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Do You Wanna Dance?

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Raquel e Sergio falaram. E de tanto falarem parecia que o tempo separados não tinha existido e que a dor também não. Parecia que tinham voltado de umas longas férias um do outro, e agora falavam sem parar para recuperar o tempo que tinham perdido sem aquela companhia. Sergio sugeriu que comessem alguma coisa e, enquanto ouvia Raquel falar sobre as entrevistas para o novo vice-diretor, pediu uma pizza pelo iFood. Raquel sentia que voltava para casa. Foi ficando mais à vontade a cada minuto, e agora tinha tirado os sapatos e o blazer e aproveitava o calor dos braços de Sergio. Esquecia-se do trabalho que se acumulava para o fim de semana, esquecia-se que precisava dormir pelo menos umas 10h para repor toda sua energia gasta esta semana e que o descanso teria que vir de qualquer jeito, mas por hora estava satisfeita de estar com ele naquela noite, tentando recuperar os beijos não roubados e as risadas não dadas. A conversa estava surpreendentemente leve, e Raquel lhe contou desde suas sessões de terapia até as fofocas do jurídico. Contou da dificuldade que foi se manter longe dele e de como estava aliviada. Sergio sorriu e parecia tão mais leve também, tinha até tirado os óculos e deitado a cabeça no colo dela. Ela lhe fazia carinhos e ouvia com atenção o lado dele da história, de como Andrés se preocupara e de como a banda o tratara. Até que gargalhou imaginando a reação de cada um de seus amigos quando surgissem com a novidade de que ‘estamos juntos novamente’. 

 

“Será que vou poder te chamar de ‘amor’ nas reuniões?” Ela debochou e ele riu junto com ela.

 

“Não sei, mas vou sair falando pra todo mundo que você é minha namorada. Algum problema com questões legais na PM? Liga lá pra minha namorada que ela resolve…” 

 

Ela gargalhou junto, embora a ideia de ouvir essa palavra assim desse jeito lhe causasse uma inquietação gostosa. Parecia que nada de ruim jamais aconteceria novamente. Eram invencíveis. Uma versão mais mundana e talvez menos glamurosa de James Bond e Vesper Lynd. 

 

Cradle me, I'll cradle you

I'll win your heart with a woop a woo

Pulling shapes just for your eyes

 

Pela primeira vez (talvez da vida) Sergio comeu no chão. Ele, Raquel e uma pizza sobre o carpete da sala, brincando de fazer imitações das pessoas do escritório (o jeito que Sergio imitou Antoñanzas falando sobre a copiadora fez Raquel engasgar de tanto rir), sem se importar com modos, talheres ou outras pessoas. 

Às 3h da manhã, dançaram no meio do escritório de Sergio. Os dois descalços, Raquel com um chapéu velho de Sergio e ele com os óculos de sol dela que vivia passeando perdido em sua bolsa. Fingiram estar de férias em algum lugar paradisíaco do pacífico, ele tocou piano e tentou ensiná-la a falar alguma coisa do que ele sabia de alemão, mas teve como resposta “Sergio, eu mal falo inglês. Se um dia ficar sem bateria no meio de um deserto não sei nem pedir carregador.” 

 

So with toothpaste kisses and lines

I'll be yours and you'll be

 

Foi ainda mais divertido saber mais coisas sobre um ao outro. Madrugada afora jogaram buraco, (Raquel perdeu), UNO (Raquel perdeu de novo) e um beer pong improvisado com uma bolinha de papel e um copo de plástico (Sergio perdeu). Raquel descobriu que Sergio tinha verdadeira adoração por pintores impressionistas, comida tailandesa e sabia tricotar. Já ele, descobriu que ela ainda tinha todos os ingressos de shows de rock que fora na vida, e ouviu uma história hilária de como a Raquel adolescente rebelde de 15 anos mostrou os seios a um segurança de boate para conseguir entrar junto das amigas. Os dois assistiram ao noticiário da madrugada rindo do apresentador que estava claramente acabado de cansaço, e fizeram o teste online das casas de Harry Potter (Sergio era da Corvinal e Raquel da Sonserina, que logo disse que o teste devia ser fajuto porque ela era claramente da Grifinória). Sergio perdeu uma rodada de mímicas desajeitadas de filmes com “O Discreto Charme da Burguesia”, e Raquel desistiu quando ele sugeriu abordar filmes sul-coreanos na jogada. Ela nunca tinha assistido “House M.D.”, e ele se sentiu um alien quando ela citou um episódio hilário de “The Office” que ele nunca tinha ouvido falar. “Mas você já viu FRIENDS, né?! Não posso estar apaixonada por um cara que não vai me cantar com um How You Doin !” Sergio riu com a animação dela mesmo sem ter a menor ideia do que ele falava. É isso que deve ser amor, ele pensou rapidamente. 

 

Sergio sentia também como se tivesse voltado para casa. Estar com ela nunca pareceu tão simples e fácil, e dessa vez muito mais gostoso porque sabia que essa não seria apenas uma noite. Ela estava ali porque queria estar, e era fácil e simples. Ok, talvez tivessem um pouco exagerado na dose, perdendo a noção do tempo e fazendo mil coisas só porque não tinham feito durante as últimas semanas. Mas era bom estar com ela e vê-la sorrir em sua companhia era mais do que o suficiente.

