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Alguém Tem Que Ceder

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ANDREA

 

Quando bebemos demais e temos amnésia alcoólica, tudo o que queremos é nos lembrar do que fizemos, saber se passamos por algum vexame ou se foi dito algo indevido no momento da embriaguez. Acontece que tem coisas que eu prefiro nunca saber, esse foi o caso da noite anterior. Eu me lembro de cada momento, cada palavra que eu disse para Miranda sob efeito da medicação, e sinceramente, preferia ter esquecido.

O alívio disso tudo, é que Love trouxe meu carro na manhã seguinte, e assim que eu receber alta, ela me levará embora e eu não terei que olhar aqueles olhos azuis nunca mais.

 

18 HORAS DEPOIS DO ACIDENTE

 

ENFERMEIRA - Agora, o que posso fazer por você?

A enfermeira, que flertou comigo durante todo meu tempo aqui, entra no meu quarto sorrindo. Eu já estou arrumada e maquiada, com meu elegante terno prada que modela minhas curvas.

ANDREA - Apenas diga-me que estou liberada.

Meu sorriso cresce quando Love entra logo atrás dela e não demora muito para o doutor sorridente entrar também.

ENFERMEIRA - Vamos liberar o furacão Sachs?

JULIAN - Sim, nós vamos. Olá, sou o Dr. Mercer.

Ele se apresenta para Love, que sorri derretida para o doutor. Qual é o segredo dele?

JULIAN - E você é...?

LOVE - Love St. James. Assistente da Srta. Sachs, chef... manobrista geral… amiga.

JULIAN - Bem, parece um trabalho bonito e interessante.

LOVE - Quatro anos. Nunca houve um momento maçante, sempre acontecem loucuras.

JULIAN - Okay, Andrea, parece que vamos ter que deixar você ir.

Levanto-me rápido demais e sinto minha cabeça latejar e tudo girar, me deito de novo. Love me olha com pena.

ANDREA - Calma, eu só levantei rápido demais. Doc, diga a ela. Estou bem? Como foram meus testes esta manhã?

JULIAN - Ela está muito bem.

LOVE - Posso abraçá-la?

JULIAN - Absolutamente.

Levanto-me e dou um abraço apertado em Love. Ela parece ficar aliviada em me ver bem e solta um longo suspiro.

ANDREA - Está bem, está bem. Não vamos ficar sentimentalistas.

LOVE - Devo dizer, você parece bem... considerando tudo. Você tem apenas esse curativo em sua testa. Que bom que foi próximo do cabelo, assim dá para disfarçar se ficar alguma cicatriz.

ANDREA - Veja em que boas mãos estou. Você trouxe meus livros?

Love me entrega uma sacola com exemplares do meu livro.

ANDREA - Este é para você…

Entrego para Julian e ele recebe sorridente.

JULIAN - Nossa, obrigado!

ANDREA - E você trouxe a outra coisa?
Ela me entrega outra bolsa. Puxo uma pequena caixa de couro e entrego para Julian.

ANDREA - Isso é apenas para agradecer pelo ótimo tratamento que tive aqui. Espero que seja adequado para você.

JULIAN - Uau. Este é ... Jesus, este é o relógio mais lindo que já vi.

ANDREA - Oh, ótimo. É um Movado. Aprendi com Miranda que são sofisticados.

JULIAN - Nossa, eu adorei e isso é incrivelmente generoso de sua parte, mas não posso aceitar isso.

Ele sorri tímido.

ANDREA - Você salva minha vida e não aceita meu agradecimento?

JULIAN - Não, eu acabo vendo você sair bem daqui e eu sou pago, você sabe.

ANDREA - Olha, eu não vou aceitar de volta. É seu!

CAROLINE - Toc, toc.

Todos nos viramos e vemos Caroline na porta. Ela acena para mim, mais reservada do que o normal.

JULIAN - Andrea, vejo você na saída.

LOVE -  Te espero no carro.

Todo mundo sai deixando Carol e eu sozinhas. Sento-me na cama e ela se junta a mim.

ANDREA - Então, como é sair com uma desastrada, hein?

Ela sorri e abaixa a cabeça.

CAROLINE - Bom ... Empolgante.

