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Os Deuses da Mitologia

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CARTER

Realmente não estou no humor para fazer qualquer introdução. Mas vamos lá. Meu nome é Carter Kane e pode-se dizer que minha vida está longe de ser normal. Você acreditaria que em pleno século 21 existiria alguém que falaria “Hey, sou um faraó” e essa pessoa não estaria mentindo? Pois é. Esse sou eu. Prazer, Carter Kane, faraó da Casa da Vida há uns dois anos, mas que está se desesperando com a possibilidade de entrar numa universidade. Ah, sim, a Casa da Vida, também conhecida como Per Ankh, é a organização egípcia de magos criada pelo próprio deus Thoth, o deus egípcio da sabedoria.

Muita coisa aconteceu nos anos recentes. Cerca de três anos atrás descobri que eu e minha irmã somos descendentes de duas longas linhagens de faraós, descobrimos a existência dos deuses egípcios, derrotamos muitos monstros e dois anos atrás derrotamos o mais complicado, uma serpente chamada Apófis. Depois da luta, os deuses egípcios se mandaram do mundo humano (inclusive, até descobrimos que deuses gregos também existem, pois conhecemos um tal de Percy e Annabeth pouco depois disso, longa história), mais só um deus egípcio ficou aqui, o Anúbis. E aí que está o problema que me faz não ter humor de fazer essa introdução, mas terei que fazer isso já que minha irmã não está em condições.

Minha irmã, Sadie, cresceu praticamente a vida inteira longe de mim. Ela é apenas dois anos mais nova, atualmente tenho 17 anos e Sadie 15. Se você nos encontrar na rua, nunca dirá que somos irmãos, pois não poderíamos ser mais diferentes. No momento, minha irmã está trancada no quarto chorando rios de lágrimas, e não a culpo. Odeio vê-la desse jeito, mas não sei mais o que fazer. No entanto, eu a entendo. Eu também estaria assim no lugar dela. Eu conseguia ouvir daqui do sofá sala os choros que vinham do quarto dela e suspirei, sem mais saber o que fazer. Cada choro dela que eu ouvia era como uma facada no meu coração.

- Ela ainda está do mesmo jeito né? – disse uma voz atrás de mim. Eu me virei e me deparei com Anúbis, o deus Anúbis. E tinha que admitir que até em mim doesse ver que era “só” Anúbis. O único consolo vinha do fato de poder notar que ele parecia tão preocupado com Sadie quanto eu.

- Sim. – respondi com um suspiro – Não sei mais o que fazer. Você não saberia fazer algo mais? Sendo o deus da morte e tudo mais...

— Raramente tenho que lidar com vivos numa situação como essa e... O fato de ser a Sadie deixa tudo mais complicado. – respondeu ele.

— Se como deus não dá, e como namorado dela? – perguntei.

- Exatamente a parte do mais complicado ainda... – disse ele suspirando e olhando em direção para onde ficava o quarto de minha irmã.

Pois é. Minha irmã namorava um deus. Mas ai você pode dizer “mas poxa Carter, ele bem que podia tentar fazer mais por ela”. Bem, concordo que está bem complicado. Deixe-me explicar, ou tentar explicar, tudo que aconteceu. É meio complicado, então tente não se perder.

Quando eu e Sadie descobrimos a existência dos deuses egípcios, não demorou muito para ela acabar tendo uma... Quedinha... Por Anúbis. (Era muito irritante ter que a ouvir falando como ele era bonito). Nesse meio tempo, ela começou a ter uma quedinha por outro rapaz, um mortal normal... Ou quase... Chamado Walt. Walt também era do sangue dos faraós, descendente do próprio Tutancâmon. O triangulo amoroso era o menor dos problemas para Sadie. Enquanto Anúbis usufruía de uma quantidade infinita de anos de vida no futuro, os anos de Walt estavam contados uma vez que ele estava amaldiçoado e tal maldição não tinha cura aparentemente. Quando estávamos perto de nossa batalha com Apófis, Walt quase morreu pela maldição, mas, para deixar ele vivo, Anúbis usou Walt como hospedeiro até porque para Anúbis seria muito difícil namorar Sadie já que ele só pode aparecer em lugares de luto e morte (e ter encontros o resto da vida em cemitérios não parece agradável. Nem vou entrar na problemática de ele não envelhecer).

Depois que nossos maiores problemas com Apófis terminaram, até que esse relacionamento a três da minha irmã estava dando certo. Voltamos todos a ir pra escola, treinar nossos magos (ah sim, aqui em casa é cheio de outras crianças e adolescentes que tem sangue de faraó e nós as treinamos em luta e magia), lutar contra monstros ocasionais e todas essas coisas normais na vida de todo adolescente. Mas tudo foi por água abaixo no começo dessa semana. Walt agora estava de fato morto. E por isso que agora era “só” Anúbis que olhava preocupado para a porta de Sadie. Entenda, ele tentou ir consolar ela (mais de uma vez), mas acho que só ver o rosto dele no momento está a machucando demais. Deve estar trazendo memórias do Walt à tona.

Agora estou aqui com minhas preocupações divididas entre Sadie e toda a situação que levou à morte de Walt.

O dia que tudo aconteceu começou como só mais um dia normal, até mesmo para os padrões normais de “normal”. Estávamos voltando da escola. Eu, Sadie e Walt/Anúbis. Andávamos pelas ruas do Brooklyn quando um homem careca, mas de barba preta bem generosa decidiu correr em nossa direção e esbarrar com força em Walt/Anúbis. O homem era forte e musculoso, acho que o braço dele era do tamanho da minha coxa. Tinha nariz adunco e o grosso braço estava coberto de cicatrizes. Ele os empurrou para um corredor estreito daqueles que nenhuma pessoa com o juízo perfeito entraria numa cidade grande como aquela. E nesse corredor tinha um portal que não sei bem para onde nos levou, só sei que era um lugar bem deserto, só podia ver areia, pedra, montanhas de pedra e mais pedra.

— Ah! – Minha irmã gritou quase no mesmo instante já sacando sua varinha e entrando no portal.

— Sadie! Pera! – eu gritei de volta já correndo atrás da minha irmã enquanto ela nem deu sinal de ter me ouvido.

Quando eu e Sadie aparecemos do outro lado do portal, o portal se fechou e notamos que apesar de ter levado um forte empurrão do homem sem nome, Walt/Anúbis conseguiu não cair no chão e já estava invocando do Duat uma espada egípcia (chamada Kopesh) e aparando o golpe que o homem sem nome também dava com uma espada recém-invocada.

— Olá Anúbis... Quanto tempo não nos vemos eim? – disse o homem sem nome com um sorriso meio maníaco que chega arrepiava os cabelos da nuca.

— Zababa... – disse Walt/Anúbis.

- Você conhece esse cara do nome tosco? – perguntou Sadie já estava aparentemente preparando um feitiço, provavelmente também preocupada em atingir os namorados.

— Pois é – disse o tal Zababa – infelizmente, pra mim, não sou seu adversário hoje, Anúbis.

— Ãh? – isso foi tudo que Walt/Anúbis teve tempo de dizer antes de, debaixo da areia, surgir um grande rabo que o agarrou pela cintura e o puxou pra longe o lançando no ar para horror de Sadie que deu um grito. Eu mal tive tempo de ver a enorme criatura que saiu de um monte de areia e que era a dona daquele rabo, um enorme dragão parecido com uma serpente que saiu voando para devorar Walt/Anúbis no ar. A criatura era verde musgo e era facilmente maior que um caminhão, talvez do tamanho de um avião. O dragão era longo como os dragões chineses mas era claro que não era um dragão chinês pois seu rosto não parecia com o daqueles que aparecem em filmes, nas comemorações do Ano Novo Chinês e coisas do tipo.

Não tive tempo de pensar no que fazer quanto ao dragão, pois Zababa partiu em direção à minha irmã que estava mais distraída. Invoquei do Duat minha própria Kopesh e parti pra luta mano-a-mano de espadas contra o tal Zababa. Era bem prático conseguir usar o Duat, o submundo egípcio, como um bolso que podia ser acessado de qualquer lugar. Bem melhor que a bolsa da Hermione.

A movimentação trouxe Sadie de volta, ela não parecia saber quem ajudar, mas, acho que acabou decidindo por me ajudar (já que teoricamente Walt tinha Anúbis e Anúbis tinha Walt).

— A’max! – gritou minha irmã invocando a palavra divina do fogo. Não que isso parecesse ter afetado muito Zababa, ele conseguiu aparar o meu golpe e quase me derrubar e então atacar Sadie. Que conseguiu, no último segundo, usar o feitiço de ‘N-dah’ criando um escudo ao seu redor.

Quando eu quase caí, pude ver como a luta entre Walt/Anúbis e o dragão ia. O dragão estava preso em faixas de linho (daquelas usadas em múmias) gritando e tentando se livrar delas ou arrebenta-las embora a maioria resistisse. Aparentemente, Walt/Anúbis não estavam mais em risco de morte por queda de grande altura, pois já estavam de pé no chão invocando uma armadura para proteção. Vendo assim os dois me faz lembrar o quão prático pode ser numa luta ter um deus dentro de seu corpo. O problema, no entanto, é que também é muito irritante e desconfortável.

Notando que eu deveria ajudar minha irmã, me levantei o mais rápido que pude e recomecei a atacar Zababa com todos os tipos de golpes que eu havia aprendido com Hórus. Sadie também tentava usar sua combinação de feitiços tentando também não me acertar (grato). Mas o cara era bom e ele lutava como um selvagem. Às vezes conseguíamos acertar golpes que pareciam o afetar, mas no geral, era o contrário.

Queria saber como estavam indo as coisas contra o dragão, embora duvidasse que estivessem muito melhores já que né... Um dragão é um dragão. Enquanto eu me perguntava isso, vi com o canto do olho uma coisa estranha. Parecia um búfalo, só que muito maior do que o que se espera de um e ele tinha asas e parecia muito mais demoníaco. Apostei, infelizmente, que era um reforço para o dragão e Zababa. Odeio ter que admitir que acertei. Talvez julgando que o dragão precisasse mais de ajuda, (ou talvez por outro motivo, como eu teria mais tarde pensado), o búfalo foi participar da luta contra o dragão. Provavelmente, nessa hora que Sadie mais ficou com vontade de ir ajudar os namorados, pois, não vi bem o que aconteceu, Anúbis me contou depois, o tal búfalo atravessou Walt/Anúbis como se fosse fumaça e desapareceu. Segundo Anúbis me disse, no começo não fez muita diferença e eles continuaram a lutar contra o dragão invocando agora seus guerreiros chacais, mas a cada segundo que passava, encontrava mais dificuldade em continuar a luta e a manter as faixas de linho segurando o dragão se sentindo cada vez mais fraco.

Enquanto isso, perdíamos feio para Zababa. Distraída pela luta de Walt/Anúbis que não parecia estar indo muito bem, Sadie começou a ficar mais desleixada. Sendo ele um adversário formidável, um ótimo lutador, muito difícil para eu ou até mesmo ela derrotarmos cada um por si (e tenho minhas dúvidas se juntos daria mais certo), a luta começou a ficar ainda pior para nós.

Eu via que as pernas de Sadie estavam tremendo, seus olhos iam rápido de Zababa para o dragão. Sua bochecha e braço sangravam e eu obviamente não queria que se machucasse. Ela também estava ficando quase tão suada quanto eu. Pergunto-me agora se ela já estava ficando sem magia. Acho que sim, porque eu já estava ficando sem forças e estava também sangrando na coxa e sentindo uma dor forte nas costelas.

— Até que duraram bastante tempo, mortaizinhos egípcios – disse Zababa enquanto sua espada se transformou num machado. Sadie tentou nos envolver a ambos em um escudo mágico com a magia que restava, mas eu percebia que o escudo falhava.

Foi nessa hora que várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Um portal surgiu acima do ombro direito de Zababa, dele caiu Walt/Anúbis enquanto o dragão de longe gritava frustrado pelo inimigo que fugiu dele. Walt/Anúbis, aparentemente bem fraco, se agarrou à Zababa e rapidamente Zababa passou por todos os estágios de putrefação até virar um monte de pó sobre o qual Walt/Anúbis caiu. Sem forças e erroneamente momentaneamente aliviados, eu e Sadie caímos de joelho, mas esquecendo de que ainda tínhamos o dragão para lidar. Dragão esse que já estava indo rapidamente em nossa direção, eu e Sadie notamos isso e tentamos arranjar forças para nos levantar e lutar. Mas, deixando o vento carregar o pó que um dia foi Zababa, Walt/Anúbis usou a força que tinha para se jogar em nossa direção e nos agarrar nos levando por um portal por ele aberto quase ao mesmo tempo em que o dragão passava veloz por onde estávamos tentando nos usar de café da manhã. Se tivessem demorado um segundo a mais, eu não estaria aqui contando tal aventura.

Quando abri os olhos, ainda estávamos cercados de areia e pedras, mas dessa vez, na frente de uma casa feita também de pedras e na nossa direção corria preocupado um homem diferente. Não sei se era careca também, pois ele usava um chapéu estranho. Não tinha barba, só um bigode generoso e sobrancelhas tão generosas quanto o bigode. Usava uma roupa meio excêntrica. Tanto sua roupa quanto seu chapéu eram simplesmente colorido demais. Ao prestar mas atenção, notei que a roupa parecia meio árabe. Só meio. Roupa típica talvez?

— Anúbis... Para onde você nos trouxe? – perguntou Sadie, até porque provavelmente a escolha de lugar não vinha de Walt. Mas ela ficou pálida ao olhar para os namorados e então eu resolvi olhar também e fiquei igualmente pálido. Walt/Anúbis pareciam fracos. Mal tinham forças para se manterem de joelhos, o corpo tremia e tossiam e cuspiam sangue enquanto a expressão mudava de raiva para dor.

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ANÚBIS

A fraqueza realmente era grande e de fato horrível. Enquanto sentia que Walt estava com muita dor por si só, pra mim era como se minha cabeça estivesse se partindo em dois. Escutava vozes estranhas, arrastadas e graves sussurrando e incentivando-me a fazer coisas que era fácil julgar como sendo erradas ou pelo menos questionáveis. Estava tomando cada vez mais de mim resistir ao demônio ou entender o que se passava ao nosso redor.

A sensação fazia com que eu me lembrasse de um dos momentos mais complicados de minha vida. Quando a cultura, religião e idioma do Antigo Egito tinham quase se perdido por completo. Aproximadamente no ano de 500, praticamente ninguém sabia ler os hieróglifos. Com a memória sobre os deuses e a própria história do Egito se perdendo, muitos deuses mais fracos ou menos famosos passaram à lentamente desaparecer. Quase fui um deles. Já estava bem fraco e mal conseguindo me manter visível até para mim mesmo quando um soldado de Napoleão encontrou a Pedra Rosetta e Jean-François Champollion passou a, finalmente, traduzir os textos egípcios. Foi desse momento que eu me lembrava. Era a mesma sensação de desespero e vazio, no entanto, agora era bem mais doloroso. No mínimo três vezes mais doloroso.