 

Mas quando as palavras foram faltando e se embolando, Sergio percebeu que suas pálpebras estavam mais pesadas e que nem o maior amor do mundo o faria despertar, mas não queria que ela fosse embora.

 

Lay with me, I'll lay with you

We'll do the things that lovers do

Put the stars in our eyes

 

“Raquel, eu juro que não quero apressar mais nada, mas eu tô morrendo de sono e acho que devíamos dormir. Eu te empresto um pijama e a gente dorme, por favor.”

 

Raquel já estava bêbada de sono também.

 

“Tá, mas eu vou embora cedo amanhã, tá bem? Vamos fazer certo dessa vez, sem avançar vários sinais…” dessa vez ela parecia séria. 

 

O silêncio reinou enquanto se trocavam e se enfiavam debaixo das cobertas brancas. Sergio a abraçou pela cintura e com a voz embargada de sono ainda arrumou forças para dizer:

 

“Dormir abraçado é avançar várias etapas?” ele já respirava profundamente, preparando-se para o sono

 

“Talvez, mas eu não ligo não.” O sono a dominou e dormiram juntos numa paz que ambos não conheciam fazia muito tempo.

 

And with heart shaped bruises

And late night kisses divine




Quando Raquel acordou, Sergio já não estava na cama. O cheiro de café denunciava que ele deveria estar de pé havia pelo menos uns dez minutos. Raquel se espreguiçou e sorriu, feliz, de estar naquela cama novamente depois de tanto tempo. Repassou rapidamente os acontecimentos da noite passada e fechou os olhos de novo. Parecia que nunca mais iria parar de sorrir. Honestamente, ela se lembrou daquela cena de Cinderella acordando feliz com os passarinhos cantando, os ratinhos preparando seu banho e um som distante de sinos ao fundo dando o ar da graça e avisando na manhã  – só que no seu conto de fadas o sino era o cheiro delicioso de café misturado com o cheiro do perfume de Sergio que já deveria estar mais que embrenhado por suas roupas, cabelo e alma – . 

 

Embora quisessem aproveitar cada segundo juntos, o café da manhã foi rápido. Já estava um pouco tarde e Raquel tinha combinado de ir visitar a mãe naquele final de semana.

 

“Ela sabe que eu sempre chego um pouco tarde, mas também não posso abusar da boa vontade dela... Ela sempre me espera para almoçar.” O sorriso terno em seu rosto denunciava o quanto Raquel gostava da mãe, e só fez com que Sergio tivesse mais vontade de conhecer sua… sogra? Hm. Nunca achou que, aos 43 do segundo tempo (literalmente) teria uma sogra. Mas a sensação foi mais boa que esquisita

 

Sergio desejou uma boa viagem, já que a mãe morava havia pelo menos duas horas de Madrid. Só se veriam na segunda-feira, porque o trem no qual  Raquel voltaria para Madrid apenas no domingo à noite e a essas horas Sergio deveria estar acompanhando Andrés no lançamento de um livro. Por um lado, seria bom (e lhes daria tempo para pensar como contariam aos amigos e colegas da empresa sobre a nova… Resolução? Relação? Intermédio de convivência?. )

 

E, assim, Raquel se despediu com um selinho e prometeu avisar quando chegasse na casa da mãe. Sergio fechou a porta e, deixando os pratos e panelas sujos na pia, voltou para a cama e se jogou ali, abraçando o travesseiro dela e se cobrindo com o lençol. Adormeceu novamente, em paz.






O trem chegou na estação de La Roda exatamente ao meio dia. Era sempre estranho voltar lá. A cidadezinha a qual Raquel cresceu era antiga, daquelas medievais sempre cheias de turistas idosos ou acadêmicos entusiasmados com o passado. Absolutamente todos ali sabiam quem ela era, quem eram seus pais e seus avós. A sensação era de que, por mais que o tempo passasse, em La Roda sempre estaria tudo igual; mesmo senhor na banca de jornais perto da padaria que vendia bons pães no fim da tarde, as mesmas casinhas habitadas pelas mesmas pessoas desde sempre para sempre… Ela teve uma infância boa em La Roda, e, assim que saiu do vagão, não pode pensar em como talvez, secretamente, desejava ter filhos só para que eles pudessem viver em La Roda e serem felizes ali como ela tinha sido anos atrás. 

 

O tema filhos era algo que ela nunca gostou muito de tocar – ao menos não após Alberto. Quando era criança, dizia que seria mãe de uma prole. Depois na adolescência, talvez um ou dois fosse bom… já tinha até os nomes (Paula e Lucía, suas duas avós), anotados em papéis de guardanapo e colados com fita crepe em um diário cheio de segredos da adolescência. 