ANDREA - Esse fim de semana foi literalmente de matar! Eu quase fui presa, esfaqueada, sua mãe quase arrancou minha cabeça, sua irmã me colocou contra a parede e no final, ainda vim parar no hospital. Isso parece um sinal!

CAROLINE - É, parece. Você está correta nisso.

Ela sorri e me beija carinhosamente na... bochecha.

ANDREA - Venha, vamos sair daqui.

 

EXTERIOR DO HOSPITAL SOUTHAMPTON

 

Sou levada para fora do Hospital em uma cadeira de rodas, Carol caminha ao meu lado. No estacionamento há um carro com Love encostada nele,  ao lado mais um carro onde está Miranda, falando ao celular, ela desliga assim que me vê. Humilhante - é a palavra para descrever esse momento. Ela tinha que vir? Levanto-me da cadeira de rodas imediatamente.

ENFERMEIRA - Espere Mulan, ainda estamos nos movendo… Okay, agora devagar.

ANDREA - Eu estou bem.

Maldição, foi só dizer isso que minhas vistas escurecem e eu caio. Quando abro os olhos, já estou na cadeira de rodas novamente e o Dr. Julian confere meu pulso.

Todos estão próximos demais, me sinto sufocada. Apenas Miranda está longe, observando tudo atentamente.

JULIAN - Andrea, me desculpe, mas acho que agimos precipitadamente... não podemos deixar você viajar ainda.

ANDREA - Eu não vou voltar para o hospital.

Mostro determinação em meu tom de voz.

JULIAN - Você não precisa, mas não posso colocar você em um carro agora e não posso te deixar no estacionamento. Eu gostaria que você ficasse por perto por alguns dias e me deixe ficar de olho em você até que você recupere suas forças.

ANDREA - Doutor, estou no meio do Hamptons. Para onde você quer que eu vá?

Todos se viram para Miranda, e a expressão dela muda rapidamente.

MIRANDA - Não.

CAROLINE - Mãe, não custa nada, são só alguns dias.

ANDREA - Okay, eu estou bem aqui, e digo que não quero ficar lá. Carol, agradeço a preocupação, mas sem chances de ficar onde não sou bem vinda. Doc., eu não vou processar você se me liberar.

JULIAN - Sinto muito, mas não posso fazer isso. Vamos levar você para dentro.

Aaah, de jeito nenhum!

ANDREA - Não, não. Vocês não podem me obrigar a isso. Dane-se se eu vou morrer ou não, Love, tire-me daqui.

MIRANDA - Esperem…

Love já havia me levantado quando Miranda interrompeu, ela me olhou por alguns segundos e revirou os olhos resignada.

MIRANDA - Adoraria receber você em minha casa, Andrea.

Ela diz nada convincente e sorri minimamente. Um pouco assustadora eu diria, devo temer?

CASA DE MIRANDA

Estou sentada na cama do quarto de hóspedes usando um conjunto pijama de seda, mandando algumas mensagens no celular. Cassidy entra com um sorriso maléfico e senta ao meu lado.

CASSIDY - Então, como está se sentindo?

ANDREA - Eu me sinto ótima deitada, mas fico um pouco tonta quando levanto.

CASSIDY - Apenas pegue leve. Como você e Carol estão?

ANDREA - Como assim?

CASSIDY - O que vocês são exatamente?

ANDREA - Hum… amigas, eu acho. Olha, só saímos algumas vezes, ela é inteligente e divertida, apenas uma boa companhia, não precisa fazer nenhum drama sobre isso.

Ela aperta os olhos para mim por um momento depois sorri.

CASSIDY - Você não respondeu minha pergunta ontem.

ANDREA - Okay, eu não vou! Você é muito capciosa.

CASSIDY - Eu já sei a resposta, bobinha.

Solto um riso nasalado e maneio a cabeça negando. Sou salva pelo meu celular que começa a tocar.

ANDREA - Oi! ... Apenas me prometa que não tomará uma decisão até conversarmos... Pensar nisso não é nada promissor... Okay, cara, vejo você na sexta… Pressa? Não, cara, você está falando merda... Acabei de receber um atestado médico, terá que esperar.

Desligo e vejo Cassidy sair do quarto assim que Love entra.

LOVE - Você tem duas datas de jantar esta semana, devo cancelar e enviar flores?