Percebia também que Walt estava tentando também aguentar a dor e talvez perguntar o que acontecia. Mas além de não conseguir, parecia compreender menos ainda o que acontecia.

— Quem é você?! – ouvi Sadie perguntar já preparando sua varinha para atacar o homem que se aproximava.

— Espere... Sadie... – disse fracamente tentando impedir que eles descartassem quem provavelmente seria nossa última chance – Esse é Ninazu.

— Nina-quem? – ouvi Carter perguntar. Lembro-me de ter aberto a boca para responder, mas as vozes ficaram mais fortes. Não duvidaria se minha cabeça explodisse logo. Maldito Shenu.

— Ora! Não temos tempo para isso! Tenho que começar o ritual para tirar o Shenu dele! – disse Ninazu correndo de um lado para outro juntando as coisas que precisava uma vez que notava agora o que era que acontecia dentro de mim.

— Quem raios é você? Não vou deixar tocar neles se não souber que posso confiar em você! – Sadie brigou. O que fez me sorrir levemente e segurar sua mão.

— U-Um... Velho amigo... – consegui dizer.

— Ora! Poupe o esforço Inpu! – disse Ninazu se ajoelhando uma vez que, me envergonho em dizer, eu e Walt já estávamos jogados no chão sem forças para mais nada.

Era estranho ouvir aquele nome. Faziam muitos séculos que a maioria dos que eu conhecia já haviam parado de me chamar pelo nome egípcio “Inpu” e começaram a optar pelo nome grego “Anúbis”. Que acabou por se tornar o mais famoso aparentemente. Notei que Ninazu já estava começando com os preparativos, mas neguei com a cabeça.

— Espere... S-segure um pouco... – pedi – explique tudo e faça a dor passar por uns instantes. Sei pouco d-do Shenu... E o pouco que sei me dei... xa... P-preocupado por coisas que você não sabe.

Ninazu bufou e revirou os olhos. Senti que mentalmente ele deveria ter resmungado algo do tipo “Teimoso como sempre”. Mas mesmo assim, ele fez o que pedi. Resmungou algumas palavras em sumério enquanto segurava um talismã e senti a dor passar um pouco.

“O que... foi isso?” a voz de Walt ecoou em minha mente.

“Eu... Apenas sei parte. Ninazu explicará o resto” lhe respondi apreensivo.

“Por que parece que está escondendo algo?” perguntou Walt.

“Eu... Ainda não tenho certeza do que sei então prefiro não revelar para não causar dores e estresses desnecessários. Ninazu irá tirar minhas dúvidas e espero que eu esteja errado”.

Sendo assim, sentei-me um pouco no chão. O corpo mortal de Walt doía em toda parte e minha cabeça latejava. As coisas errôneas que as vozes sussurravam (reconheci, agora mais calmo, que sussurravam em sumério) pareciam cada vez mais como ideias tentadoras. Isso me preocupou.

— Sadie, Carter... – disse tentando não transparecer que estava com vontade de vomitar enquanto torcia para que isso terminasse logo, e de preferência num final feliz – Esse é Ninazu... Ele é o deus sumério do submundo e da saúde...

— Sumério? – perguntou Carter surpreso.

— Que coisas contraditórias para se ser deus. – disse Sadie.

— Como assim deuses Sumérios existem também?! – reclamou Carter.

— Já conhecemos Egípcios e Gregos, e daí? Isso não é discussão para agora Carter! Expliquem-nos o que raios aconteceu ou está acontecendo!

— Esse corpo que Inpu está habitando... – começou Ninazu que logo foi cortado por Walt.

— W-Walt... me chamo Walt...

— Tanto faz. Walt. O corpo de Walt foi possuído por um demônio muito poderoso, sumério também, chamado Shenu. Se fosse fazer uma comparação, diria que um Shenu é quase do nível de um Cavaleiro do Apocalipse. – explicou Ninazu – Os sinais são bem característicos e senti a aura do monstro assim que vocês chegaram. Temos que tirar o demônio ou Walt morrerá e Inpu ficará contaminado.

— Como assim contaminado? – perguntou Sadie.

— Sendo imortal, um demônio desses não o mataria. Mas eles estão o corrompendo. Suponho que deva estar com muita dor de cabeça não? Ouvindo vozes que parecem cada vez mais tentadoras. - disse Ninazu.

Notei que a última frase não foi uma pergunta e acabei desviando o olhar envergonhado.

— M-Mas... Ele é um deus né? Não consegue tirar sozinho esse bicho? – perguntou Sadie apreensiva segurando minha mão fortemente.

— Para derrotar um Shenu, é preciso canalizar magia feita de energia extremamente pura. Consigo fazer rituais que a usam por ser também o deus da saúde. Mas Inpu... – disse Ninazu suspirando ao mesmo tempo em que Walt tossia quase botando o intestino para fora - Ele pode até ser alguém bom... só meio mal humorado na maioria dos séculos... Mas... Não tem como fugir. Personalidade não altera tanto assim a natureza da magia. Inpu ainda é filho do deus egípcio do caos e sua magia gira em torno da necromancia.

— Mas Ninazu... D-deixe-me perguntar... – comecei querendo sanar logo minha dúvida – O S-Shenu está apossado do corpo de Walt – disse enquanto pressionava as mãos na cabeça segurando a vontade de esmaga-la – de certa forma também estou. Então...

— Então os dois estão brigando pelo corpo e, quando o Shenu ganhar, o corpo morrerá. – disse Ninazu – tenho que tirar os dois então. Tanto você quanto o Shenu.

— Não! – disse Sadie com os olhos arregalados se enchendo de lágrimas e percebi pelo frio que tomou o coração de Walt que ele também sentiu o problema da ideia de Ninazu. Frio esse que se espalhou também pelo meu, pois sabíamos que se eu deixasse o corpo de Walt, ele imediatamente morreria pela maldição que assombra sua família desde dos tempos de Tutancâmon.

— D-Deve ter outra forma – sugeriu Carter.

Visto que Ninazu parecia meio perdido em porque tamanha preocupação em tirar tanto eu quanto o Shenu de dentro de Walt, uma explicação sobre a maldição foi brevemente dada por Carter e Sadie. Ou melhor, acho que foi o que eles fizeram, pois a dor começou a crescer novamente mostrando que o feitiço de Ninazu, que eu sabia que não duraria muito, estava acabando. Minha atenção se desviou novamente e quando dei por mim, estava no chão novamente.

Queria ter um jeito que Walt sobrevivesse. Não sou egoísta ao nível de querer que ele morresse para que eu ficasse só com a Sadie. Principalmente com algo que pode fazê-la chorar. A expressão de medo, tristeza e pavor em seu rosto já fazia meu coração apertar.

— Não pode! Não pode! Não quero perder mais ninguém! – disse Sadie se jogando em cima de nós e abraçando enquanto o seu rosto se enchia de lágrimas. Partia-me o coração ver ela daquele jeito. Naquele momento jurei pelas águas do Nilo que aconteça o que acontecer eu iria me vingar de seja lá quem enviou aquele Shenu pelo simples fato (apesar de pra mim não ter nada de simples) de ter feito Sadie chorar.

“Anúbis...” a voz de Walt me pegou de surpresa. Ele havia se mantido quieto até então (e não sem motivo) “Não... não tem outro jeito né?”.

“Não que eu saiba. Não sou exatamente profissional em mitologia suméria. Se Ninazu não sabe, dificilmente deve existir” o respondi.

“Julgando pela dor também... mesmo se não fizer o ritual acho que não faltaria muito para... você sabe...” disse Walt.

Com a mão tremendo, Walt acariciou levemente a bochecha de Sadie e tentou forçar um sorriso em meio à dor que sentia. Algo que me surpreendeu, pois eu também estava sentido a dor e devo dizer que fazer qualquer coisa que não fosse gritar era um desafio considerável.

— Hey – disse Walt – não chore. De certa forma já era para eu ter morrido uns anos atrás.

— M-Mas... Eu não quero... Logo agora... Q-que... Tudo parecia... Estar dando certo... – disse Sadie soluçante enquanto as lágrimas escorriam pelas suas bochechas macias.

A partir desse ponto tudo ficou meio confuso em minha memória. Lembro-me de ter gritado de dor quanto o feitiço de Ninazu finalmente se rompeu. Lembro-me de um abraço forte e um beijo na testa. Lembro-me das vozes que no começo sussurravam, mas logo já estavam gritando em minha cabeça ferindo meus ouvidos embora isso fosse impossível, pois elas existiam apenas em minha mente.

Quando dei por mim de novo, percebi que estava deitado no chão e minha boca tinha gosto de terra. Não tinha forças para me mexer ainda. Ao olhar para frente e ver patas negras no lugar de mãos pálidas. Cheguei então à conclusão que não só estava na forma de chacal, como estava também fora do corpo de Walt. Não sei quanto tempo olhei para o vazio tentando achar alguma força para levantar-me. Se levantar já estava difícil, ter força o suficiente para ir para uma forma humana estaria mais ainda. Assim, quando consegui me levantar, virei o rosto e a primeira coisa que vi foi Sadie chorando abraçando o corpo de Walt enquanto Carter estava dividido entre consolar a irmã e chorar de dor também.

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SADIE

Realmente não sou boa com palavras em momentos como esse. E acho que podem me perdoar quanto a isso. Claro que briguei como tal Ninazu depois que Walt/Anúbis desmaiaram. Tinha que ter uma opção melhor! Sim, era bom que ao menos uma opção possível me fazia ainda poder ter Anúbis, mas queria que Walt ficasse vivo também. Sou egoísta por querer os dois?

Eu soluçava e as lágrimas já pingavam do meu rosto há algum tempo quando Anúbis se levantou do chão em sua forma de chacal. Até então eu não havia notado isso, apenas continuei chorando sobre o corpo de Walt.

— Sadie... – disse Carter levemente dando uma fungada (provavelmente chorando também) e então botando a mão em meu ombro.

Não sei quanto tempo fiquei ali, ignorando tudo que acontecia ao meu redor. Apenas queria chorar até me acabar. Não sei se posso descrever a sensação de ver alguém que nos importamos morrendo. É simplesmente a pior de todas.

Em certo ponto, notei que provavelmente Walt não gostaria de me ver daquele jeito. Foi difícil e envolveu vários soluços, mas consegui respirar fundo para me afastar do corpo dele e apenas ficar ali ao lado, sentada, olhando, enquanto as lágrimas ainda escorriam pelo meu rosto. Tinha a leve sensação de que tanto meu irmão, quanto Anúbis me olhavam preocupados embora estivessem eles mesmos também em sua forma de luto. Respirei fundo novamente e poucos segundos depois senti o focinho de Anúbis em minha bochecha. Meio estranho isso, afinal ele estava na forma de chacal. Fazia um bom tempo que eu não a via.

— V-Voc-cê e-está b... D-de v-volta a-ao n-normal? – perguntei entre soluços.

Ele acenou com a cabeça enquanto me olhava com aqueles olhos da cor de chocolate com uma expressão preocupada. Pergunto-me agora se ele conseguia falar daquela forma, mas me pareceu que naquele momento ele tentava silenciosamente pensar em algo para dizer meio que provavelmente sabendo que perguntar “Você está bem?” seria algo estúpido. Naquela hora, a única coisa que consegui fazer foi abraçar ele forte.

A partir de então, tudo ficou meio confuso de se lembrar. Tenho a leve memória que Ninazu, Anúbis e Carter conversaram depois de uns segundos, mas eu não lembro bem o que falaram. Quando voltei a dar por mim de novo, Anúbis estava em sua forma humana que eu tanto conhecia. Ele se ajoelhou ao meu lado e passou a mão delicadamente em minha bochecha limpando a trilha que uma lágrima formara. Acho que ele falou algo, mas não me lembro. Anúbis me pegou no colo carinhosamente e eu o abracei com força. Creio que alguém deve ter aberto um portal, pois um apareceu em nossa frente e então estávamos em nossa casa do Brooklyn.

Desde então, tenho estado no meu quarto. Não sei exatamente quantos dias se passaram. Talvez deva contar pelas vezes que Carter tentou me dar algo para comer? Não que eu tenha tentado tocar na comida alguma vez. Acho que eu posso dizer que o único avanço que tive foi que cansei do silêncio que reinava naquela casa e principalmente naquele quarto e acabei botando toda a minha playlist da Adele para tocar no aleatório. Naquele momento, eu fitava o vazio da parede de meu quarto ao som de “When we were Young”. A música já estava no fim quando eu ouvi passos no corredor, o barulho dos coturnos era bem característico uma vez que eu mesma os usava com frequência. Assim, sabia quem era. Anúbis. Ele já havia vindo algumas vezes tentando falar comigo, mas nunca respondi a batida na porta e ele tão pouco tinha tentado simplesmente entrar no meu quarto (o que imagino que seria algo bem simples considerando que ele pode aparecer praticamente onde quiser... claro... desde que tenha os tais pré-requisitos de lugar de morte ou luto. Mas acho que tem outros lugares mais... divinos... ou mágicos... que também permitem isso). Poucos segundos depois, ouvi a batida na porta de meu quarto.

Mordi meu lábio perguntando-me se dessa vez mudaria a minha resposta (ou a falta dela).

— Pode entrar – respondi de forma monótona e então eu o ouvi abrindo a porta aparentemente de forma cautelosa. Afinal, foi a primeira vez que deixei ele entrar. Eu estava de costas para porta, mas meus ouvidos seguiram seus passos pelo meu quarto e o barulho e movimento da cama mexendo quando ele se sentou ao meu lado.

— Ahm... – disse Anúbis provavelmente pensando no que pensar – Carter disse que você ainda está comendo bem pouco.

— Sem apetite. – respondi meio seca.

Ele suspirou e demorou uns segundos antes de passar os dedos delicadamente pelo meu cabelo tirando algumas mexas que caiam sobre meu rosto. Arrepiei-me ao sentir seus dedos. Mesmo dentre a minha tristeza, pude lembrar como eu gostava daquele lindo deus do papel higiênico. Eu me sentei e, ainda sem o olhar muito, o abracei deitando a cabeça em seu ombro. Anúbis nada disse apenas me abraçou de volta e afagou minha cabeça e então deu um leve beijo em seu topo. Ficamos daquele jeito por algum tempo enquanto a música de Adele enchia o quarto. Eu apertei o abraço e ele correspondeu o aperto. Não parecia que palavras precisavam ser ditas, todas elas pareciam estar expressas naquele abraço.