 

Depois de Alberto tudo mudou. A impossibilidade de ter filhos lhe deixou um vazio estranho, no qual, com o tempo, ela aprendeu a apreciar. Hoje em dia, como tinha descoberto com Cristina na terapia, filhos e não ter filhos não era mais um vácuo: era uma decisão muito bem abraçada. Não se imaginava sendo mãe agora, e muito menos achava que tinha essa vocação a essa altura do campeonato. A vida a ensinou a se amar, a amar outra pessoa de novo, e, pra ela, a realidade filho só não era compatível com a que Raquel tinha aprendido a gostar tanto atualmente. Enquanto andava pelas ruelas que cresceu, pensou em como ela e Sergio poderiam ter algum bichinho. Imaginou o namorado com um cachorro daqueles pequeninos que rói tudo, sai correndo sem coleira na rua e faz xixi no sofá… depois, rindo, pensou em Sergio com um dachshund enorme que invadiria a cama deles no fim de semana e teria algum nome desproporcional para sua figura, como Fofo ou Neném, se dependesse dela. 

 

Assim como La Roda, a casa de sua mãe permanecia intacta. Bateu na porta algumas vezes, e foi pega desprevenida pela mãe que a abraçou assim que a viu. 

 

"Mamá!" 

 

"Quelita! Meu amor, quanto tempo!" 

 

E era exatamente esse abraço que Raquel descobriu que tanto precisava. 

 


 

Lá pelas 15h, Sergio viu que tinha algumas mensagens não lidas na caixa postal. Tinha acabado de chegar no evento com seu irmão, e o lugar estava tão cheio que se sentiu sufocado. 

 

> 12h: acabei de chegar! Tudo certo! 

> 12h03: acredita que não servem nem um amendoinzinho no trem? Paguei a bagatela de 3 EUROS numa coca zero… absurdo. Onde vamos parar, Deus?!

 

> 12h33: (7 fotos) 

> 12h33: olha que lindo o dia!!!! Mamãe tem cultivado peônias! 

 

> 14h: se eu te disser que nunca comi tanto na vida… 

> 14h: TEVE ARROZ CON LECHE DE SOBREMESA !!!! 

> 14h: é oficial, não tem nada que eu ame mais que arroz con leche 

> 14h02: (selfie) 

> 14h02: bom agora vou dormir feliz da vida porque mais tarde (se prepara) tem novela! Será que Camila vai pegar o Eduardo (que secretamente é primo do tio do vizinho do amigo do pai do irmão dela que mandou matar o cachorro no capítulo de ontem)?! 

 

>  14h33: tô muito entediada. 

> 14h33: Mamãe ainda dorme e meu quarto tá me dando nervoso com esse poster enorme do Tom Cruise em top gun 

> 14h34: take my breath aaaawaaaaaaaay 

> 14h35: ai me liga quando der vou morrer e virar bolor de tanto tédio bjs 

 

Das duas uma: ou Raquel realmente estava bastante entediada ou tinha bebido. Talvez até uma terceira opção (as duas anteriores). Dentro da livraria mal tinha sinal, quanto mais silêncio o bastante para que ele pudesse ouvi-la caso ligasse; acabou por mandar mensagem mesmo. 

 

< 15h14: Nunca assisti "Top Gun" mas você realmente me tira o fôlego. 

 

Nem dois minutos depois ele viu Raquel digitando. 

 

> 15h15: ÓH! Apareceu o margarido! 

> 15h15: (que cantada péssima socorro) (emojis gargalhando) 

 

Ele riu e ajeitou os óculos. 

 

< 15h16: Perdão, não resisti. Fora o tédio, como vão as coisas? 

 

> 15h17: normais. Normais demais até… 

> 15h17: te falei que La Roda não muda nunca, lembra? Até o moço da quitanda me reconheceu e mandou um abraço (emoji sorrindo) 

> 15h18: vc ia amar esse lugar! Não só pelo orgasmo histórico dessa cidade que você provavelmente já deve saber da história e etc, mas a aura sabe? É tudo tão aconchegante, com cheiro de "casa" 

 

< 15h18: Mal posso esperar para conhecer La Roda, Raquel! Já li sobre alguns prédios históricos, especialmente a igreja. Sabia que foi construída no século XV?! 

 

> 15h18: (emoji sorrindo) sabia, eles fazem a gente aprender sobre a cidade em educação moral e cívica… (emoji rolando os olhos) 

> 15h18: acho que você ia gostar dos miguelitos também. Meu pai fazia uns que eram de comer rezando 

 

< 15h19: Ah, quero provar! Será que sua mãe ainda tem a receita? Posso tentar fazer algum dia, mas já garanto que não seria isso tudo. 



> 15h20: eu adoro que, além de deus do sexo e dançarino profissional de ABBA vc ainda é um masterchef enrustido 

 

< 15h20: HÁ. Pepe Rodríguez teria uma taquicardia se me visse cozinhar. 

 

> 15h20: duvido! Você deixa tudo arrumadinho depois, ia ser o xodó do pessoal da limpeza do restaurante (emoji de gargalhada)

 

Andrés nem viu seu irmão no evento; o encontrou umas três horas depois em uma poltrona, agarrado com três livros sobre turismo espanhol e as províncias perto de Madri e seu celular, ao qual ele parecia não se desgrudar por nenhum segundo. 

 


 

Abençoada seja a tecnologia – e tudo que Raquel pagava com banda larga por mês –, o fim de semana passou em dois tempos.

