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Alguém Tem Que Ceder

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MIRANDA

 

Na manhã seguinte, me vesti cobrindo todo o meu corpo. Botas, calças, gola rolê e manga longa, chapéu e óculos escuros para esconder todo o meu constrangimento. Saí e comprei algumas coisas no leste de Hamptons e quando voltei para casa, encontrei a enfermeira que cuidaria de Andrea já indo embora.

ENFERMEIRA - Adeus, Sra. Priestly.

MIRANDA - Adeus? Você está indo? E a paciente?

ENFERMEIRA - Fui demitida.

MIRANDA - Demitida? Você apenas começou.

ANDREA - Não foi demitida, querida. Simplesmente não é necessário.

Sem olhar para Andrea, respiro de forma pesada e irritada, soltando lufadas violentas de ar. A enfermeira se vai e ficamos apenas nós três, Andrea, meu ódio e eu.

Olho rapidamente e ela parece ter acabado de sair do banho, cabelos molhados, robe curto de seda, parte dos seios à mostra e pernas nuas. Céus! Ela está linda!

MIRANDA - O que você quer dizer com não é necessário? Claro que precisamos dela. Ela vai cuidar de você e te alimentar e…

ANDREA - Não, não, estou realmente me sentindo muito melhor hoje. Fazendo uma grande recuperação...

Viro meu rosto mas continuo a olhando, ela não tem como saber já que estou de óculos escuros, Andrea fica brincando com a abertura do roupão e por Deus! Estou quase vendo seu seio por completo. Preciso sair de perto dela! 

ANDREA - Ouça, sobre a noite passada.

MIRANDA - Sim. Que tal nunca falarmos sobre isso? 

Empurro um pacote com certa violência contra seu corpo e solto, ela pega quase deixando cair.

MIRANDA - Eu estava na farmácia. Suas prescrições estavam prontas. Disseram para tomar dois com comida e outro sem.

ANDREA - Honestamente, não vi detalhes, você estava em silhueta.

MIRANDA - Eu acho que isso que está fazendo é "falar sobre isso".

ANDREA - Eu realmente não vi muito.

Que garota impertinente! Caminho na direção do meu quarto e percebo que ela me segue.

MIRANDA - Sim. Você ainda está falando sobre.

ANDREA - Okay. Não vou mencionar isso de novo, mas...

MIRANDA -  Vou trabalhar, Andrea.

Digo antes de fechar a porta do quarto.

ANDREA - (gritando) Você me viu de calcinha, você não me vê agindo como uma louca, usando chapéus e óculos e roupas estranhas…

Urgh! Garota impertinente, irritante, importunadora...

 

ANDREA

 

Estou em meu quarto sendo examinada pelo Dr. Julian, estamos sentados na cama. Julian afere minha pressão arterial.

ANDREA - Sim ou não. Qual é o problema, posso viajar?

JULIAN  - Você ainda está ficando tonta?

ANDREA - Não tanto.

JULIAN - Dores de cabeça?

ANDREA - Só às vezes.

JULIAN - Miranda que está cuidando de você?

ANDREA - Ela? Oh, ela é um grande desafio. A mulher é neurótica e fica na defensiva o tempo inteiro. Ela está para além de tensa.

JULIAN - Tensa? Isso é engraçado. Eu não percebi isso.

ANDREA - Experimente viver com ela.

Julian toma meu pulso. Então eu dou um leve sorriso quando me lembro da noite passada.

ANDREA - Na verdade, eu a vi nua ontem à noite.

JULIAN - Isso não parece tão tenso.

ANDREA - Foi um acidente. Ela pensou que eu estava dormindo, pensei que o quarto dela fosse a cozinha.

JULIAN - Você sabe o que Freud disse - não existe acidentes.

ANDREA - Confie em mim. Este foi um acidente. Embora, por que ela estaria andando nua se sabe que estou a 20 metros de distância?

JULIAN - Por que você pensaria que o quarto dela era a cozinha?

ANDREA - Estava escuro, eram duas da manhã.

JULIAN - Isso poderia explicar porque ela estava andando nua. Respire profundamente...

ANDREA - Você sabe, eu nunca vi uma mulher tão linda quanto ela antes e eu já vi muitas mulheres!

JULIAN - Você está brincando?

ANDREA - Estou dizendo, ela é como o sol finalmente surgindo, iluminando e dando cor a tudo depois de um dia chuvoso e cinza.

JULIAN - Bem, eu acho ela muito bonita e ela é uma editora fantástica, sabe.

ANDREA - Confie em mim, eu sei… Já fui funcionária dela.

JULIAN - De Miranda Priestly? Wow, Você teve sorte. Você sabe, milhões de pessoas matariam para trabalhar com ela. 

Ou matariam ela. Deve ser um daqueles fãs iludidos e deslumbrados. Eu entendo. Ele está escrevendo uma receita para mim.

JULIAN - Então, você namora a filha dela?

ANDREA - Não exatamente, ela é uma ótima garota. Deve se parecer com o pai. Me diga uma coisa, Doc, você acha que eu já posso...?

Aponto meu dedo fazendo círculos no ar na direção da minha genital.