— Seja forte Sadie. Eu sei que você é. – disse ele passando a mão gentilmente em minha cabeça. Podiam ser palavras simples, mas elas me fizeram abrir o primeiro sorriso que eu abria desde que Walt morreu. Foi um sorriso simples, pequeno, talvez ainda bastante recheado de tristeza, mas foi um sorriso. Assim, eu levantei a cabeça e o olhei nos olhos. Achei que ele merecia poder ver o sorriso que conseguiu botar no meu rosto.

— Obrigada – eu respondi passando a mão nos olhos que já pareciam se encher de lágrimas.

O deus segurou gentilmente meu rosto com suas mãos pálidas enquanto meu celular agora tocava “All I Ask”, originalmente da Adele, mas essa estava na versão em espanhol que achei por acaso no Youtube que era cantada por um tal de Kerly Karla & La Banda. Seria um momento bem romântico se não fosse o fato de estar recheado de luto. De forma lenta, ele beijou-me nos lábios e foi bom poder sentir mais ainda do calor dele. Não tinha como eu dizer que estava 100% melhor, mas com certeza eu estava melhorando um pouco graças à presença dele ali. Depois de nos separar do beijo, ele ficou me olhando com uma expressão que eu passei a conhecer bem.

— O que foi? – eu perguntei. Aquela expressão que estava no rosto do deus era a de que ele tinha algo para me falar, algo que talvez eu não gostasse, e por isso ele pensava no melhor jeito de falar.

Ele abaixou a cabeça e o olhar suspirando um pouco e então voltando a sustentar o meu olhar enquanto segurava cada uma de minhas mãos com as suas como se para me dar forças.

— Ontem à noite... – começou Anúbis – o... O ka de Walt chegou ao Salão do Julgamento.

Senti um frio percorrer minha espinha. Quão estúpida eu era. Nem tinha considerado o fato de que provavelmente o ka (ou a alma) dele iria para o Salão do Julgamento onde Anúbis iria... Ai meus deuses... onde Anúbis iria o julgar e então a alma dele iria para o Sekhet-Aaru. O mais próximo possível do que seria um “paraíso”. Caso contrário, a pessoa iria virar café da manhã para Ammit.

— Por favor, não me diz que Ammit o devorou! – eu pedi em desespero me agarrando a blusa dele do Iron Maiden.

— N-Não... Eu... Ainda não o julguei. – Ele disse e eu pude me acalmar mais.

— Não?

— Não. Na verdade, foi por isso que vim. Ele quer te ver. Claro, caso seja do seu interesse. Não precisa se forçar a ir se não quiser, ele disse que entenderia.

— Nada disso! Eu estou indo! – respondi apertando talvez forte demais no braço direito dele.

Tudo o que ele fez então foi dar uma pequena mexida no braço esquerdo e então no meio do meu quarto surgiu um portal. Eu me levantei meio trêmula, mas decidida. Anúbis esperou para ver o que eu faria e quando eu entrei no portal, ele me seguiu.

Num piscar de olhos, eu estava no Salão do Julgamento. Ele não havia mudado muito desde da ultima vez em que eu estivera ali. Acho que isso seria o normal a se esperar uma vez que todos os deuses egípcios tinham se mandado do mundo humano. Olhei para onde meu pai (que estava dividindo o corpo com Osíris) costumava ficar com minha mãe e meu coração se apertou por não os ver mais ali e, ao invés disso, ver Walt. Era obvio que não era exatamente ele, era apenas seu ka, praticamente um fantasma e a sua imagem levemente transparente provava isso. Apesar de seus olhos tristes, minha primeira reação foi correr para abraçá-lo enquanto eu sentia meus olhos se encherem de novo de lágrimas, mas parei quando estava a poucos passos dele.

— Hey Sadie – ele disse. Olhei-o e fui esticando a mão levemente para seu rosto em busca de confirmar uma pergunta que havia surgido em minha mente quando eu havia corrido em sua direção. Quando minha mão o atravessou como se ele não fosse nada mais do que ar frio, meu coração se apertou e não pude mais conter as lágrimas. Eu nem se quer podia toca-lo!

— H-Hey. – respondi fracamente enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto.

— Hey Hey. Não chore. Por favor. Não gosto de te ver chorando. – ele disse tentando me alegrar. Percebi pelos movimentos que ele talvez tivesse pensado em limpar minhas lágrimas, mas lembrou-se que sua mão apenas me atravessaria. – Desculpe por ter acabado tudo assim.

— N-Não peça d-desculpas, idiota. – eu disse – O que você t-tem de culpado para pedir d-desculpas desse jeito?

Ele abriu um sorriso torto com as minhas palavras. Ai como eu sentiria falta daquele sorriso.

— Deixe-me pedir desculpas então por não ter conseguido me despedir direito antes. B-Bem... Pelo menos estou conseguindo agora né?

— E isso lá é permitido? – perguntei com uma risada fraca e chorosa.

— Não - respondeu ele com um sorriso culpado e olhando para Anúbis que estava não muito longe.

— Cliente VIP – respondeu Anúbis dando de ombros com um sorriso travesso, mas triste. É “triste” era uma palavra que acompanhava todas as ações do dia até então.

— Sadie, não sou bom com despedidas. Ainda mais tão terminais assim – disse Walt voltando minha atenção para ele. – Mas ainda assim, queria falar com você mais uma vez. Sei que foram muitos altos e baixos e nosso namoro... Bem... Estava bem longe de ser normal. Eu passei muito tempo pronto para morrer por causa da maldição então, acho que ter ganhado dois anos a mais foi até lucro. Afinal, pudemos namorar não? Não sei o que vai ser de mim daqui pra frente nem se posso falar “te vejo do outro lado” já que, se “só” eu já sou cliente VIP do senhor da morte ali, imagino que você seria uma Super Cliente VIP 5 estrelas Gold Platinum. Sei que dói quando alguém que conhecemos morre, mas queria pedir para que seja forte ok? Volte a ser a Sadie irritante e tagarela que tanto conhecemos e gostamos.

Aquelas palavras encheram meu coração e ao mesmo tempo o esmagaram. Chorei que nem um bebê (ou talvez pior) do que um.

— E também – continuou ele – não importa o que aconteça sempre se lembre de uma coisa. Eu te amo Sadie Kane.

E pronto. Aquelas últimas palavras foram à facada final para eu desmoronar.

— Você não pode ir! Não pode! – eu chorei, esperneei e bati o pé. Anúbis se aproximou tentando me acalmar, mas comecei a gritar com ele - Não pode fazer isso com ele!

— Sadie, eu não tenho escolha – respondeu Anúbis odiando tanto a situação quanto eu aparentemente – Eventualmente algo vai acontecer com o ka dele mesmo se eu não julga-lo. Seja esse algo bom ou não. As chances de acontecer algo ruim são muito grandes. Eu e Walt conversamos bastante sobre isso antes de eu ir até você para que possa dar um último adeus. É bem melhor a curto e a longo prazo para ele simplesmente fazer o julgamento logo.

— M-Mas... Mas... – eu gaguejei. Era raro eu ficar sem palavras para contra argumentar. Mas aqui estou eu. Sadie Kane, famosa por ser tagarela, sem saber o que falar.

— Está tudo bem Sadie. Vai ficar tudo bem – disse Walt com um sorriso tentando me alegrar.

Cheguei com a mão perto do rosto dele, sabia que eu não poderia o tocar, mas queria imaginar que podia. Ao menos sentia o ar frio tocando minha mão. Lentamente fiz o mesmo para “o beijar” e ele correspondeu.

— Eu também te amo Walt – disse de volta.

Depois de uns segundos, ele se virou para Anúbis que aparentemente já estava se preparando para o ritual do julgamento, pois havia trocado sua roupa de roqueiro bonitão padrão para roupas egípcias com direito a um cetro de aproximadamente 2 metros no qual ele se apoiava levemente com tristeza no olhar.

— Vai cuidar dela não é? – perguntou Walt.

— Claro que vou – respondeu Anúbis. Eu tinha mesmo os namorados mais super protetores.

— P-Posso ficar para o julgamento? – perguntei e Anúbis negou com a cabeça já abrindo um portal para eu voltar para o meu quarto.

— Desculpe-me, mas não. É algo proibido para olhos de mortais ainda vivos – respondeu Anúbis.

Eu afirmei brevemente com a cabeça e depois de um último olhar de adeus para Walt, fui andando em direção ao portal, mas antes passei ao lado de Anúbis.

— Obrigada e eu também te amo – lhe disse dando também um beijo em seus lábios.

— Também te amo Lady Kane – ele respondeu sorrindo para mim e então eu passei pelo portal dando um último olhar para trás enquanto o Salão do Julgamento desaparecia de minha vista.

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ZIA

Já fazia uma semana desde que Walt morrera. No meio disso tudo, hoje nos víamos no dia após o Natal mais triste que eu já tinha visto. O deus da morte não tinha voltado desde do dia que aparentemente levou Sadie para dar um adeus para Walt. Eu ainda me culpava por ter estado passando mal naquele dia e por isso não ter ido à escola. Talvez alguma coisa pudesse ser feita. Ou não. Ainda não sabíamos muitos sobre exatamente o que aconteceu naquele dia. Acho que o único que poderia dar melhores explicações seria Anúbis, mas ele não apareceu mais depois daquele dia. Enquanto isso, todos aproveitavam o feriado de Natal para... Não sei... Cada um estava com um humor diferente. Uns aproveitavam para esfriar a cabeça, outros tentavam realmente trazer o espírito do Natal, talvez pra esquecer-se de tudo o que aconteceu.

Graças ao Natal, muitos dos aprendizes foram passar as festas de fim de ano com a família, o que deixou a Casa do Brooklyn ainda mais vazia (e talvez até deprimente). De todos os aprendizes, só os que permaneceram para o Natal foram Sean, Cléo e Julian. Sean é um garoto irlandês que está sendo treinado no caminho de Khonsu, depois de muita indecisão de qual caminho seguiria. Já Cléo, é uma garota doce que nasceu no Rio de Janeiro, é completamente viciada em livros e segue o caminho de Thoth. Julian costuma treinar bastante com Carter já que ambos seguem o caminho de Hórus. Entretanto, eles não se parecem muito.

Eu estava jogada no sofá passando, não sem um suspiro, pelo quarto filme de Natal que tinha na televisão. Realmente não estava no humor para aquele tipo de filme no momento.

— Hey – disse Carter aparecendo do lado do sofá – Achou algo legal para ver?

— Incrível como tem tantos canais e mesmo assim nada que preste. – respondi para meu namorado que abriu um sorriso torto e resolveu sentar-se ao meu lado.

— Talvez esteja sendo um pouco exigente com a coitada da TV. – disse ele. Não sei se poderia dizer que sou exigente com a TV. Mesmo quando ainda morava no Egito, não era algo que eu gostasse de desperdiçar meu tempo assim.

— Talvez. – eu disse suspirando desanimada e deitando a cabeça no ombro de Carter. O que fez corar instantaneamente. Incrível como ele ainda ficava sem graça com coisas do tipo. Mas nada contra, ele até ficava... Erm... Fofo... Quando estava sem graça assim.

Acabamos então por deixar a TV passando “O Estranho Mundo de Jack”. Segundo Cléo me contou uma vez, aparentemente era um filme que passava direto tanto no Natal quanto no Halloween já que ele era um tanto... Multi-feriado. Embora a TV estivesse no filme, nossas atenções não estavam nele, mas um barulho que vinha das escadas nos chamou a atenção. Seguindo o barulho, não demorou muito para que víssemos Sadie correndo puxando Anúbis pelo pulso. Ainda acho incrível como ele nem parece se importar. Se fosse outro deus com certeza Sadie não seria mais nada além do que pó. Agora que ele estava fora do corpo de Walt, eu me sentia desconfortável quando ele estava presente. Pode me chamar de exagerada se quiser, mas não consigo confiar totalmente nele. Apesar disso, tenho que admitir, ele foi quem conseguiu tirar Sadie de dentro do quarto dela. Não que ela estivesse toda feliz, mas, pelo menos tinha voltado a comer.

— Olha só quem eu consegui trazer pra cá! – disse ela triunfante levantando o braço dele como um vencedor de uma luta de box enquanto ele, depois de olhar para ela com um leve sorriso, acenou levemente para mim e Carter como que dando um breve “oi”.

— Hey Anúbis – disse Carter. Eu só fiquei encarando e cruzei os braços. - É... Sem querer entrar em detalhes do tipo de novo... Mas... Walt...

— Ele foi para Sekhet-Aaru se é o que quer saber – respondeu o deus. O que significava que Walt tinha ido para o mais perto da ideia de “paraíso” que a mitologia egípcia tinha. O que também explicava porque Sadie parecia um pouco mais feliz.

Carter sorriu e afirmou com a cabeça enquanto Sadie foi puxando Anúbis e então o empurrando para se sentar no outro o sofá que ficava ao lado do que eu e Carter estávamos.

— Então, consegui trazer ele até aqui – disse Sadie - não foi fácil quando não se tem celular. Você deveria arrumar um celular Anúbis! Porque demorou tanto para vir?

— Não acho que tenha sinal no Duat. – disse ele em tom de desculpas. Realmente, também não acreditava que o submundo egípcio tivesse um sinal muito bom – E... Erm... Estava fazendo umas coisas...

Não sei se Carter sentiu o mesmo, sei que Sadie não, mas achei que tinha algo mais por trás dessas tais “coisas”. Mas resolvi deixar isso pra lá por enquanto, tínhamos assuntos mais importantes a resolver no momento.

— Bem... Ainda estávamos tentando entender tudo que aconteceu aquele dia e uma ajudinha sua seria muito bem vinda – disse Carter.

— Sadie comentou – respondeu Anúbis soltando um suspiro – De fato, o que aconteceu naquele dia me deixou bem intrigado.

— Quem eram exatamente aqueles que nos atacaram? – começou Sadie - O cara com o nome de baba, o dragão e aquela coisa estranha q... – ela parou, a voz travou ao lembrar-se do monstro responsável por tirar a vida de Walt.

— O cara com o nome de baba – disse Anúbis com um pequeno sorriso parecendo achar o novo apelido do homem em questão um pouco engraçado – é um dos que me deixa mais preocupado. Ele era Zababa. É o deus hitita da guerra.

Todos ficamos obviamente surpresos que aquele cara era um Deus, mas além de surpresa, uma expressão de desconhecimento passou pelo rosto de Sadie.

— Hitita? – perguntou Sadie.

— Os Hititas foram um dos inimigos favoritos do Antigo Egito – explicou Carter – Foi entre esses dois que ocorreu a Batalha de Kadesh. Batalha que deu origem ao primeiro Tratado de Paz que se tem registro na história e a primeira batalha na história registrada para a qual são conhecidos detalhes de táticas e formações.