ANDREA - Não, elas não são importantes, apenas cancele. Remarque todos os meus compromissos de trabalho, apenas.

LOVE - Emily ligou, perguntou se você pode jantar com ela na próxima sexta para discutir os detalhes do batizado.

ANDREA - Com ela eu mesma falo.

 

 

MIRANDA

 

Irritante! Tudo o que esse fim de semana tem sido para mim. Era para eu estar trabalhando e passando um tempo com minhas filhas, mas Andrea brota do inferno para me importunar de novo.
Ainda tenho que lidar com essa tal de Love. Quem coloca um nome como esse na filha? Ela fica desfilando pela casa como se fosse dela, falando no celular o tempo inteiro e fazendo barulho por todo lado. Tudo o que eu queria era sossego.

Estou no interior de minha cozinha guardando as compras, muito tensa e irritada. David, meu primeiro ex-marido, está sentado na ilha da cozinha, comendo um bolo de chocolate com banana e ouvindo minhas reclamações...

DAVID - Este é o melhor bolo que já comi na vida. Essa receita é sua?

MIRANDA - Você não está me ouvindo, como sempre.

DAVID - Tudo bem, não fique irritada. Não é por muito tempo, certo?

MIRANDA - Não fique irritada? Você diz isso porque, é claro, nunca aconteceria com você. Venho aqui em busca de paz e tranquilidade e de repente sou uma personagem de um filme da Nancy Meyers. E o telefone não para de tocar e nunca é para mim!

Love entra e coloca pratos sujos na pia.

LOVE - Desculpa por interromper.

Ela olha para David e sorri.

LOVE - Oi. Sou Love, a assistente de Andrea.

DAVID - Ei... David O'Hara, amigo e ex-marido de Miranda. Como vai você'?

Eu apenas a olho séria até ela ir embora.

MIRANDA - Ela foi minha assistente e agora estou lavando a louça dela. Qual a dificuldade de colocar os pratos na lava-louças?

DAVID - Você vai acabar ficando de cabelo branco com tanto estresse.

MIRANDA - Ha, ha! Que engraçado. Obrigada pelo apoio.

Digo irônica e ele se levanta, vindo até mim.

DAVID - Hey, venha aqui.

Ele abre os braços e eu hesito um pouco, fazendo um bico, mas logo o abraço, deixando um pouco da tensão se esvair com o carinho que ele faz em meu cabelo.

DAVID - É por pouco tempo. Respire e relaxe um pouco ou vai acabar tendo uma síncope. Tente conviver com ela amigavelmente, não evite o inevitável. Aposto que vocês podem se dar muito bem se você se permitir.

Antes que eu responda, ouço a voz de Caroline entrando na cozinha e David e eu nos separamos.

CAROLINE - Papai?! Eu não sabia que você estava aqui.

DAVID - Estou de saída, querida.

CAROLINE - Bem, eu estava indo para a cidade com Cassy, mas se você estiver dirigindo de volta, prefiro ir com você.

Como assim indo para a cidade? E a namorada?

DAVID - Eu tenho que encontrar alguém antes de ir...

MIRANDA - Espere, espere, espere, espere. Você está partindo, Cassidy está indo embora, a assistente está indo embora. E eu vou ficar aqui com ela sozinha?

CAROLINE - O médico bonitão disse que vai mandar uma enfermeira pela manhã...

MIRANDA - Amanhã!? Isso é dezenove horas a partir de agora…

Caroline me lança aquele olhar de súplica que me desarma. Isso é tortura!

MIRANDA - Okay, eu posso lidar com isso. Eu vou ser a pessoa zen que eu nunca fui, ter a paciência que nunca tive, ouvir música, cozinhar, trabalhar, focar...

DAVID - Você nunca muda.

MIRANDA - Sim. Talvez eu consiga tirar alguma coisa boa disso.

 

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Próximo capítulo:

ANDREA - Posso te perguntar mais uma coisa?

Respiro profundamente buscando calma e me volto para ela.

ANDREA - Você mexeu no telefone há alguns minutos… enquanto eu estava usando?

MIRANDA - Não seja tola, por que eu faria isso?

ANDREA - Apenas estou curiosa. Eu ouvi um barulho do outro lado da linha enquanto falava com Em, não foi na casa dela e com certeza não foi no meu quarto.

Engulo seco.