Seu trem saiu no domingo à noite exatamente na hora que tinha garantido sair no bilhete, e ela se despediu da mãe com a promessa de voltar em breve, a receita de Miguelitos e alguns dos seus diários antigos de adolescente para ler durante a jornada de volta para casa. Em um ímpeto, abriu nas últimas páginas de um deles, já com a capa surrada e algumas folhas amarelas e escreveu: 

 

Oi Raquel de 1999! Aqui é a Raquel de 2019. 

 

Doido né? Caraca, 20 anos só nisso. Como o tempo passa rápido. Tô passando aqui pra te atualizar! Eu continuei escrevendo mas não nesse diário, então achei melhor passar isso a limpo (prometo ser breve, você deve estar atrasada pra alguma festa descolada, não quero te atrapalhar). 

 

O milênio vai virar, ninguém vai morrer, e, na verdade, uma coisa que você NÃO VAI fazer vai ser morrer. A gente sobreviveu a tanta coisa, mulher! Sexo fica melhor, e você vai se acostumar com OB, eu prometo. Café sem açúcar é MUITO ruim pra ressaca (mentira, é excelente, mas depois dos 40 você precisa dar uma segurada no álcool então não quero te encorajar), e você não vai usar 36 pra sempre (o que é super normal pois você só fica mais gostosa a cada ano). Nenhum dos cremes da mamãe pra ruga parece funcionar, e a nicotina deixa o dente amarelo. 

 

Sobre relacionamentos, o Alberto não era nosso príncipe encantado (nem sei se isso existe, mas já chego nessa parte). A gente vai viver uma barra com esse daí, mas a terapia ajuda muito (é ótimo, perdi 15kg de cabelo e estresse nesse processo terapêutico mas valeu cada minuto). Você vai achar que nada dá certo, que Deus não existe, que o AMOR não existe (nem por você nem por ninguém). Ai como eu queria voltar no tempo e te abraçar, te chacoalhar e implorar pra você não aceitar casar com ele. Mas nós duas sabemos (hoje eu pelo menos sei) que a gente é tão maior que isso. Outro dia eu li num biscoito da sorte que, às vezes, uma xícara de chá quebrada nunca volta a ser como era antes. Mas, se ela for bem colada, fica muito mais forte. E nossa, Raquel, COMO a gente cresceu. Doeu tanto, e vai doer pra você. Vai parecer que o mundo perdeu a cor, o cheiro, a vontade. Mas isso passa, sabe porque? Porque o amor cura. E não digo amor como uma coisa romântica não, apesar disso ajudar de certa forma, mas o amor interno. A gente vai se quebrar, saiba disso, e não vai ser bonito. E ao mesmo tempo, quem vai te reerguer e ajudar a colar cada pedacinho com Super Bonder vai ser você mesma – ou nós, como preferir. O amor dói, às vezes não dá vontade de aceitar porque ele incomoda. Mas ele salva. Nós estamos salvas, e bem, e felizes, tão felizes… 

 

Sobre o príncipe encantado, eu não acredito mais neles. Você não é a Cinderella, muito menos a Meg Ryan em When Harry Met Sally, você é Raquel Murillo. A coisa boa é que, assim como elas, Raquel Murillo também tem direito a ser feliz e muito, muito amada. Acho que acredito a cada dia menos em contos de fadas e mais no mundo real. O cosmos não tá pra brincadeira, e às vezes me pergunto se isso tudo foi um plano desde o início. Você merece tanta felicidade! E acho também que finalmente estamos no lugar certo, com a pessoa certa (ele é um gato, e meu deus, tão mais gostoso que um príncipe ou personagem da Nora Ephron). Tomara que em 20 anos você leia isso e que a Raquel do futuro possa me contar coisas tão boas quanto as que eu te conto agora. 

 

Eu tenho muito orgulho de quem nós nos tornamos. 

 

Da sua, você mesma 

 

Raquel. 

 

Ao fechar o diário, que agora não tinha mais nenhuma folha disponível, Raquel sentiu o peito se encher de uma sensação esquisita, nova, desafiadora. Ali ela soube que realmente estava feliz e que cada palavra dita a si mesma era verdade. O trem apitou, e ela pode ver, na pequena janela ao seu lado, que tinha chegado na estação no centro de Madri. 

 

> 22h37: Cheguei (emoji sorrindo). Até amanhã (emoji com um beijo)

 

< 22h40: Até. Boa noite, Raquel.




 

Na segunda-feira de manhã, estava nublado e seco, meio abafado. Daqueles dias desconfortáveis que nenhuma roupa é boa o suficiente, nem é muito quente nem muito frio. 

 

Mónica chegou ao escritório apenas 1 minuto depois de Sergio, e, ainda no elevador, pôde ver que ele acabava de fechar a porta da sala que era de Raquel. No mínimo curioso, o que estava acontecendo? Raquel não tinha lhe dito nada! 

 

Bom, quem sabe ele tenha devolvido alguma coisa para ela, ou deixado um recado?! Mónica resolveu não se perguntar tanto e deixar a história se desenrolar na frente de seus olhos. Esperou dar o tempo que Sergio chegaria à sua própria sala para sair do elevador, e o cumprimentou como se não tivesse visto nada. E, finalmente, o sol parecia despontar detrás das nuvens.