— Nerd – disse Sadie.

— Sério? É só até aí que vocês sabem hoje em dia? – perguntou Anúbis um tanto surpreso.

— Bem... Até onde eu sei, é... – disse Carter meio desconfortável.

— Você lembra quantos anos você tinha nessa tal batalha? – perguntou Sadie olhando para o namorado.

— Não exatamente – disse Anúbis suspirando e com cara de concentração como se estivesse contando os séculos – Certeza que já tinha mais de mil. Talvez quase 1900. Não sei direito.

— Velhote – disse Sadie rindo. O que fez ele revirar os olhos.

— Enfim, - continuou Anúbis – acho que hoje em dia eles são mais ou menos os turcos e os sírios.

— Então... Pelo que me contaram do dia. Esse Zababa é hitita, o monstro que Ninazu tirou e o próprio Ninazu são sumérios. Temos já duas mitologias que não conhecíamos juntas. – eu mesma disse – E o dragão?

— O dragão era Illuyanka. – respondeu Anúbis - Hitita também. É na verdade um dragão muito poderoso que já lutou e quase matou um deus hitita. Ele também é bem preocupante por ser tão poderoso.

— Enquanto isso, você parece ter pulverizado o tal Zababa até facilmente. Ou mais ou menos isso. – disse Carter.

— O poder de um deus é muito influenciado por o tanto que ele é conhecido no mundo. – explicou Anúbis – Não exatamente adorado, apenas conhecido. Os deuses hititas são um tanto esquecidos pelo mundo.

— Então, se fosse num mano-a-mano, você como você, não se hospedam em alguém, contra o Zababa, você ganharia? – perguntou Sadie e Anúbis afirmou meio incerto com a cabeça.

— Bem... Não posso dizer com toda certeza. Mas é fato que o nome “Anúbis” é bem mais conhecido do que “Zababa” embora eu não tenha mais nenhum fiel sério – disse Anúbis dando de ombros – mas Zababa é muito ligado para o combate em luta, espadas, socos e coisas do tipo. Eu não sou muito do tipo guerreiro. Acho que se pode dizer que se fossem aqueles jogos de computador, eu seria mais do tipo mago.

— Um Necromancer talvez? – sugeriu Carter e Anúbis afirmou com a cabeça.

— Deixando esse papo de vídeo game de lado, - eu disse. Porque sério, não estava aguentando, deveríamos ir para o foco principal da conversa – o que esses três poderiam estar tramando?

— Aí é que tudo fica mais estranho – disse Anúbis – não é nada normal seres de mitologias diferentes se juntarem para lutarem contra outra mitologia.

— Mesmo dentre deuses e monstros tem as panelinhas como na escola? – perguntou Sadie.

— Mais ou menos isso. – disse Anúbis – Por isso a situação me deixa preocupado. Tentei investigar pelo submundo alguma informação a mais, mas realmente não achei muita coisa além de que outros compartilham a estranha sensação de que algo não está certo.

Todos levamos um tempo para digerir aquela informação. Posso não ter visto esses três que os atacaram, mas, levando em conta o que Carter me contou depois que eles voltaram e agora com essa breve conversa com Anúbis, eu não podia deixar de ficar preocupada. Quantos mais monstros os Sumérios e os Hititas poderiam ter e mandar para nos atacar? Quais outras mitologias poderiam se juntar? Porque a essa altura seria estupidez achar que só essas poucas existiam.

— Bem... Acho que podemos tirar umas férias de qualquer investigação e aproveitar o que nos resta de clima natalino não? – perguntou Sadie.

— Você quer comemorar o Natal com tudo isso acontecendo? – perguntei olhando para ela como se estivesse ficado maluca.

— Ora, Anúbis já andou investigando o submundo e não descobriu muita coisa. Não sei de onde poderíamos tirar mais conclusões. – disse Sadie - Na pior das hipóteses ligar para Percy e Annabeth para ver o que eles sabem do lado grego da mitologia?

— Faça isso então! É melhor do que nada. – reclamei levantando-me do sofá.

— Amanhã faço isso – disse Sadie.

— Nada disso. Hoje. – enfatizei. Acho que percebi Carter e Anúbis se entreolhando como se falassem silenciosamente “Você não vai tentar falar com sua namorada?”, “Eu não. Vai você cara”.

— Se quiser tanto assim falar com ela, ligue você – disse Sadie agarrando o braço de Anúbis e o puxando do sofá – Ah é! Sou eu quem tem o número dela. Nem o nerdizinho aí salvou o número dos dois.

E com essas palavras, ela se virou e foi com Anúbis para o quarto dela. Olhei-a com raiva e não me orgulho disso ou do tom de voz que usei. Visto que nada mais podia fazer, me joguei no sofá de braços cruzados para voltar ao filme enquanto Carter me olhava se perguntando o que seria seguro dizer ou fazer sem me deixar mais irritada. Não queria seguir o conselho de Sadie e tentar aproveitar o que restava de clima natalino. Uma sensação estranha se remoía no meu estômago desde que eu acordara. Não era uma sensação boa. Era uma sensação de que algo ia dar errado. Mas apesar de tudo, eu torcia para que o tal espírito natalino que Sadie falava fosse capaz de provar que meu estômago estava errado e que na verdade eu só tinha comido chocolate demais.

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NICO

Acho que se for contar quantos Natais já tive desde que nasci, provavelmente não dá pra falar que a maioria deles foi feliz. Quando era pequeno tudo era mais simples. Quando eu passava os Natais em Veneza com minha mãe e minha irmã Bianca sem saber nada dessas coisas de deuses gregos além do fato de que eram só mitologia ou no máximo personagens que apareciam nas cartas de mitomagia. Mas, claro, aí tudo teve que ir por água abaixo porque a Segunda Guerra Mundial começou, então tivemos que sair da Itália. Aí veio Estados Unidos e... É... Tudo piorou bastante. Realmente não estou com o mínimo humor de fazer um flashback tristonho pra simplesmente fazer um resumo da minha vida até o dia de hoje. Até porque boa parte é confusa e com pulos no tempo até eu, do nada, surgir nos dias atuais. Depois de tantos baixos e altos e mais baixos, acho que posso finalmente dizer que as coisas estavam melhorando. Quer dizer, já tinha completado mais de 1 ano namorando o Will e.... É... Acho que posso dizer que estou feliz embora eu vez ou outra invoque um zumbi “sem querer” para poder arranjar uma desculpa de ficar na mesa dos filhos de Apolo ao invés da solitária mesa dos filhos de Hades no Acampamento Meio Sangue.

Will é filho de Apolo e de uma cantora do Texas. Quando Apolo resolveu levar um pé na bunda de Zeus que o expulsou do Olimpo, eu pude conhecê-lo. Quer dizer, já havia o encontrado antes disso, mas nunca como “pai do meu namorado”. Talvez pelo descaso de alguns deuses com os filhos ou pela razoável fama de ‘mulherengo’ ou... ‘homenrengo?’ de Apolo, eu nem me preocupei muito com encontro. Até porque Apolo estava numa situação estranha, era agora um mortal com o nome ridículo de Lester Papadopoulos. Mas devo admitir (e não contem pro Will, embora provavelmente ele tenha notado) que fiquei BEM preocupado e ansioso quando ele falou em conhecer a mãe dele no Natal.

— Minha mãe disse que vai vir passar o Natal em Nova Iorque – disse ele um dia no café da manhã no acampamento – Podemos ir passar com ela e aí ela te conhece que tal?

Eu quase botei meu suco de laranja pra fora ao ouvir aquilo.

— Me conhecer? – repeti como se não tivesse acreditado em meus ouvidos – tem certeza disso?

— Claro. Porque não? – perguntou Will me olhando cheio de esperança.

— N-Não teria sido melhor você ter ido pro Texas ao invés de ela vir ate Nova Iorque? Não é como se hotéis fossem baratos por Nova Iorque nessa época do ano. – eu disse

— Bem... Foi o que ela sugeriu antes. – disse ele – mas então eu mencionei que meu namorado consegue ser um imã para problemas por ser um filho de Hades, então seria talvez melhor ela vir até mais pertinho.

Eu realmente não acreditei no que ele disse. Ele praticamente forçou a mãe dele a gastar uma boa graninha a mais só pra me conhecer?

— V-Você disse isso? E ela topou? – perguntei incrédulo.

— Claro. Na hora. Ela tá doida pra te conhecer. – ele disse.

— E ela sabe que... Que eu... Sou... Seu namoradO e não namoradA? – eu perguntei encarando o copo de suco enfatizando o “o” e o “a”.

— Claro que sabe. Deixa dessas nóias de anos 30. Tudo quanto a isso é bem mais de boa hoje em dia. – ele respondeu.

— Aham. Tá. Fala isso pra esse Trump ai. – respondi.

— Tá... Tem umas exceções. – disse ele dando de ombros – E então?

Eu demorei uns segundos mais considerando a proposta, mas eventualmente suspirei e acabei topando.

E é por isso que agora eu estava aqui em Nova Iorque encarando a recepção de um hotel simples, mas aconchegante.

— Tem certeza que isso foi uma boa ideia? – perguntei nervoso botando as mãos no bolso da jaqueta.

— Relaxa. Vai dar tudo certo – disse-me Will dando-me um rápido beijo na bochecha que me fez corar e me esconder mais na jaqueta olhando rapidamente ao redor, mas ninguém parecia ter visto nada demais.

De repente, só escuto uma voz feminina gritando alegremente o nome de Will.

— WILL! – gritava uma sorridente Naomi Solace. Era fácil ver a semelhança dela com Will embora eu ache que Will tenha provavelmente puxado mais a aparência de Apolo e a personalidade dela. Ela na hora abraçou Will fortemente e ali ficou por mais alguns segundos até que se virou para mim. – E você... Você deve ser o Nico. Certo? – perguntou segurando em meus ombros ainda mantendo o sorriso.

— É-É... sou... – eu respondi.

Na hora ela me abraçou quase tão forte quanto abraçara Will e falou baixinho em meu ouvido acho que só para eu ouvir.

— Obrigada por cuidar de meu filho. – ela disse.

Não pude deixar de abrir um pequeno sorriso e finalmente corresponder ao abraço.

— Por nada... – lhe respondi.

Depois daquilo, conversamos pouco (basicamente se estávamos bem e sobre a queda de Apolo do Olimpo) e então fomos todos para o quarto. Era um quarto aconchegante com três camas de solteiro. Ela disse para nos sentirmos em casa e acho que Will conseguiu cumprir mais a sugestão do que eu que me contive em sentar-me em uma das camas da ponta e tirar minha jaqueta já que ali dentro estava mais quente. Não sabia bem como me comportar ou o que falar. Queria agradar ela.

— Viu mãe, não disse que Nico era um cara legal? – perguntou Will me tirando de meus devaneios.

— Ora, claro que é. É um bom rapaz. Só fico imaginando o tanto de encrenca que vocês já devem ter se enfiado por perto daquele Acampamento. Deixa-me preocupada sabe? – disse Naomi soltando um suspiro. – Seria bom se pudéssemos usar um celular.

— Sabe que não é uma boa ideia um celular, mãe... – disse Will com um sorriso triste.

— Eu sei. – disse ela dando um beijinho na cabeça de Will. Bem coisa de mãe, acho. Talvez uma expressão sombria tenha passado pelo meu rosto naquele momento ao me lembrar de minha falecida mãe. Acho que ela notou, pois logo se sentou ao meu lado na cama. – Bem, Nico, tenho que te pedir para fazer uma decisão muito importante.

— Eu? – perguntei.

— Sim. Bem, Will comentou que você é italiano. Então... – disse ela pegando do bolso três panfletos – Você vai ser responsável por escolher onde passaremos a Noite de Natal. Consegui esses três panfletos de restaurantes que vão fazer alguma coisa especial de Natal. Esse é de um restaurante italiano – disse ela com uma piscadela – mas... Se não estiver se sentindo no clima de comida do tipo natale italiano... Falei certo?

— Falou – eu disse com um pequeno sorriso.

— Bem, se não estiver no clima natale italiano, temos também um restaurante com comidas bem american christmas e... Bem... Nunca tentei, mas fica a curiosidade... Acho que esse eu não sei ler direito... genéthlio ellinikó? Enfim, natal grego. – disse ela me entregando os três panfletos. – Pronto, temos as três heranças mais próximas no quesito comida de vocês dois para você escolher. Mas claro, podemos ir lá para uma janta gostosa em qualquer outro dia enquanto estamos aqui.

E foi assim, que agora eu me via em pleno dia 25 de Dezembro me lambuzando com um boa pasta, enchendo a barriga de panettone e comendo uma boa pizza junto com o Will e Naomi num restaurante italiano cheio de italianos e passando a TV italiana. Fez-me ficar com saudade da Itália embora muito dela tenha mudado desde que eu fui embora no começo da Segunda Guerra Mundial. Qualquer dia pensaria sobre voltar lá com mais calma. Quer dizer, sem ter que fugir de monstros e tentar salvar o mundo.

— Ei – disse Will ao meu lado da mesa depois que eu terminei de mastigar o ultimo pedaço de minha segunda fatia de pizza. Eu o olhei e ele sorria e me olhava nos olhos com aqueles olhos azuis como o céu ou o mar. Mas aquele sorriso... Era um sorriso lindo que me fez corar. – Feliz Navidad!

— Isso é espanhol, idiota. – retruquei e ele riu de leve enquanto eu revirava os olhos, mas logo o olhei de novo e sorri para ele - Buon Natale.

— Buon Natale. – disse ele certo dessa vez.

Ele sorriu de volta para mim e, naquele momento, eu não me preocupei se alguém estava olhando ou se a mãe de Will estava ou não tendo um ataque de fangirl, só sei que quando vi o rosto de Will se aproximando para me beijar, eu me aproximei também até que nossos lábios se tocaram docemente. Não sei dizer quanto tempo ficamos ali nos beijando, só sei que logo senti a mão de Will em minha bochecha e eu coloquei a minha mão sobre a dele.

Se alguma vez eu já tinha parado para fazer um ranking dos melhores Natais que eu já tive, aquele com certeza estava dentre o top 5. Não vou dizer que talvez em primeiro porque minhas lembranças dos Natais com minha mãe e irmã na Itália são um pouco esquecidas, mas ainda assim, preciosas.

Depois disso, fomos de volta para o hotel. Havíamos combinado com Percy e Annabeth de sair no dia seguinte. Eles também estavam na cidade para passar as festas de fim de ano com a família, principalmente Percy que agora estava com uma irmãzinha (por parte de mãe) nova e ele parecia ser muito coruja com ela e, como agora eles estavam morando na costa oeste enquanto estudavam em Nova Roma, imagino que a saudade tenha aumentado bastante.

