalmente surpresa.

MIRANDA - Como assim? Por quê?

CAROLINE - Porque conheci outra pessoa.

MIRANDA - Nos dois dias em que você esteve fora?

CAROLINE - Você me conhece, minha vida é uma loucura. Eu encontro mil pessoas todos os dias. Além disso, vamos aos fatos, ela e eu não temos absolutamente nada a ver. Eu seria louca se continuasse com isso.

MIRANDA - Verdade, mas descobri que ela não é tão péssima, você sabe que ela é...

CAROLINE  -  Eu sei. Ela fica sensível quando você não espera, certo?

MIRANDA - É enervante.

CAROLINE - Eu sei, mas eu conheci esse cara…

MIRANDA - Cara? Você está namorando um homem?

Ela parece mais assustada do que quando apresentei Andy. Me pergunto o que é pior.

CAROLINE - Sim, você sabe… eu também curto rapazes.

MIRANDA - Urgh! Você nunca mostrou interesse por rapazes.

CAROLINE - Ele é um dos legais, juro.

Ela revira os olhos.

CAROLINE - Essa é a magia de ser bissexual, você tem mais opções… escuta… a senhora nunca se sentiu atraída por uma mulher?

MIRANDA - Como chegamos a isso mesmo?

CAROLINE - Vamos lá, não custa nada responder. Você sempre pregou a liberdade sexual.

MIRANDA - Isso não inclui falar de minha vida íntima com minha filha.

CAROLINE - Então a resposta é sim?

Ela pondera um pouco antes de responder.

MIRANDA - Uma vez… Há muito tempo, mas não foi nada demais.

CAROLINE - E o que aconteceu?

MIRANDA - Fomos para caminhos diferentes.

CAROLINE - É a Andy?

Ela cresce os olhos e fica alguns segundos piscando.

MIRANDA - Como você…

CAROLINE - O jeito como vocês se olham… e só para você saber, é recíproco.

Ela fecha os olhos como se aquela informação doesse.

CAROLINE - Agora, mãe, se você pudesse lidar com isso, eu estava pensando... você e Andy...

MIRANDA - Eu não posso lidar com isso. Tire essa possibilidade de sua cabeça.

CAROLINE - Mas você só está dizendo isso porque acha que eu e ela fizemos sexo.

MIRANDA - Sim. Não fizeram?

CAROLINE - Nem chegamos perto. Juro por Deus.

Ela morde o lábio pensativa.

CAROLINE - Só estou colocando isso... porque para duas pessoas que estão convencidas de que têm uma vida melhor sem relacionamentos, havia algo cozinhando na cozinha mais cedo além de panquecas.

Ela finalmente sorri e nega com a cabeça. Depois esconde o rosto com as mãos.

MIRANDA - Isso é loucura!

CAROLINE - Ah mãe, você tem que relaxar um pouco, se divertir. Vai fazer bem para você. E eu juro que não me importo. Quer saber, vou falar com ela agora.

Dou um beijo em sua bochecha, me levanto e vou para o quarto de Andy, ela está com seu laptop no colo, sentada na cama.

CAROLINE - Minha mamãe diz que não é bom ficar com laptop no colo…

Ela o coloca em cima da cama.

CAROLINE - …ou em cima da cama.

ANDREA - Sua mamãe é uma mulher sábia.

Ela coloca o laptop na mesa de cabeceira e eu me junto a ela na cama.

ANDREA - Preciso falar com você.

CAROLINE - Oh, eu também.

Sorrimos e ela me abraça firme.

ANDREA - Eu te acho linda, inteligente, carinhosa, uma mulher e tanto.

Ela beija minha testa demoradamente.

ANDREA - Você é especial e uma preciosidade, como uma Priestly… mas acho que como um casal, nós não combinamos muito, afinal. Eu acho que somos melhores como amigas.

CAROLINE - Eu também. Gosto muito de você, Andy, mas acho que não conseguiríamos ir em frente com isso.

ANDREA - Sim, confundimos um pouco as coisas. Mas enfim, amigas?

CAROLINE - Amigas!

M IRANDA

 

MANHÃ SEGUINTE

 

A conversa com Caroline tirou todo meu sono a noite, estaria Andrea interessada em mim? Eu não sou o tipo dela afinal, o que ela iria querer comigo? Uma mulher mais de vinte anos mais velha que ela, divorciada, com filhas e... O telefone toca, e eu o alcanço.

MIRANDA - Olá.

Atendo e ele dispara a falar sem pausa.

JULIAN - Esperei um número razoável de horas antes de ligar para você, embora você esteja em minha mente desde que acordei às 5:15. Estou me perguntando quando poderíamos jantar novamente? Tenho que trabalhar nas próximas noites e se esperarmos até a semana que vem, sei que você vai desistir de mim, então, que tal sexta-feira? Eu sei que é como uma noite de encontro, mas acho isso bom.

MIRANDA - Quem é?

JULIAN - O quê?

MIRANDA - Estou brincando!

JULIAN - Você pode me encontrar no The Grill às oito?

MIRANDA - Okay. Sim. Isso parece bom.

JULIAN - Estou ansioso para ver você também.

Reviro os olhos e desligo o telefone.

Enquanto estou preparando o almoço, Caroline entra como um foguete.

CAROLINE - Okay, ela é toda sua.

MIRANDA - Pare com isso. Como ela reagiu?

CAROLINE - Ela apenas cuidou disso para mim; Ela foi uma lady. Elegante e sofisticada. Disse que nosso destino era sermos amigas...Meu Deus. Agora que percebi, foi ela que estava terminando comigo. Ela é um gênio.

MIRANDA - Impossível, ela não faria isso...

CAROLINE - Não importa, terminamos e ambas nos sentimos bem com isso. Eu tenho que voltar para a cidade.

Nós nos abraçamos e ela grita enquanto sai.

CAROLINE - Agora, Miranda Priestly, tente pensar nisso como a coisa mais inteligente que você já fez para si mesma.

Mal tenho tempo de absorver tudo o que está acontecendo e Andrea entra na cozinha.

MIRANDA - Olá.

Sorrimos uma para a outra.

ANDREA - Achei que adoraria saber que sua filha terminou comigo.

MIRANDA - Ela me disse vagamente.

ANDREA - Inventou uma história sobre conhecer um cara. Acho que eu não sou tão bonita com a testa rachada.

MIRANDA - Não, acho que ela realmente conheceu outra pessoa.

ANDREA - Ei, está tudo bem. A mãe dela não gostava de mim de qualquer maneira.

Sorrio e mordo o lábio, voltando minha atenção para a panela.

MIRANDA - Que tal eu fazer um almoço e hoje posso abrir concessão para tomarmos um vinho?

ANDREA - Você é uma ótima mulher, é por isso que meu médico está se apaixonando por você?

Reviro meus olhos e ela ri, fito ligeiramente seus lábios carnudos que se curvam divinamente. Aaah… isso é muita loucura!

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Próximo capítulo:

Eu já  não consigo pensar em mais nada. Deus, por que ela não me beija logo, está tão claro em meu olhar que eu quero isso.
Finalmente seu polegar desliza para meu lábio e o acaricia suavemente.

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