 


 

Raquel tinha acabado de chegar na PM, às exatas 6h50 como tinha combinado com Sergio. O plano inicial era deles se encontrarem na casa dele, mas vir em um carro só seria suspeito. Depois, pensaram em tomar café juntos na déli que ficava do outro lado da rua da empresa, mas ele tinha que rever alguma coisa bem cedo, então a solução foi se encontrarem na porta da PM e fingirem surpresa. 

 

"Bom dia." Raquel disse ao segurança, que sorriu e trocou um outro 'bom dia'. Sergio estava sentado em uma das poltroninhas do lobby, e se levantou ao vê-la. Seguiu-a até o elevador, e, no fechar das portas, ambos respiraram aliviados e se abraçaram. 

 

"Bom dia." Ele disse sorrindo, e ela não esperou para dar-lhe um beijo. 

 

"Bom dia." Ela respondeu, e assim ficaram por alguns segundos. Não se lembraram de apertar o botão, e, ao perceberem o erro, gargalharam. "Pronto, agora sim." 

 

Sergio sorriu e a puxou de novo para um beijo mais acalorado. Podia sentir seu corpo finalmente despertar, como se o toque dela em sua pele fosse um antídoto que o tirou de um sono frio. Raquel se via em um dia de verão, ou em uma primavera florida. Sim, essa era a sensação de tê-lo tão perto novamente. As portas abriram e, rapidamente, lá estavam eles: ela do jurídico, ele do financeiro; ele de virgem e ela de áries; ela dele e ele dela. 

 

Caminharam até a sala dela, e Sergio fechou a porta com cuidado. "O que vamos fazer se nos pegarem aqui?" Ele disse um pouco nervoso. 

 

" Cariño," ela respondeu, se aproximando "Eu não tenho ideia, só sei que quero te beijar" Os dois riram, ele com a certeza que jamais se acostumaria com a franqueza dela. 

 

E então o fizeram. Um beijo inocente, saudoso, que em menos de segundos começou a queimar e causar pequenos incêndios em ambos os corpos. De repente, o paletó dele estava no chão, a blusa dela aberta e seus brincos em algum lugar que não suas orelhas. O perfume amadeirado dele empestava a sala dela que geralmente tinha cheiro de alguma coisa cítrica e meio doce. 5 minutos se passaram, e o beijo crescia. Quando ele a tocou por cima do sutiã, e ela sentiu que explodiria de desejo, um raio súbito de nervoso subiu pelo corpo de Sergio e ele se afastou. 

 

"São 7h." 

 

Como ele tinha aquele sentido-aranha de tempo ela jamais saberia. Mas a decisão de manter tudo por baixo dos panos tinha sido um plano de Raquel, então o que lhe sobrou foi assentir e tentar se recompor. Os sorrisos cúmplices enquanto ela abotoava a blusa e ele vestia o paletó a fizeram corar e ter vontade de jogar todo o acordo de segredo pelos ares e agarrá-lo ali mesmo (de novo). Mas não podiam. Trocaram um selinho rápido antes dele sair, e Raquel se sentiu mais uma vez uma adolescente fazendo algo maravilhoso que seus pais jamais poderiam saber e rezando para não ser pega. 

 

Ao chegar em sua sala e passar por uma Monica recém chegada no corredor, ele sorriu ao perceber que, sem querer, tinha guardado um par de argolas douradas no bolso da calça. 

 

Raquel encontrou seu par de brincos em cima de sua mesa, algumas horas depois, sem qualquer bilhete ou nota. Mas ali estavam, brilhantes e postos ao centro de sua mesa. Sentiu suas bochechas queimarem ao se lembrar de eventos ocorridos ali poucas horas antes, e tentou disfarçar o rubor simplesmente colocando as argolas recém encontradas como se nunca tivessem desaparecido — um outro segredo besta para guardarem. E tudo o que ela queria era os olhos de Sergio sobre si e um olhar cúmplice para trocarem durante as horas que passariam ali. Ainda não tinham contado para os amigos, na euforia do final de semana. Mas, do jeito que iam, quanto tempo demoraria para que o segredo fosse lido nas entrelinhas?

 




> 11h25: meu deus isso é vingança? 

> 11h25: não acredito! 

> 11h26: como você pode ser tão baixo, Sergio Marquina!

 

Sergio encarou o telefone nervoso sem entender. Desviou o olhar para a mesa dela, que, ao notar o desespero dele, riu e voltou a digitar. 

 

> 11h27: o terno azul. 

> 11h27: porra Sergio… 

> 11h27: já tivemos que sair correndo hoje de

manhã… (emojis irritados) 



Ele riu, e agora foi a vez dela tentar espiá-lo digitando do espacinho do café, apoiado na mesa onde ficam as canecas do pessoal, completamente imerso na telinha do celular. Raquel sentiu uma sensação gostosa no abdômen ao ver Sergio corar enquanto digitava. 

 

< 11h28: Sabe, acho que devemos pensar em soluções para esse incômodo. 