— E aí? Quanto tempo fazia desde que você tinha um verdadeiro natal italiano? – disse Will já no quarto do hotel enquanto a mãe dele tomava banho.

— Sinceramente, já perdi a conta. – lhe respondi enquanto ele sentava na minha cama.

— Podemos tentar fazer um acordo com todos os monstros e tudo mais para que o próximo Natal possamos passar em Austin na casa da minha mãe. – disse Will pegando em minha mão.

— Haja acordo para fazer eim? – perguntei e ele soltou uma breve risada.

— Daremos um jeito – ele disse.

A ideia era passarmos do dia 23 até o dia 5 de Janeiro com a mãe de Will em Nova Iorque simplesmente passeando, nos conhecendo e tirando muitas fotos. No dia 23 conheci a Naomi e andamos um pouco pela Times Square, no dia 24 a mãe dele insistiu em comprar presentes de Natal para a gente embora ainda não fosse o dia 25 e ficamos os três vendo filmes de Natal na TV do Hotel (com direito a uma bagunça de pipoca pelo sofá) até o dia 24 virar o dia 25. No dia 25, passeamos um pouco pela cidade antes de ir para o restaurante italiano que já mencionei. No dia 26, tínhamos marcado de nos encontrar com Percy e Annabeth em um ponto perto do Central Park. Os planos do dia 27 em diante ainda eram uma surpresa, segundo disse Naomi. Ao pensar nisso agora, me sinto mal por ela pelos planos dela terem ido por água abaixo.

A neve ainda ocupava as ruas da cidade (o que acho meio irritante) enquanto íamos ao encontro de Percy e Annabeth no dia 26. O hotel em que estávamos era um pouco longe do Central Park, tivemos que ir de metrô para diminuir a distância que precisaríamos caminhar. Nada contra isso especificamente, já que o frio foi uma boa desculpa para Will e eu sentarmo-nos juntinhos no metro de mãos dadas. Depois de sair do metrô, fomos andando em direção ao Central Park, mas... Bem... O que vimos lá não foi bem o que esperávamos ver.

Sim, vimos Percy e Annabeth. Na hora pude reconhecer os dois a distância e eles pareciam quase tão assustados quanto nós. Os humanos por perto não pareciam ver nada demais, culpa da névoa, mas ali, entrando cada vez mais dentro do parque estava uma quantidade considerável de monstros. O mais preocupante, no entanto, era que tinha um segundo grupo, maior ainda, que ia para outra direção.

— PERCY! ANNABETH! – Will gritou e começamos a correr em direção aos dois que estavam ocupados agora tentando impedir que um monstro que eu nunca tinha visto. Ele parecia um... Um... Bem, não tem melhor definição do que “Cavaleiro sem cabeça”. O Cavaleiro, que tinha até direito a o próprio cavalo, perseguia uma garota que gritava. Pergunto-me o que ela via.

— WILL! NICO! – disse Annabeth enquanto Percy perfurava o tórax do cavaleiro com contracorrente e a menina fugia o mais rápido que o piso escorregadio pela neve permitia. Depois do grito da menina, o caos foi começando mesmo dentre os mortais comuns.

— De onde vieram esses monstros?! – perguntei imediatamente com a minha espada na mão. Afinal, não é só Percy que tem seus truques de espada que algo mais “carregável” pelas ruas no século XXI.

— Não sabemos – disse Annabeth – já estavam aqui quando chegamos. A maioria não parece ligar para os mortais, mas alguns insistem em atacá-los. A maioria ou vai para dentro do Central Park ou descendo essa rua.

— Com certeza, nenhum dos dois pensa em preparar um show fogos de artifício para o Ano Novo. – disse Will.

— Não mesmo – disse Percy.

— Isso é demais só para nós quatro. – eu disse enquanto, provavelmente atraído pela presenta de quatro semideuses juntos, pelo menos meia dúzia de monstros iam para cima de nós. Reconheci dentre eles pelo menos uma Dracanae, mas tirando ela, os outros monstros pareciam-me estranhos, quase que “estrangeiros” se é que posso usar essa palavra.

Will conseguiu se afastar o suficiente para pegar seu igualmente prático arco e flecha (é, os filhos de Hermes do acampamento estavam conseguindo fazer armas práticas de carregar por ai ou alterar uma ou outra que não tenha já essa habilidade), Annabeth pegou sua faca e eu e Percy pegamos nossas espadas e nós quatro lutamos contra a meia dúzia de monstros que foi para cima da gente. Acho que posso dizer que éramos um bom time. A mira de Will era perfeita para acertar um monstro não importando que ele estivesse lutando com a gente (filho do deus do arco e flecha, duh), isso distraía o monstro e então algum de nós podíamos o mandar para o Tártaro (ou seja lá pra onde aqueles monstros estranhos iam).

— Não podemos deixar aquele segundo grupo que está indo para sei lá onde fazer seja lá o que eles querem fazer! – disse Percy meio sem fôlego enquanto matava o último monstro.

— Eu e Nico vamos atrás deles, vocês podem cuidar desses do Central Park – disse Will.

— Certeza? – perguntou Percy.

— O Central Park está até bem cercado de água então... Acho que ficaremos bem cabeça de alga – disse Annabeth.

— Água essa que está congelada... – reclamou Percy – Mas tá... Tomem cuidado.

Afirmei com a cabeça enquanto Will já ia me puxando pelo pulso. Corremos atrás dos monstros seguindo o caminho que eles faziam. Esses pareciam menos interessados ainda em atacar os mortais. O único inimigo forte que tivemos foi o gelo que cobria a calçada e às vezes fazia um de nós escorregarmos, mas o outro tentava segurar.

— Acho que estamos no Brooklyn – eu disse. Não sei quanto tempo corremos, já estava sem fôlego.

Aparentemente os monstros tinham parado de andar e estavam atacando uma casa grande e bem bonita. De um buraco dessa casa, vi uma garota de cabelos loiros e mechas coloridas segurando algo na mão enquanto um garoto afro-americano lutava com uma espada esquisita contra pelo menos três monstros. Se juntando a eles na batalha, pude ver mais uma garota de cabelos curtos que ajudava o garoto e também uma menina com dois meninos que juntos lançavam... Magias? ... E ataques contra uma dúzia de monstros. Aparentemente o que impedia tudo de ficar mais feio era algo que parecia um campo mágico que parecia ser obra da menina e também tinha...

— AQUILO É UM DRAGÃO? – exclamou Will olhando para cima.

Eu olhei pra cima e vi que tinha de fato um dragão lutando com outra pessoa, um garoto de cabelos negros.

Não sei quem eram eles, mas estavam obviamente em apuros e, quaisquer inimigos dos monstros, acho que dava pra considerar amigos.

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PERCY

Certo, provavelmente essa é a hora que vocês esperam que eu vá contar todo o lado meu e da Annabeth desse problema a partir de onde nos separamos de Nico e Will. Mas quer saber de uma coisa? Ainda não. Deixe-me fingir que tenho momentos que parecem de uma pessoa normal para minha idade. Deixe-me fingir que consigo chegar do feriado de Natal até o de Ano Novo sem ter nenhum empecilho monstruoso ou divino no meio do caminho. Assim, vou começar a contar a partir de uns dias atrás.

Annabeth e eu decidimos passar esse tempo em Nova Iorque sendo que Annabeth ficaria o Ano Novo em São Francisco, com a família dela. São Francisco era mais perto de Nova Roma do que Nova Iorque então ela tinha ido até lá algumas vezes. E agora em Nova Iorque, ela poderia dar um pulinho em Boston para ver o primo Magnus. Ah, não sei se sabem, estamos cursando a universidade em Nova Roma. Annabeth está muito feliz e orgulhosa por ter conseguido chegar tão longe e ela demonstra isso pegando no meu pé por lá. Ela está cursando Arquitetura esbanjando toda sua inteligencia como filha de Atena. Eu, talvez seguindo esteriótipo de filho de Poseidon, estou cursando Biologia Marinha. Era normal ter algum senso de normalidade depois de tudo que passamos no passado e ainda passamos no presente. Claro, a maioria dos estudantes eram semi-deuses também.

— Quer apostar a probabilidade de termos um Natal tranquilo? – perguntei para Annabeth enquanto íamos em direção à minha casa. Estava bem frio, mas estávamos bem protegidos embora ainda andássemos de mãos dadas para esquentar as mãos... Tá... Não era pra esquentar a mão.

— Então... Aposto um dracma que não conseguiremos ter um Natal tranquilo – disse Annabeth.

— Nossa. Quanto pessimismo. – reclamei enquanto ela sorria para mim.

— Prove-me errada então, cabeça de alga – disse ela enquanto eu revirava os olhos.

— “Annabeth” e “errada” são duas palavras que não costumam andar juntas na mesma frase a não ser que tenha um “não está” no meio delas. – respondi.

Ela tentou até revirar os olhos, mas deu pra ver pelo sorriso que ela tentava segurar que ela até que gostou de ouvir aquilo. Quê? Eu sei o que minha namorada gosta de ouvir.

Ao chegar à frente da porta de casa, eu tirei as chaves do bolso e abri a porta. Pude ouvir a voz de minha mãe quando a fechadura começou a fazer barulho.

— Ouviu? Quem será que chegou Estelle? – disse minha mãe para Estelle, minha irmãzinha bebê.

Na hora eu vi aquele sorrisinho banguela e todo babado olhando pra mim da sala. Ela gritava querendo minha atenção enquanto esticava aquela mãozinha pequena e gordinha. Fui até ela e a peguei no colo dando um abraço apertado (mas não apertado demais) enquanto apertava também minha bochecha contra a bochecha dela.

— Estelle! Que saudade! Eu estava com saudade! Você estava com saudade? – eu perguntei e ela respondeu alguma coisa que não entendi em bebêzes. Ainda com ela no colo, também dei um jeito de abraçar minha mãe.

— Foi tudo certo lá do outro lado do país? – ela perguntou enquanto terminava de me abraçar e ia abraçar Annabeth.

— É... Por ai... – disse Annabeth enquanto a abraçava também.

— Bem, acho que vocês merecem então ao menos um descanso, não? – perguntou minha mãe.

— O mais normal possível de preferência. – reclamei.

— Só lembre que você pode estar pedindo demais quando usa a palavra “normal”.

— De toda forma... Cadê o Paul? – perguntei.

— Ah sim, vocês acabaram se desencontrando. Ele deu uma saída para comprar algumas coisas. – explicou minha mãe – Mas bem, imagino que a viagem tenha sido cansativa. Podem relaxar que logo logo estaremos jantando. E Annabeth, já sabe que essa casa é como sua certo?

— Obrigada – respondeu Annabeth com um doce sorriso.

O resto do dia passou como um borrão de tão rápido. Largamos nossas coisas, nos revezamos para tomar banho. Um tomava banho e o outro brincava com Estelle. Depois ficamos os dois brincando com Estelle até que Paul chegou. Com todo mundo já em casa, fomos jantar e, como sempre, Paul pedia detalhes e perguntava várias coisas sobre o que acontecia do lado mágico do mundo. Ele também se dava bem nas conversas com Annabeth, os dois conseguiam se manter ocupados em conversas que depois de alguns minutos eu não conseguia mais acompanhar. A conversa estava tão boa que em certo ponto Estelle já estava dormindo na cadeirinha.

— Bem... Acho que chegou a hora de certa pessoinha dormir – disse minha mãe começando a se levantar da cadeira.

— Não – disse me levantando no lugar dela – me deixa colocar ela pra dormir hoje?

— Obrigada – respondeu minha mãe com um sorriso cansado. É... Posso não saber como é ser mãe, mas imagino que seja cansativo. Bem, de uma coisa eu tenho certeza, acho que Estelle vai dar bem menos preocupações para ela do que eu dava e ainda dou.

Minha casa não é nenhuma mansão. Não tínhamos nenhum quarto de hóspedes onde Annabeth podia dormir e, para minha mãe e para Paul, deixar um hóspede tão importante assim dormir no sofá seria imperdoável. Claro que me ofereci pra dormir no sofá no lugar de Annabeth, mas Annabeth foi bem teimosa ao insistir que eu não fizesse isso. E foi assim que a solução surgiu na forma de um colchão extra no meu quarto (até porque no de Estelle não seria e nem no da minha mãe).

Quando estávamos cansados o suficiente para dormir, eu e Annabeth fomos indo para o meu quarto, mas minha mãe me seguiu e olhou para nós dois com uma expressão séria.

— Nada de aprontarem só porque estão dividindo o mesmo quarto eim. – ela disse. Ai... Annabeth disse que minha cara ficou mais vermelha que um tomate. Em minha defesa pelo menos, digo que a dela não ficou muito melhor.

— M-Mãe... – foi tudo que eu consegui dizer naquela hora.

Não, eu não aprontei com a Annabeth ainda se é o que quer saber. Não vou entrar em detalhes quanto a isso também. Não me perguntem ok? Acho que é pessoal demais pra ficar incluindo na história desse jeito.

Mas o que acho que dá para incluir é: eu estava lá sentado na minha cama enquanto Annabeth estava no colchão logo ao lado arrumando alguma coisa na mochila dela. Todos os outros já estavam dormindo ou quase dormindo e estávamos indo pelo mesmo caminho. Annabeth se virou para mim apoiando os braços e cabeça na borda do colchão da minha cama.

— Que foi? – perguntei, sabia quando ela tinha cara de quem estava tramando alguma coisa.

— Talvez o próximo Natal você possa passar lá em São Francisco com minha família – disse Annabeth - o que acha?

— Sério? Seria uma ótima ideia – disse me deitando em minha cama de forma que meu rosto ficasse de frente para o dela.

— E então quem sabe no seguinte... As duas famílias juntas?

— Está mesmo com ideias audaciosas para o futuro eim?

Ela corou de leve e acabou se virando ficando então sentada sobre o seu colchão usando minha cama de apoio para as costas de forma que ela ficou de costas para mim.

— Deve ser efeito da universidade em Nova Roma. Tudo lá parece dar tanto uma perspectiva de futuro.

— Verdade – eu disse suspirando e então olhando para o teto – Planejaremos então esses dois Natais que estão por vir. E quem sabe mais coisas também, já que está tão empolgada.

Acho que eu estava um tanto focado demais no teto, pois, no momento seguinte, notei a cabeça de Annabeth entrando no meu campo de visão me dando um doce beijo nos lábios enquanto se sentava ao meu lado na cama. Acho que agora tenho que admitir que corei novamente quando ela acabou entrando no cobertor junto comigo e deitando ao meu lado na cama.