JULIAN - Acho que você precisa pegar leve por mais algumas semanas.

ANDREA - Semanas?!

JULIAN - Você precisa de repouso. Vai ser bom para você. E só para você saber, depois que não sentir nenhuma dor e não estiver mais tonta, pode fazer sexo.

MIRANDA

 

 COZINHA

 

A chaleira apita quando Julian aparece na cozinha. Ele fica do outro lado da ilha enquanto sirvo seu chá. Está sempre sorrindo e olhando no fundo dos meus olhos, não deixo de pensar no que as meninas disseram. Não! É loucura demais, por que um homem tão jovem se interessaria por mim?

MIRANDA - Então, você está dizendo que ela não está pronta para viajar? Nem de avião? Trem?

JULIAN - Acho que não... Tem sido tão difícil assim?

MIRANDA - Bem, ela despediu a enfermeira depois de uma hora, agora diz que não precisa de uma. Ela é um pouco cansativa, inconveniente e impertinente... sim.

JULIAN - E você? Como está?

Interessante, ninguém nunca se interessa em saber como eu estou.

MIRANDA - Oh, ótima. Estou bem, estou bem...

JULIAN - Mais um "estou bem" e não vou acreditar em você.

O telefone toca e eu atendo rapidamente. Não sei porque estou tão nervosa perto desse médico.

MIRANDA - Oh, perdão, só um minuto… Olá...Oh, oi David...

Ele fica me estudando com um olhar penetrante, não sei como agir, sequer estou ouvindo o que David está falando, começo a brincar nervosa com meu brinco e sorrio um pouco tímida. Céus! O que está acontecendo comigo?

MIRANDA - O quê?... Não, finalmente consegui trabalhar um pouco ontem…

Tenho que desviar meu olhar, ainda assim, percebo que ele continua me encarando pela minha visão periférica. Crio coragem e o fito friamente com os olhos apertados, preciso erguer minhas defesas. 

Parece inútil, pois Julian desliza um pedaço de papel para mim. Olho para ele. É um pedaço de papel do seu receituário. Nele está escrito "Janta comigo esta noite?"

Ergo meus olhos para ele, completamente atordoada. Dificilmente alguém tem coragem de me chamar para sair, será que dei abertura para ele, mesmo inconscientemente? O que ele quer comigo? Por que gosto tanto dessa atenção que ele está me dando?

JULIAN - Pego você por volta das sete?

MIRANDA - Mas e Andrea?

JULIAN - Como ela disse, ela não precisa de enfermeira.

Ele pisca para mim e sai, fico petrificada até escutar a voz de David ao telefone.

MIRANDA - Oi! Perdão, viajei um pouco.

DAVID - O que houve? 

MIRANDA - Acabei de receber um convite para jantar.

DAVID - Um encontro? Seja quem for, coragem tem!

MIRANDA - Eu sei! Isso é loucura!

Alguns momentos depois, a tarde já está no fim, estou em minha mesa trabalhando e ouvindo música. Não consigo parar de pensar na forma como Julian me olha e no jantar de hoje à noite.

Meus pensamentos são interrompidos pela voz de Andrea, gritando ao longe para não me encontrar nua novamente.

ANDREA - Estou andando pela casa!

Não consegui evitar e ri. Minha guarda está baixa demais para rir dela fazendo graça de nosso momento estranho. Andrea chega na porta aberta do meu quarto e timidamente enfia a cabeça para dentro. Eu a olho sorrindo e nego com a cabeça, então ela aparece de corpo inteiro.

Andrea está vestida normalmente pela primeira vez desde o incidente, vestindo um lindo vestido de verão, branco e amarelo, de alcinhas, justo no busto e mais solto na saia. Ela está absolutamente linda! 

MIRANDA - Escute, eu decidi superar toda essa coisa de "você me viu nua". Então, não temos mais que lidar com isso. Certo?

ANDREA - Ótimo, porque estive me escondendo de você o dia todo.

Sorri ternamente. Meu humor está radiante, algo absolutamente raro.

MIRANDA - Eu sei. Você quer entrar?

ANDREA - Não quero invadir sua privacidade nem nada.

MIRANDA - Acho que é tarde para isso.

Andrea entra com cautela e curiosidade, observando os detalhes do meu quarto.

ANDREA - Bela pintura. Então, vou me aventurar lá fora e dar um pequeno passeio pela praia...

MIRANDA - Você está bem para isso?

ANDREA - Oh, sim. Não tenho sentido tontura nas últimas horas, acho que o sol de fim de tarde vai me fazer bem. Você não gostaria de se juntar a mim?

MIRANDA - Você quer que eu me junte a você?

ANDREA - Eu estou perguntando se você quer.

MIRANDA - Oh, bem, eu faria, mas ... Eu geralmente não gosto de interromper depois de começar a trabalhar, então provavelmente não deveria, não que um pouco de ar fresco faria mal, mas...

ANDREA - É apenas um passeio, Miranda, não uma proposta de casamento.

Solto um riso nasalado e desvio o olhar. Penso por alguns segundos, mas não consigo pensar em nenhum motivo para não ir. Mordo o lábio um pouco nervosa e respondo:

MIRANDA - Bom, por que não? Vamos lá!