 

Se tem uma coisa que Raquel Murillo ama é o jeito como ele flerta. Sergio sempre entra na onda, e tudo acaba sendo divertidíssimo. 

 

> 11h29: ok, já sei 

> 11h30: vc aperta o alarme de incêndio “sem querer” daqui a uns 15 minutos. aí todo mundo sai correndo e a gente se pega na sua sala sem medo de ser feliz!!!!!!!! (emojis felizes e um de fogos de artifício) 

 

Ele não conseguiu conter a risada mais alta. 

 

< 11h31: Por que na minha sala?! 

 

> 11h31: verdade… temos que batizar a minha né?! ok pode ser aqui

> 11h31: a gente só tem que ter cuidado pro Antoñanzas não voltar correndo pq esqueceu alguma coisa no incêndio fake, se não babou…

 

E assim Sergio quase cuspiu seu café de novo de tanto rir. A aura do escritório já estava de outra cor. Parecia que todos os planetas tinham se alinhado, ninguém nunca tinha sido triste. Até Yashin estava sorrindo de forma notável apesar da barba. Depois de alguns minutos, Sergio decidiu que queria pegá-la desprevenida e voltou a digitar. 

 

< 11h32: Por mais que eu ache que a ideia do “incêndio falso” seja um pouco arriscada, já tive alguns sonhos bastante reveladores com você gozando em cima da minha mesa… 

 

E desligou o celular. A cara de Raquel foi impagável. O assunto sexo não tinha ainda surgido no meio daqueles dias, e, embora sentisse falta de todo o combo Sergio Marquina – cabeça, coração e corpo – achava que ainda estavam na fase flerte, caloroso e conquistador. Mas, pelo jeito, Sergio já se sentia confortável para aquilo, uma ideia pipocando em sua cabeça, apertando os botões certos em Raquel. E fez isso como quem não quer nada, voltando a trabalhar e sabendo que ela não responderia à provocação – pelo menos, não ali, não agora. Ela desviou o olhar de um contrato de Suárez como quem não quer nada para bisbilhotar a notificação e quase virou um pimentão de tão vermelha. Do outro lado do corredor, Monica e Ágatha se entreolharam, como que pressentindo algo. Love is in the air , e coisa do tipo.

 

Como o dia não podia ser feito só de flertes, Raquel precisava trabalhar. E logo depois do almoço, em meio a contratos rasurados e rabiscados com anotações rápidas, ouviu-se uma batida na porta. 

 

Raquel levantou os olhos e ali estava seu novo Vice-Diretor. Martín Berrote estava com um terno preto alinhadíssimo, sem nenhuma prega fora do lugar, e chegava meio sorrindo com uma série de papéis na mão. Naquele momento, o telefone tocou, e Raquel atendeu ao mesmo tempo que fazia um gesto com a mão para que o homem entrasse.

 

"Raquel Murillo"

 

"Raquel, acabei de mandar subir o cara que você contratou subir, só falta você assinar." Alicia falou sem muita paciência. 

 

"Ué! Você não tava aqui em cima há cinco minutos?" Raquel olhou pela porta entreaberta que Martín tinha deixado procurando pelos cabelos cor de fogo esvoaçantes pelo andar.

 

"Tive que descer pra umas reuniões, não voltei depois do almoço. Pensando em outra coisa, Raquelita?"

 

"Muito trabalho, Alicia. Muito trabalho!!" Arregalou os olhos enquanto arrumava os papéis sobre a mesa para puxar o que seria interessante para conversar com seu novo Vice-Diretor. “Mas obrigada, quando puder dá um pulinho aqui.”

 

“Ok, boa sorte com esse daí ein!” E bateu o telefone. Raquel forçou um sorriso a Martin. Esperava que ele não tivesse ouvido nada daquilo.

 

“Oi, Martín, desculpa, a Alicia acabou de me telefonar lá de baixo pra falar que você estava vindo.”

 

“Sem problemas, eu devia ter esperado você terminar seu telefonema. Ó, esses são os papéis que ela me mandou entregar...” e passou-os para a mão de Raquel “E ela me contou umas coisas sobre o histórico da empresa, principalmente neste cargo que você está.”

 

Raquel só levantou os olhos.

 

“Foram tempos conturbados…”

 

“Dizem por aí, nas rodinhas de advogado, que você fez uma queixa falsa para usurpar o trabalho do seu ex-chefe.”

 

“Ah, sim?” Raquel franziu o cenho e largou os papéis sobre a mesa, já pensando se deveria tacar fogo neles todos. 

 

“Sim, ouvi bastante delas por aí. Essas coisas voam.”

 

“Mas isso é o que você ouviu por aí. Qual seu parecer disso tudo?”

 

“Digamos, chefa, que eu fui chamado para trabalhar em muitos lugares, incluindo lugares que empregam macho-man feito o tal do Rúbio, e ganhando bem mais. Mas preferi vir para cá, achei a empresa bem mais… Inclusiva.”

 

“Hm, muito bem. A tal da inclusão é particularmente importante pra você?”

 

“Claro que sim, sou gay e argentino. Essas coisas importam.”