— Q-Que foi cabeça de alga? N-Não vamos fazer nada... só... Está frio... É inverno e... – disse Annabeth deixando a frase no ar.

— Hum... Frio... – foi tudo que eu conseguir dizer. Sério, posso não ser a pessoa mais esperta do mundo, mas recentemente estava sendo difícil de achar as palavras que existiam no meu vocabulário.

A cama, por ser de solteiro, obviamente estava um pouco apertada. Mas eu não liguei para isso, não sei se ela ligou. Talvez fosse melhor até daquele tamanho. Não era apertado demais a ponto de ficar desconfortável. Arrisco-me em dizer que era na medida certa.

Desviei um pouco o olhar do teto depois de ter me recuperado do fato de Annabeth estar na mesma cama que eu e arrisquei olhar para ela. E lá estava ela me olhando com aqueles olhos cinzentos dela. Não pude deixar de notar também como ela estava bonita. Ali, um pouquinho descabelada, com cara de sono e pijama. Linda. Acho que meus olhos deixaram transparecer o que eu pensava, pois no segundo seguinte estávamos um aproximando o rosto do outro e então estávamos nos beijando profundamente. Uma das mãos dela delicadamente pousou sobre a minha bochecha e, como resposta, minha outra mão instintivamente a abraçou levemente. Como cama podia ser desconfortável às vezes para achar lugar para mão! Especialmente quando não era exatamente uma que tinha muito espaço.

Depois de o que mais pareceu uma boa quantidade de minutos, acabamos nos separando e ficamos lá, um encarando o outro e com as bochechas rosadas. Até por que... Acho que nunca tivemos um beijo como aquele. Claro, momentos de beijos especiais tiveram vários. O beijo embaixo d’água por exemplo. Mas aquele... Bem... Acho que não preciso entrar em detalhes precisos, certo?

— Eu te amo cabeça de alga – disse Annabeth num mero sussurro.

— Eu também te amo sabidinha – eu respondi embora “sabidinha” estivesse ainda bem longe no ranking de apelidos que estava “cabeça de alga”.

Ela sorriu e suas bochechas coraram mais. Ela me abraçou e, se arrumando ao meu lado pegando o travesseiro dela para ela, ela sussurrou:

— Boa noite.

— Boa noite – respondi de volta.

Bem, claro que demorei pra dormir. Tinha minha namorada dormindo ali do lado no mesmo colchão. Mas acho que eventualmente caí no sono. Eu me lembro de algo que aconteceu na manhã quando estava naquele estado onde a pessoa ainda não está acordada, mas também não está mais dormindo e também não quer abrir o olho. Tenho a leve lembrança que o barulho da porta do meu quarto abrindo me despertou um pouco e me deixou nesse tal estado. Depois de alguns segundos ouvi uma risada abafada de Paul que disse algo como “Bem, como as roupas ainda estão no lugar, acha que podemos supor que eles não aprontaram”. Ouvi então um suspiro de minha mãe que reclamou algo sobre como filhos adolescentes são complicados. Tenho certeza que me lembro de ter ouvido isso, Annabeth não se lembrou disso quando a questionei. Minha mãe e Paul não comentaram nada sobre isso e eu não sou doido de perguntar. Mas ainda estou meio sem graça de olhar para eles.

De toda forma, foi basicamente assim que se passaram meus dias até o dia em que tínhamos marcado de nos encontrar com Nico e Will. Basicamente eu ficava em casa com Annabeth aproveitando um ambiente aconchegante e familiar. E não aprontando nada durante a noite, ok? Só dormindo mesmo. Mas nem sempre ela inventava de dividir o colchão.

No Natal, comemos a deliciosa comida da minha mãe que resolveu fazer arroz azul. Acho que foi o Natal mais divertido que já tive, até porque também foi o primeiro que passei tendo uma irmãzinha. E que bagunça ela conseguia fazer quando tinha um pratinho de comida perto de suas mãozinhas gordinhas. Nossa. Olha só como ela é contagiosa, já estou passando tudo pro diminutivo.

Mas então, no dia que tínhamos combinado de nos encontrar com Will e Nico, eu e Annabeth fomos para o Central Park como combinado. Nós tínhamos literalmente acabado de virar a esquina quando dêmos de cara com monstros indo para dentro do parque enquanto um segundo grupo descia a rua indo para sei lá onde. Não sou expert em mitologia, mas esses monstros eram muito diferentes do que eu era acostumado a ver e, julgando a experiência que tive com os romanos e o recente mini contato que tive com o primo semideus nórdico da Annabeth, acho que “monstros diferentes” dificilmente são um bom sinal. Serem monstros já não é um bom sinal.

— M-Mas... O quê? – eu exclamei meio chocado. Viu? Vocabulário adquirido ao longo da vida jogado no lixo recentemente.

— De onde tantos monstros vieram? – perguntou Annabeth até que ela pareceu notar algo estranho – Eles não parecem ligar para as outras pessoas... Pelo menos...

— A maioria... – eu disse pegando Contracorrente quando notei que um cavaleiro totalmente sem cabeça (e sim, tem como ser parcialmente sem cabeça. Eu já vi o filme do Harry Potter) montado em um cavalo ia em direção a uma garota.

Estávamos impedindo o cavaleiro de atingir a garota quando ouvimos a voz de Will e Nico nos chamando. Annabeth foi quem os notou primeiro, até porque eu estava meio ocupado derrotando um monstro. Eu perfurei o tórax do cavaleiro e a menina saiu correndo. Acho que foi por causa dessa cena que os humanos começaram a notar que algo não estava certo. Não sei bem o que eles viram, mas o caos se instaurou na hora e todos começaram a correr.

— De onde vieram esses monstros?! – ouvi Nico perguntar enquanto nós quatro nos juntávamos.

— Não sabemos – disse Annabeth – já estavam aqui quando chegamos. A maioria não parece ligar para os mortais, mas alguns insistem em atacá-los. A maioria ou vai para dentro do Central Park ou descendo essa rua.

— Com certeza, nenhum dos dois pensa em preparar um show fogos de artifício para o Ano Novo. – disse Will.

— Não mesmo – Respondi.

— Isso é demais só para nós quatro – Nico disse e eu odeio ter que admitir que concordei com o que ele disse. Mas não podíamos simplesmente desistir assim.

Então, cada um com sua respectiva arma, conseguimos derrotar os monstros que se aproximaram da gente. Eu e Nico com espadas, Annabeth com uma faca e Will com seu arco e flecha. Foi uma quantidade boa de monstros por mais que estivéssemos em quatro, e alguns eram até bem fortes, mas aquele grupo que estava se distanciando cada vez mais descendo a rua me preocupava.

— Não podemos deixar aquele segundo grupo que está indo para sei lá onde fazer seja lá o que eles querem fazer! – reclamei quando tive um mero segundo para recuperar o fôlego.

— Eu e Nico vamos atrás deles, vocês podem cuidar desses do Central Park – disse Will.

— Certeza? – eu perguntei. Parecia arriscado deixar só eles dois com tantos monstros. Tá que... Nós dois também ficaríamos com muitos monstros. Era monstro demais só para nós quatro de toda forma.

— O Central Park está até bem cercado de água então... Acho que ficaremos bem cabeça de alga – disse Annabeth.

— Água essa que está congelada... – reclamei. Água podia ser reconfortante... Congelada, nem tanto. Mas acho que eu não estava em posição de ser mais exigente. – Mas tá... Tomem cuidado.

Depois de alertá-los para tomarem cuidado (algo que acho que não precisa ficar lembrando, mas sempre é bom lembrar), Will afirmou com a cabeça e os dois foram então correndo atrás do segundo grupo de monstros. Nos viramos então para o nosso grupo de monstros, grande demais para dois semideuses. Eu engoli em seco enquanto olhava para o que nos aguardava.

— Por favor, me diz que você tem algum plano brilhante digno de uma filha de Atena. – eu disse.

— Ainda não. – respondeu Annabeth.

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CARTER

Depois que minha irmã saiu da sala puxando o namorado para seu quarto com a desculpa de querer tentar aproveitar o que restava do Natal, não demorou muito para acontecer o ataque em nossa casa. A casa do Brooklyn já tinha sofrido alguns ataques antes. Agora, ela teria que passar por mais uma destruição e, espero pelo menos, futuramente com outra renovação. No entanto, antes do ataque dos monstros começar, antes que eu soubesse que nossa tentativa de ter um dia tranquilo não ia dar certo, fiquei olhando para Zia. Ela estava visivelmente irritada, preocupada até. Perguntava-me o que poderia ser seguro dizer para ela naquele momento.

— Eu erm... – comecei a falar de forma insegura – Notei que vocês duas andam meio... Ariscas... Ultimamente?

— Eu sei... – respondeu Zia suspirando e se deitando sobre o meu ombro com uma expressão um tanto triste – Não gostaria de ficar brigada com a Sadie desse jeito.

Tentei dar uma relaxada no clima a deixando ficar deitada em meu ombro. Peguei uma de suas mãos de forma delicada e levei até os lábios dando um leve beijo na mesma. Isso a fez abrir um leve sorriso para mim. No entanto, pude ver pelos seus olhos que a situação ainda a preocupava muito, mas acho que só de ter conseguindo arrancar um sorriso de seu rosto já posso me considerar um pouco vitorioso.

— Porque estão brigando tanto ultimamente? – perguntei curioso.

— Acho que ela está com raiva de mim por causa de umas coisas que disse ontem quando ela desceu pra jantar...

Ah sim, o jantar de ontem. Lembro que foi uma das poucas vezes que Sadie saiu do quarto desde que Walt morrera. Acho que foi a terceira ou quarta vez ou algo do tipo. Na hora eu não estava lá, estava no meio de um pequeno treino com Julian que havia insistido bastante que precisava se distrair com alguma coisa. Como distração era algo que muitos estavam precisando ultimamente, eu acabei topando. Quando então paramos para tomar água, lembro-me de ter escutado Sadie gritando para Zia falando que ela não sabia de nada e que estava julgando tudo sem saber todos os detalhes. Zia havia gritado falando para Sadie para depois não dizer que ela não tinha avisado.

Eu tinha tentado perguntar para as duas o que exatamente tinha sido aquela briga, mas as duas se recusaram a responder. Dessa vez eu não iria deixar passar barato, já ia perguntar para ela exatamente o que tinha acontecido entre as duas no jantar de ontem, e foi ai que ouvi o vidro das janelas do andar de cima se quebrarem.

— Veio do quarto da Sadie! – foi tudo que tive templo de exclamar antes de uma das janelas da sala também se quebrar e dela pular para cima de mim uma cobra com chifres, patas dianteiras e asas.

A aparição surpresa da cobra chifruda me pegou de surpresa, então coube a Zia salvar minha vida dessa vez.

— Ha-Di! – gritou ela usando o feitiço egípcio de explosão, mas isso só fez a cobra desviar de seu caminho anterior (que era direto para meu pescoço).

Quando pude pegar minha Kopesh, a espada egípcia encurvada, vi que da mesma janela vinha uma segunda cobra chifruda. Além disso, para piorar tudo, uma segunda e terceira janela estavam sendo quebradas também. De cada uma delas saiu uma criatura estranha que pareciam se completar. As duas eram daquelas criaturas comuns na mitologia em que o corpo era formado de partes de diferentes animais. Pude notar que o animal predominante seria um cachorro (mas não dos fofinhos, estava mais para do tipo dos infernais) sendo que enquanto uma o corpo era predominantemente de cachorro e tinha cabeça humana, a outra o corpo era predominantemente de humano e a cabeça de cachorro. Ambos ainda, para piorar, seguravam armas e pareciam ansiosos para testar o fio das lâminas.

Foi assim que o caos se instaurou na casa do Brooklyn. Eu estava preocupado com a minha irmã e com os aprendizes, mas aquelas duas serpentes e dois monstros estranhos estavam ocupando a mim e a Zia. Até porque rapidamente outros monstros foram aparecendo mas ainda os mais fortes pareciam ser os quatro primeiros uma vez que por nada conseguíamos nos livrar deles. Eu e Zia tentávamos executar sequências de ataques, ela com as magias e eu com a minha espada. Mas tudo que fazíamos parecia pouco já que a quantidade de monstros só aumentava.

Em certo ponto da confusão, pude ver Cleo e Sean correndo escadas a baixo fugindo de um monstro muito feio sem boca, orelhas ou lábios e que era seguido por sombras de aparência ameaçadora. Cleo jogava vários feitiços de fogo em cima do monstro e suas sombras seguidoras, mas tudo o que conseguia fazer parecia ser espalhar um pouco as sombras e botar fogo na casa. Depois que terminaram de descer as escadas, Sean conseguiu se concentrar o suficiente para tentar lutar com sua espada.

Achei por um breve centésimo de segundo que tinha visto Julien brotar de uma das portas segurando sua espada e sendo seguido por uma terceira cobra chifruda mas o chão sob seus pés ruiu o levando a cair não sei bem onde. Não pude ver onde ele caiu pois na mesma hora tudo desmoronou quando um forte rabo de dragão entrou em meu campo de visão. O rabo de dragão, que reconheci como sendo o de Illuyanka, havia quebrado as paredes ao rebater com força uma coisa preta. Essa coisa preta, quando caiu sob os escombros suja de poeira, pude ver que era Anúbis.

— Nek — xingou ele em egípcio antigo. Anotem aí caso gostem de aprender palavrões e/ou xingamentos em línguas mortas. Acho que é o equivalente pra “merda” ou “porra” ou algo assim.

— Saia de perto dele! Ha-Di! – gritou Sadie brotando correndo pelo o que restava da escada atacando com o feitiço de explosão o grande dragão Illuyanka que já havia destruído praticamente toda nossa casa.

O dragão aparentemente não gostou daquilo e então decidiu que Sadie seria um alvo interessante. Dei um grito nada másculo quando vi a bocarra do dragão indo em direção à minha irmã. Queria fazer alguma coisa mas estava um tanto longe e a breve distração fez com que um monstro de garras bem nojentas agarrarem a mim pelo pescoço. O monstro me botou contra a parede enquanto eu tentava me livrar dele para salvar minha irmã. Consegui cortar fora o braço do monstro e me livrar, mas vi que demorei demais. No entanto, para minha alegria, Anúbis não demorou demais. Ele se dissolveu em uma fumaça negra que rapidamente foi em direção à Sadie antes que o dragão a fizesse de palito de dente. Num piscar de olhos ela estava ali na frente do dragão envolvida por uma fumaça negra e no outro estava a alguns metros de mim em um lugar mais seguro.

— Obrigada – ouvi Sadie responder. Anúbis não lhe respondeu de volta, apenas acenou com a cabeça e limpou o... Sangue?... Que escorria de sua cabeça de onde tinha provavelmente apanhado de Illuyanka. Bem... Suponho que era sangue porque era meio diferente. Meio não, muito. Sadie também notou e perguntou o que eu pensava. – O que é isso escorrendo da sua cabeça?

— Ahm... Acho que é o mais perto de ser chamado de sangue. – respondeu Anúbis - Mais uns segundos e o corte deve fechar.

— Pera, seu sangue é prateado? – perguntou Sadie.

— REALMENTE NÃO ACHO QUE SEJA HORA PRA ISSO! – gritou Zia nervosa enquanto decapitava um monstro. Tenho que admitir que concordava com ela.

— E o dos gregos é dourado. Você se acostuma – respondeu Anúbis ao segurar a cara de um daqueles monstros parcialmente cachorro que mencionei antes e pulveriza-lo.

Enquanto Zia e eu nos livrávamos de alguns dos monstros que estavam ao nosso redor, pensava em como precisávamos nos organizar melhor, pensar em alguma estratégia, qualquer coisa que controlasse aquela bagunça. Não conseguia mais ver onde estavam Cleo, Julien e Sean, e isso me preocupava. Acho que Zia pensou o mesmo que eu pois logo usou sua grande afinidade com magias de fogo para sugar todo o fogo que Cleo havia espalhado pela casa e então o usar para atacar a maior quantidade de monstros possível. Com isso, conseguimos nos livrar dos mais fracos e pude ver que nossos três aprendizes estavam lutando contra alguns monstros enquanto se protegiam com um escudo mágico de Cleo. Pareciam cansados e machucados, mas estavam vivos.

Visto que o nosso verdadeiro e maior problema parecia ainda ser aquele dragão idiota, Illuyanka, acho que Anúbis acabou se incumbindo de derrotá-lo já que era imortal e tudo mais. Ele se dissolveu em fumaça negra e aproveitou a distração que o fogo fez para partir em direção a ele. Faixas de linho usadas para enrolar múmias tentavam limitar o alcance dos ataques do dragão e não sei bem se eram as faixas ou Anúbis lutando contra ele, mas partes do corpo do dragão pareciam começar a envelhecer e então se putrefazer. A ponta do rabo mesmo, já era só osso e carne morta. Entretanto, apesar disso, o dragão ainda bem o suficiente para lutar. Foi aí então que Illuyanka conseguiu abocanhar Anúbis e o jogou para o alto, bem alto. Ouvi o grito de preocupação de Sadie ecoar enquanto eu estava ocupado cortando ao meio, da cabeça até o rabo, uma daquelas cobras chifrudas.

— Relaxa, ele é imortal. Lembra? – disse Zia enquanto formava uma barreira de fogo queimando qualquer monstro que tentasse chegar pelas minhas costas. Apesar de ter dito isso, Zia não parecia torcer pela segurança de Anúbis. Pode ser minha imaginação, mas quando estava bem alto, acho que vi a imagem de Anúbis falhar como uma televisão velha. Mas pode ser só imaginação mesmo visto que estava muito ocupado.

Seguindo o exemplo de nossos aprendizes que estavam lutando os três juntos, eu e Zia nos juntamos, mas Sadie parecia perdida ainda sozinha no meio dos monstros visto que Anúbis estava numa situação bem complicada e ela não parecia estar se concentrando o suficiente para se livrar dos monstros com suas magias por causa disso. Meu coração parou ao ver que uma das sombras literalmente se transformou em um monstro e agarrou minha irmã pronta para lhe quebrar o pescoço.

— SADIE! – foi tudo que consegui gritar enquanto notava, pela segunda vez no dia, minha ineficiência com irmão mais velho ao ver novamente minha irmã em perigo e estar longe e ocupado demais para ajuda-la.

Para minha alegria, novamente, outra pessoa decidiu fazer as honras de salvar minha irmã. Uma flecha cortou o ar vindo de longe e atingiu o monstro bem em cheio na cabeça. Acho até que a flecha tinha um pouco de luz própria. Estranhei a existência da flecha e segui com o olhar o lugar de onde ela parecia ter vindo e vi um garoto de cabelos negro segurando uma espada que me dava arrepios e um garoto loiro que provavelmente era o salvador de minha irmã já que segurava um arco e se preparava para atirar uma segunda flecha.

Não tínhamos exatamente muito tempo para falar, mas foi bom ter duas pessoas se juntando à briga pelo nosso lado para variar já que parecia que não parava de aparecer monstros e mais monstros. Não sei bem quem eram eles, introduções ficariam para depois.

A luta foi desenrolando-se e não parecia que estávamos ficando do lado vencedor. Vi que Cleo já estava de joelhos sem conseguir manter o escudo por muito tempo e que Sean e Julien estavam bem machucados. Zia parecia estar se segurando para não desmaiar depois de usar tanta magia. Eu não estava muito melhor enquanto quase me rendia ao cansaço. Sadie estava junto com os dois meninos-ajudantes-surpresa e os três, principalmente Sadie, pareciam bem cansados também.

— O que falei sobre invocar mortos-vivos, Nico?! – Ouvi o menino loiro reclamar. Ao olhar, notei que o menino de cabelos negros, que agora imagino que se chama Nico, havia mesmo de fato invocado mortos-vivos. Achei aquilo estranho, não havia visto ninguém fazer isso a não ser que seguisse o caminho de Anúbis. Caminho o qual só Walt havia seguido. Anúbis o qual estava agora brigando com um dragão semi-necrozado. Ao invocar os mortos vivos, Nico parecia ainda mais cansaço do que antes.

Não sei bem como aconteceu, mas em certo ponto do combate estávamos eu, Zia, Sadie, Cleo, Sean, Julien, Nico e o menino loiro juntos no centro do que costumava ser nossa sala de estar. Anúbis continuava impedindo que Illuyanka nos esmagasse feio formigas e os soldados mortos vivos invocados por Nico estavam espalhados por aí.

— Isso não está dando muito certo, são muitos – disse Cleo com as pernas bambas conjurando um pequeno escudo mágico que impediu um monstro de acertar o machado na cabeça de Nico que logo aproveitou a chance para decapitar o monstro.

— Temos que pensar em algo... – falou o menino loiro.

— Acho que eu tenho uma ideia – disse Sadie olhando para Anúbis ao longe. – HEY! ANÚBIS, TENHO UMA IDEIA E PRECISO DE SUA AJUDA! – gritou ela chamando a atenção dele.

— ACEITO QUALQUER COISA! – gritou ele de volta.

— O QUE ACONTECE QUANDO UM PORTAL FECHA COM ALGO AINDA NO MEIO DELE? – gritou Sadie de volta.

— Quê? – perguntou Julien expressando o que também pensei.

Anúbis, no entanto, não pareceu precisar de mais nada para saber o que Sadie queria. Ele apontou em nossa direção e um portal apareceu atrás de nós. Na hora me perguntei se o tal plano de Sadie era simplesmente fugir, mas depois entendi direito o significado das palavras dela. Além disso, eu apostava que os monstros iriam nos perseguir mesmo se fugíssemos.

— Rápido! Atravessem o portal! – eu gritei enquanto impedia o monstro estranho sem boca de atravessar o portal.

Sean e Cleo foram praticamente carregando um ao outro atravessar o portal enquanto Zia e eu nos assegurávamos à segurança dos dois. Foi nesse momento então que um monstro... Uma monstro, melhor dizendo, me atacou. Não foi um ataque físico como um soco. Não sei bem descrever. Senti-me fraco, muito fraco, com o corpo ardendo em chamas e a força me abandonando por completo.

— Opa, aguenta aí! – foi a última coisa que ouvi o tal Nico dizer ao me segurar quando eu apaguei.

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ANNABETH

Acho que não preciso dizer que eu não gostava da situação. Estávamos eu e Percy sozinhos para tentar lidar contra tantos monstros. Imagino que Will e Nico também teriam seus problemas para enfrentar a parte deles. Embora a maioria dos monstros não perturbassem os humanos normais, não podíamos deixar aquela situação daquele jeito. Seja lá o que os humanos normais tenham visto o caos já havia se instalado no Central Park. Desse jeito, seria questão de minutos para que a polícia ou algo do tipo chegasse e, consequentemente, a situação piorasse.

Sabe, certas horas eu me pergunto por que eu não poderia simplesmente ser uma menina normal com preocupações normais como faculdade, amigos, família, namoro... E não ter que acrescentar a essa lista monstros, deuses, magia e todo esse tipo de coisa. Já que não posso fazer nada quanto a isso e como alguém tem que impedir o plano daqueles monstros estranhos, não pude fazer nada além de suspirar ao deixar minhas ideias de uma vida normal, sem graça e tranquila de lado e então começar a passar para Percy o meu plano.

- Eu tenho uma ideia, mas você não vai gostar – Foi à primeira coisa que eu disse para Percy depois de tentar, o mais rápido possível, pensar numa situação para o nosso problema.

Depois que Nico e Will saíram, em uma situação ideal, eu teria me escondido num lugar calmo ali perto, como o parquinho de crianças, para pensar numa estratégia. No entanto, como alguns monstros atacavam civis, não tínhamos essa mordomia.

- Se for uma ideia, tá valendo – respondeu ele.

- Os monstros estão praticamente todos ignorando as pessoas e, se olhar bem, também não as deixam aproximar-se ou permanecer no Central Park – eu fui explicando enquanto tirava o meu boné da minha bolsa. Não era um boné qualquer, se eu o botasse na cabeça, eu ficaria invisível.

- Notei. – respondeu Percy.

- Eu posso me esconder com o boné. Seguir eles para descobrir o que querem lá dentro. Deve ter alguma coisa. Todos eles seguem esse caminho pela lateral do Museu Metropolitano de Arte.

- Você está pensando em ir sozinha?

Sabia que o Percy ia reclamar dessa pequena parte do plano. Mas não, eu não planejava ir sozinha. Quer dizer, não de certa forma. No entanto, não tínhamos tempo para discutir, tínhamos que ser rápidos.

- Não. Eu disse que tenho um plano não disse? Tenha calma e o escute. Do outro lado do museu de arte tem um lago bem grande

- Lago esse que provavelmente está congelado. – disse ele. - Ok, oficialmente já odeio esse plano e nem sei ainda o que você quer que eu faça com esse lago.

- Você vai até ele, tente criar ondas, o mais alto que conseguir. Use-as para carregar os monstros, afoga-los ou simplesmente distraí-los. Tanto faz. – expliquei.

- Mas você, teoricamente, não vai estar lá no meio? – Percy perguntou sem deixar escapar esse detalhe.

- Tentarei ficar perto do Museu de Arte. Conte uns 5 minutos antes de jogar a onda para eu ter tempo de ir.

- Não gosto disso. – respondeu Percy.

- Tem um plano melhor? – perguntei botando o boné.

- Tome cuidado. – respondeu ele depois de suspirar.

Eu abri um sorriso. Odiava quando a gente se colocava nessas situações complicadas e que botavam nossas vidas em risco, mas esquentava meu coração quando ele mostrava-se preocupado comigo. Enquanto a situação me dava calafrios, Percy me esquentava apenas com sua simples presença. Para retribuir isso, eu me aproximei dele e dei-lhe um rápido, mas doce beijo em seus lábios.

Ele sorriu quando nossos lábios se tocaram e ele entendeu que era um beijo. Afinal de contas, eu estava invisível. Eu sabia que se dependesse da gente, ficaríamos ali mais um bom tempo enquanto os monstros continuavam a fazer o que queriam. Assim, em prol de mais uma vez salvar o dia, me afastei dos lábios de Percy e inspirei fundo me preparando para o que nos aguardava.

- Vamos lá cabeça de alga. – eu disse antes de começar a seguir os monstros e fazer minha parte do plano.

Os monstros seguiam por um caminho que cortava as árvores que tinham na lateral do Museu Metropolitano de Nova Iorque. Quanto mais eu andava, mais eu notava que a quantidade de monstros ia aumentando. O engraçado, no entanto, é que eu não tive que andar muito. Eu achava que eles tinham ido para mais profundamente do parque, mas não. Eu não podia mais ver os prédios, graças às árvores, mas ainda conseguia ver perfeitamente o fundo do Museu.

Outra coisa que achei intrigante foi onde os monstros pareciam se reunir. Eles formaram um círculo ao redor da Agulha de Cleópatra. A Agulha de Cleópatra é um obelisco egípcio que tem no Central Park perto do Museu de Arte. Meio estranho ter algo egípcio no meio de Nova Iorque? Não muito. Ele foi dado aos Estados Unidos como presente pelo Egito numa tentativa de estreitar a relação entre os dois países no século 19. Se não sabe o que é um obelisco, ele é um monumento alto e fino feito na forma quadricular e com uma terminação piramidal. Inclusive, a palavra “obelisco” vem do grego obeliskos, que significa agulha. Deixando toda essa parte de aula de história e arquitetura de lado, acho meio deprimente que esse maravilhoso exemplo da Antiga Civilização Egípcia esteja tão longe de casa.

Os monstros formavam um círculo ao redor da Agulha de Cleópatra sem se aproximarem muito. Isso é, com exceção de alguns. Um desses monstros era uma mulher. Chamar de monstro seria cruel, ela não parecia ser um monstro. Ela era muito bonita. Tinha a pele no tom de chocolate, olhos enigmáticos e andava com elegância sem ligar que o vento frio do inverno bagunçasse seus cabelos azuis. Suas roupas não podiam ser também mais fora de estação. Usava apenas uma longa saia de cor creme que parecia ser de tecido bem fino e um top quase do mesmo tom de azul que seus cabelos. Enquanto ela também passava uma sensação de elegância, também passava uma sensação de perigo e loucura, seu olhar fez eu me arrepiar. Além disso, ela parecia entoar alguma coisa para o obelisco em uma língua que eu não conhecia. Aos sons do que ela entoava, os outros monstros pareciam responder ou repetir e acho que não necessariamente no mesmo idioma, pois achei ter escutado algumas palavras em Grego e até em Espanhol. No entanto, era impossível pegar algum trecho por completo com todos falando ao mesmo tempo. Imagino ter pego as palavras “rio”, “luz” e “linha”, mas posso estar enganada.

Enquanto eu me aproximava, pude notar que a Agulha de Cleópatra estava emanando uma leve luz própria. O obelisco irradiava uma leve luz amarela enquanto os hieróglifos cravados no mesmo começaram a brilhar intensamente em vermelho. Os que estavam mais perto no chão foram os primeiros a começar a brilhar. A luz então foi se propagando rapidamente em direção à ponta do obelisco até que ela meio que escapou pela sua ponta em direção ao céu de Nova Iorque. Seja lá o que era aquilo, duvidava que fosse bom sinal.

- Está feito. Menos um. – disse a mulher de cabelo azul admirando a luz que cortava o céu. O que mais me preocupou na frase dela foi o “menos um”.