 

Raquel soltou uma risada aliviada, sincera e empática. Na realidade, ele parecia muito mais afeminado agora do que na primeira entrevista, vendo que ali era um ambiente seguro.  Ele tinha acabado de ficar interessante. Já estava pensando que Suárez teria que engolir a seco Martín como seu superior, e que a Banda simplesmente amaria ele por completo. Guardou sua curiosidade sobre as fofocas do mundo corporativo que envolviam seu nome – quando estivesse num bar com Martín, perguntaria sem pestanejar – e assinou os papéis ainda sorrindo.

 

“Bom, senhor Berrote…” Ela começou, entregando os papéis a ele e estendendo a mão. “Seja bem vindo à Piñero-Márquez.”

 

Os dois se levantaram e apertaram as mãos. Havia algo de genuíno nos sorrisos que trocaram, e Raquel se perguntou por que Alicia havia desejado a ela ‘boa sorte’. Martín Berrote era tudo o que ela queria e precisava como Vice-Diretor.

 





Raquel mostrou a Martin o cubículo que ele teria, um pouquinho maior do que o dos outros funcionários, e disse que o apresentaria ao escritório depois, que estava no final de uma revisão de contrato e já faria aquilo. Explicou a ele super rápido o esquema anual da PM, quais os períodos mais cheios (aquele final de setembro felizmente não era um), mas que outubro seria bastante abarrotado em vista dos festivais do ano seguinte, para março. Graças aos deuses, Martín era aficionado por cinema, então estava a par das temporadas de festivais e premiações. Deu a ele o acesso ao sistema da empresa, e disse a Aníbal que o ajudasse com o email da instituição. Poderia olhar essas coisas mais técnicas enquanto ela terminava seus afazeres, e já viria buscá-lo para um tour.

 

Enquanto voltava para a sala, ouviu o som de um pop de um chiclete e voltou-se para os elevadores. Alicia vinha caminhando até ela, umas pastas na mão para fingir que trabalhava, mas vinha com um olhar de quem pedia uma migalha de atualização da sua vida pessoal.

 

Raquel apenas girou os calcanhares e entrou em sua sala, deixando que Alicia entrasse e se sentasse como se estivesse no sofá de casa. 

 

As duas se entreolharam por alguns segundos e Alicia estourou outra bola de chiclete. A ruiva examinava a amiga com precisão, o que fez Raquel corar um pouco. Alicia se levantou de supetão e apontou o dedo para Raquel. 

 

"Sua danada!" Raquel franziu o cenho e Alicia gargalhou feliz da vida. "FINALMENTE MEU DEUS EU NEM ACREDITO"

 

Como se não bastasse, Alicia começou a dançar girando em torno de Raquel e cantando num tom completamente desafinado de Celebration de Kool & The Gang. 

 

"CE-LE-BRATE GOOD TIMES, COME ON!" Quando a ruiva parou de rodar e começou a imitar a Uma Thurman em Pulp Fiction, Raquel não aguentou e levantou junto. 

 

"MAS EU NÃO TE FALEI NADA!" 

 

Alicia riu e se sentou no sofá cansada, mas ainda gargalhando. "Amada, mas essa cara de bem comida não engana! Ou você deu ou você se resolveu com o Gafas ou os dois! E eu rezo que tenha sido os dois pra selar logo essa budega..." 

 

Raquel riu e se sentou ao lado dela. "Alicia calma. Eu… eu não posso nem confirmar nem negar nada ainda, mas posso dizer que ambos estamos contentes com a decisão que tomamos com relação às nossas vidas." 

 

Alicia fez uma careta mas levantou as sobrancelhas como quem diz 'pois bem' . "Não sei quando você virou algum representante Estatal e eu uma secretária de imprensa, mas ok né, tudo bem, a gente sabe quem são os de verdade e quem são os de mentira…" 

 

A ruiva se levantou gargalhando pelo drama e puxou a amiga pelo braço. "Eu não posso contar nada porque não acho certo falar qualquer coisa sobre essa situação sem o aval dele, MAS eu estou feliz, ele também, e eu te prometo te pagar uma rodada de cerveja e contar tudo assim que der." 

 

"Promete que vou saber antes do Andrés?" A cara da ruiva foi extremamente séria, e tirou um sorriso de Raquel. 

 

A loira estendeu a mão e Alicia apertou. "Prometo." 

 

Mas não foi necessário nenhuma gota de álcool ou autorização de Sergio para que Alicia soubesse da verdade. Os olhos de Raquel denunciavam, gritavam que ela estava apaixonada, e, talvez pela primeira vez, entregue ao seu amor. 



Deixando Alicia plantada na sala, Raquel levantou-se e foi buscar seu novo Vice-Diretor para a tour. Era a tradicional pausa para o café, ah a pausa das quatro da tarde , e com a banda praticamente toda reunida ao lado da cafeteira, seria uma apresentação bem rápida. Mas primeiro começou pela carpa. 

 

“Martín, esses são seus companheiros, Suárez, que redige os contratos de venda dos filmes e Antoñanzas, que fica mais nos contratos de compra de direitos. O Aníbal você já conhece, nosso menino, estagiário da PM há uns, quantos anos?”

“Muitos.”

 

“É, já estamos na hora de efetivá-lo, de qualquer jeito.” A informação parecia corriqueira para Raquel, mas inédita para o garoto, que ficou sem palavras para responder. Martin comprimentou todos os homens e então passaram para o outro lado do escritório.

 

“A gente divide o andar, o jurídico e o financeiro, tem essa pequena rixa, mas agora as coisas estão mais calmas. O que você precisa saber é que chamam nosso lado de Carpa, porque é sério como uma tenda policial, e de Banda desse lado de cá, porque eles são meio criminosos ou algo do tipo.”

 

“Já gostei mais do lado dos criminosos, não posso só arrumar uma cadeira por aqui?”

 

Raquel riu de novo, e viu que Alicia já tinha se pirulitado para a mesa de Ágatha. Raquel se aproximou, limpando a garganta.

 

“Licença aí pras duas, vim apresentar meu novo vice. Martín, você conhece a Alicia lá do RH, essa daqui é a Ágatha.”

A mulher se levantou, hoje usava um salto lindíssimo e parecia ter dois metros perto do miúdo Martín.

 

“Bem vindo, espero que aguente aquele lado de lá, mas pelo menos você tem a Raquel pra te fazer companhia.”

 

“Nem pra ser uns homens bonitos daquele lado, sabe. Só o estagiário, mas não sei se ele tem idade pra isso.”

 

“É, falando como alguém do RH, provavelmente não” Alicia falou, mas logo riu também “Mas olhar não arranca pedaço.”

 

Aos poucos, os outros se aglomeraram ao redor dos quatro, e Raquel apresentou Mônica e Yashin, que demorou um pouco mais no aperto de mão a Martín, um reconhecimento imediato, o tal do gaydar.

 

Vendo um burburinho mais forte do que o normal para a hora do café, Sergio saiu de sua sala e viu que todos os seus funcionários estavam rodeando Raquel e o novo funcionário, que ele reconheceu.

 

"Martín?" Meio surpreso, meio sorrindo, a rodinha parou para olhar. Martín, no mesmo segundo, largou todos e foi em direção ao diretor.

 

"Sergio, amigo querido do meu coração, quanto tempo que não te vejo" E se aproximou para segurar o rosto do amigo, lhe dando um beijo em cada bochecha. 

 

"Quanto tempo! Não sabia o que tinha acontecido com você, achei que tivesse voltado pra Argentina."

 

"Ah, coisas da vida, quis voltar pra Europa pra ver se as coisas aqui melhoram um pouco, não podemos deixar tudo na mão dos europeus, sabe?"

 

Os dois riram e se abraçaram fraternalmente como não faziam há pelo menos 15 anos. A roda de amigos encarou o reencontro e Alicia sussurou:

 

"A Evita chorando nesse momento…"

 

Raquel riu e deu um tapinha no ombro dela como quem diz pelo amor de Deus. Vendo que a amiga estava se segurando para não gargalhar, começou a cantarolar o hit "Don't Cry For Me, Argentina" como se nada estivesse acontecendo, e Raquel teve que virar para trás para não chorar de rir. Ágatha e as outras não entenderam nada, mas era nítido que as duas estavam aprontando alguma coisa. 

 

Os dois amigos, ainda meio abraçados, se voltaram para os colegas, e Sergio mal podia conter o sorriso.

 

"Martín e eu estudamos engenharia juntos, em San Sebastian…"

 

"Como podem ver, larguei uma carreira chata e me dediquei a uma mil vezes pior."

 

A parte que Sergio não iria mencionar ali era que Martín, a uns três meses de completar a graduação, havia entrado no quarto que compartilhavam e dito que iria voltar para a Argentina de qualquer maneira. Sem motivo, sem explicações, apenas iria embora sem o diploma. Depois disso, Sergio nunca mais ouvira falar de Martín Berrote. Até agora.

 

"Já me sinto em casa, nem vou precisar de dinâmicas da empresa."

 

Um riso gostoso tomou conta do grupo.

 

"Do que todos riem assim a essa hora? Estavam me esperando?" Disse uma voz zombeteira detrás de Raquel. Quando ela abriu espaço para mais um na roda, o riso morreu nos lábios de Martín.

 

Andrés de Fonollosa estava igualmente chocado quando viu de quem se tratava o novo funcionário.



Conversa vai, conversa vem, todos foram apresentados ou reapresentados — mas Raquel e Alicia bem perceberam a mudança de expressão não-tão-sutil no novo funcionário ao ver Andrés. Parecia ter visto um fantasma. Mas, como a hora do café já estava se alongando, Mónica pediu licença para ir atender o telefone que tocava se esgoelando na mesa e, vendo que se tratava do chefe Prieto, tratou de tirar Sergio da rodinha também — não sem antes ele exigir, sorridente, que fosse convidado para o 'batismo' de Martín na empresa.

 

"Pois com certeza, o que ele logo vai perceber é que nós adoramos uma integração!" Raquel sorriu antes de também se afastar da rodinha, voltando à sua sala. 

 

Tudo estava tão bem que parecia o final de uma comédia romântica.

 

Exceto que essa ainda não era nem a metade da história.