- Não acha melhor ir fazendo os mesmos nos outros de uma vez só do que um de cada vez? – perguntou um homem se aproximando dela. Ele não dava o mesmo impacto que a mulher dava. O homem era careca, tinha uma barba grande e volumosa e os braços dele eram tão grandes quanto os de Thor. O Thor dos filmes dos Vingadores mesmo. Ainda não tive a oportunidade de conhecer o verdadeiro, mas meu primo Magnus disse que está bem longe de ser a mesma coisa.

- Por isso que ninguém deixa os planos para um Hitita como você – disse a mulher cruzando os braços com superioridade enquanto o homem a olhava com extremo rancor e ódio – Não, seu idiota. Se fizermos tudo de uma vez, chamaremos atenção demais.

- Não ouse me chamar de idiota mulher! – reclamou o homem apertando sua mão em um punho fortemente. Ele aparentemente ficou com tanta raiva que estava quase cuspindo na mulher. Mas nem por isso ela perdia sua pose de superioridade.

- Perdoe-me se tiver enganada... – disse uma segunda mulher também muito bonita. Esta segunda mulher tinha longos cabelos ruivos e sentava-se com extrema elegância na cerca de metal que impedia que as pessoas se aproximassem do obelisco. Ela parecia aquelas mulheres bonitas que aparecem na capa de revistas depois de muito photoshop. Ela poderia ser uma modelo se não fosse o sangue escorrendo pela sua boca. Descrevendo dessa forma e olhando-a, ela poderia muito bem ser uma vampira. Depois de tanto que aconteceu desde que descobri que era semideusa, agora me pergunto se existe algum ser mágico, mitológico ou fictício que aparece nas histórias dos filmes, livros e afins que não exista. Estou oficialmente aberta a aceitar de tudo.

- O que é agora? – perguntou a mulher de cabelos azuis revirando os olhos.

- Disse que não quer chamar atenção, mas isso que estamos fazendo já não chama muita atenção? – perguntou a mulher que vou julgar que seja uma vampira.

- Nosso maior grupo foi para a casa do Brooklyn. Isso criará uma distração, deixará os magos ocupados e ainda resolverá o erro que Zababa cometeu. – explicou a mulher de cabelo azul. Se eu fosse chutar, diria que o homem era Zababa, pois ele ficou com raiva do comentário da mulher de cabelos azuis. Por um milésimo de segundo fiquei com dó dele por causa do nome horrível que foi ganhar.

- Ora, Zababa, pare dessa cara feia – disse a vampira fazendo um biquinho.

- Sim. Eu deveria era te mandar para lá para arrumar o seu erro. – disse a mulher de cabelos azuis - Tudo que eu te pedi foi para conseguir possuir o deus da morte para que ele ficasse do nosso lado, mas sua incompetência não consegue nem mesmo se apossar de um deus sozinho.

- O fato de quase todos os outros deuses egípcios não estarem aqui não deixa de fazer dele um deus. – justificou-se Zababa – Além disso, ele tinha aqueles garot-

- E você não é um deus também? – rebateu a mulher de cabelos azuis cortando a fala de Zababa – E não me diga que está com medinho de um grupinho de mortais! Você deu sorte de poder ter voltado do submundo tão rápido.

Estava preocupada com os cinco minutos que pedi para Percy. Olhei na direção do lago, e tudo parecia ainda normal. Olhei na direção do Museu de Arte e já planejei minha rota de fuga quando esta fosse necessária. Eu teria ficado para ouvir mais, mas naquele momento a mulher de cabelos azuis virou-se de costas para o obelisco.

- Se tivéssemos alguém menos esque- - foi o que ela começou a dizer. Mas então parou.

A mulher de cabelos azuis ficou completamente imóvel, como uma estátua. Ela começou a cheirar o ar e botou rapidamente a língua para fora três vezes. Arrepiei-me ao notar que a língua dela era como a de uma cobra. No entanto, o arrepio que percorreu meu corpo dos pés até a cabeça nessa hora não foi nada comparado ao que passou pelo meu corpo quando ela cravou os olhos extremamente amarelos e com pupilas verticais exatamente em minha direção.

Minha cabeça me lembrava de que aquilo não era possível. Eu estava usando o boné que me deixava invisível. Não era possível que ela acabasse me vendo. Fiquei imóvel, totalmente com medo de fazer qualquer coisa que pudesse dedurar minha posição. Mas aparentemente não era necessário isso...

Pois ela sabia exatamente onde eu estava.

Novamente ela recitou alguma coisa que não entendi e cobras apareceram feito mágica e outras se separaram do grupo de monstros. No momento seguinte, ela pulava em minha direção querendo provavelmente me matar. Consegui ser rápida o suficiente para me esquivar e sacar minha faca para me defender. Eu rolei levemente na grama quando cai depois de esquivar. Caí, pois ela conseguiu me ferir na cintura com as longas garras que haviam aparecido em suas mãos. Para piorar a situação, ela me arrancou o boné.

Agora que aparentemente todos podiam me ver, ouvi os outros monstros dizendo repetidas vezes “humana” ou “semideusa”. Peguei minha faca e a segurei fortemente pronta para me defender de quem quer que tentasse me atacar. Minha cintura doía e eu sentia a roupa começando a grudar com o meu corpo enquanto o sangue ia a molhando. Foi nesse momento que eu ouvi um barulho alto que parecia água corrente, onda e gelo quebrando. Percy! O mais rápido que pude me virei para correr para a proteção das paredes do Museu de Arte, mas vi que não ia conseguir a tempo, pois uma grande cobra me agarrou se enrolando ao redor de minha cintura prendendo também meus braços. O corpo da cobra tinha facilmente o diâmetro da roda de um caminhão. Nesse momento, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Em um momento eu sentia a cobra me apertar como se pensasse se preferiria me matar esmagada ou me usar de café da manhã e no seguinte vi que alguém com uma espada matava a cobra. Nem tive tempo de pensar se era Percy essa pessoa, pois no momento seguinte eu estava na proteção do Museu de Arte enquanto uma onda passava e carregava a maior quantidade de monstros que conseguia.

Eu tossi tentando recuperar o ar que perdi ao brigar com a cobra (uma luta bem unilateral). Eu levantei o olhar para ver quem me salvou e vi uma velhinha que já me ignorava e ia em direção à porta do Museu. Ela era alta, tinha sardas no rosto e seu cabelo grisalho estava preso em um elegante coque. De certa forma, ela lembrou-me minha mãe. Como se fosse uma versão mais velha.

- E-Espera... – foi o que consegui dizer enquanto tentava me levantar, mas acabava caindo de novo. Ela nem olhou para trás, mas pude ver que ela lutava agilmente com a espada impedindo qualquer monstro de entrar no museu. Vendo-a lutar daquele jeito, eu duvidava que a idade avançada trouxe-lhe algum peso.

Em certo ponto, parece que a velhinha sem nome deixou Percy entrar no Museu. Eu me levantei com as pernas bambas enquanto eles pareciam discutir alguma coisa.

- Percy... – eu disse me levantando e segurando meu ferimento.

- Você está bem? – perguntou ele me segurando – Temos que ir!

- Ah? E deixar ela assim? – eu disse surpresa.

- Eu cuido disso garota – respondeu a velhinha enquanto ainda lutava – Afinal, pode não parecer, mas sou uma deusa. Vocês têm que ir. Tem coisa mais importante a fazer do que ficar aqui.

Minha mente entrou em parafuso naquela hora. Ir? Para onde? Ela? Uma Deusa?

- Calvary Cemetery. E é melhor dar uma olhada nesse ferimento antes. – disse a velhinha como se tentasse responder minhas perguntas o mais brevemente possível – O destino do mundo está na mão de

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WILL

Will Solace, filho de Apolo, prazer. Minha vez de contar tudo o que aconteceu. Não sou profissional na arte de narrar acontecimentos assim, mas vou dar meu melhor. Prometo.

Bem, quanto ao menino que Nico segurou, não precisou ser filho do deus da medicina para notar que ele não estava bem. Ao impedir que o garoto caísse no chão, Nico ficou com a guarda aberta e então coube a mim e a menina de cabelos pretos e curtos protegermos os dois.

— VAI, NICO! PASSA COM ELE! – gritei desesperado para sair daquele lugar.

Claro, eu não sabia como aquele portal foi criado. No entanto, pela aparência do mesmo e o que a garota loira tinha gritado, era indiscutível o fato de que era um portal.

Nico atravessou o portal carregando o garoto que penava para andar enquanto eu protegia a passagem deles. Quando os dois passaram, eu e a menina de cabelo curto corremos praticamente ao mesmo tempo para passar pelo portal seguidos pela menina loira de mechas coloridas e então pelo menino de roupas totalmente pretas que pareceu ter se materializado na frente do portal e então atravessado. Estranhamente, ele lembrava-me um pouco de Nico.

— Saiam da frente! – disse o garoto de preto e todos atendemos ao pedido de muito bom grado.

Todos olhavam tensos enquanto o dragão ia em direção ao portal querendo nos abocanhar. Quando a cabeça dele passou pelo portal, o menino de preto pareceu começar a fechar o portal ao esticar o braço direito em direção ao mesmo e então fechar a mão. Não pareceu ser exatamente fácil já que ele parecia fazer alguma força na mão. O dragão rugia e gritava ao ser enforcado cada vez mais pelo portal que fechava. Todos olhávamos tensos, exaustos e derrotados esperando para ver qual seria a resolução daquela ideia maluca. Sei que meu pai estava meio ocupado tentando restaurar os oráculos e lidar com espinhas, mas, naquela hora, eu fiz uma prece para ele para que a ideia desse certo e pudéssemos sair daquela loucura vivos.

Quando o portal se fechou de uma vez decapitando o dragão, foi com um suspiro de alívio que todos desabaram no chão, exaustos. Eu torci o nariz para o cheiro que emanava da carne morta do dragão e desviei o olhar também. Era uma cena bem nojenta, uma cabeça de dragão que estava necrosada em algumas partes, puro osso em outras e, para completar o nojo, estava sangrando. Olhar ao redor para desviar a atenção do dragão não foi, infelizmente, uma boa ideia também. Ao olhar ao redor, notei que estávamos num cemitério. Pronto, outro ponto para considerar o menino de preto parecido com Nico.

— WILL! VOCÊ SERIA BEM ÚTIL AQUI AGORA! – gritou Nico e eu olhei para onde ele estava.

Nico ainda segurava o garoto que agora parecia estar tendo um ataque epilético. Ele tremia e se contorcia. Arrumei todas as forças que não tinha mais e me levantei o mais rápido que pude e corri para o lado do garoto. Torcia para que eu conseguisse fornecer a ajuda que ele precisava. Não me gabo quando digo que, uma vez, um dos campistas do Acampamento Meio-sangue tinha acabado meio... desmembrado. Pobre Paulo. Felizmente, eu consegui juntar seus braços novamente e tudo ficou bem. Claro que eu não poderia sempre confiar cegamente nos dons que recebi de meu pai, mas acho que tenho direito à certo otimismo.

— CARTER! – gritaram nossos novos amigos (ou assim espero) praticamente ao mesmo tempo.

No entanto, apesar da notável preocupação com o amigo, Carter, eles também não estavam nas melhores das condições. Ao tentar se aproximar de Carter, um dos garotos deve ter descoberto que tinha torcido o tornozelo, pois logo caiu no chão. Uma das meninas, a de cabelo preto e curto, também não parecia bem, não sei se era cansaço ou algo, além disso, mas ela perdeu as forças ao se levantar e acabou tendo que se arrastar até Carter. Fui anotando mentalmente essas informações que comprovavam que eu seria muito necessário.

Sem pensar duas vezes, fui logo fazendo todo o serviço de curandeiro com o qual já estava acostumado. Comecei por Carter, já que ele estava em condições bem piores. Os outros poderiam aguentar mais um pouco, mas eu tinha medo de o que poderia acontecer com Carter. Eu não tinha nada que pudesse usar em meus bolsos, assim, tive que contar com meus dons como filho de Apolo. O que, na pior das hipóteses, acho que já é uma coisa boa com a qual se contar.

— O QUE ESTÁ FAZENDO COM MEU IRMÃO? – reclamou a garota loira. Estranhei ela chamando-o de irmão... Talvez meio-irmão? Por parte de algum deus? Afinal, ela era branca e loira e ele tinha cabelo castanho e era negro. Enfim, me preocuparia com parentescos depois.

— Relaxa. Só vou curar ele! – reclamei não querendo demorar mais nem um segundo, estava com uma péssima sensação.

O que acontecia com Carter parecia estranho para mim. De certa forma, a sensação era de como se ele estivesse doente, mas ao mesmo tempo, amaldiçoado. Era estranho. Fiz o melhor que pude para cura-lo. Doenças e maldições são mais complicadas do que um ferimento, assim, tive que usar mais dos meus poderes enquanto direcionava as minhas mãos para ele e entoava em grego antigo o hino de meu pai. Com o passar do tempo, a convulsão de Carter foi parando e então ele só ofegava deitado sobre a grama do cemitério. Eu suspirei, uma gota de suor correu pelo meu rosto. Curar os outros pode não parecer depender de força física e coisas do tipo, mas cansa quando uso tanto meus poderes. Seja lá o que aconteceu com Carter, foi difícil tirar dele embora provavelmente não desse para falar isso ao me ver o curando.

— Ele deve ficar bem agora. Só precisa descansar bastante – eu disse e as duas garotas, a loira e a de cabelo curto, foram logo dando atenção para ele.

— Carter, como está se sentindo? – perguntou a menina de cabelo preto e curto.

— Não ouse me matar do coração assim de novo! – reclamou a loira com mechas.

— Foi mal – respondeu ele fracamente mal abrindo os olhos e dando uma leve risada.

Visto que Carter parecia bem, fui indo para o garoto que provavelmente tinha torcido o tornozelo. Ai ai... Os trabalhos de ser o médico da equipe. Você é sempre o último a poder suspirar aliviado. O trabalho com o pé do garoto era mais fácil, queria aproveitar para conversar com ele, perguntar quem eram eles exatamente, mas fui distraído com Nico se aproximando de mim e olhando para o grupo com o olhar desconfiado.

— Que cara é essa? – perguntei depois de um suspiro.

— Depois te conto... – disse Nico de forma misteriosa me fazendo revirar os olhos.

Não demorou tanto assim curar a perna do garoto, mas me sentia desconfortável em puxar papo com ele enquanto Nico ficava ali grudado pronto para voar na garganta do primeiro que o contrariasse. Não que isso fosse necessário, estávamos todos cansados e aproveitando o fato de estarmos todos vivos. Mal terminei de curar a perna do garoto e Nico me puxou pelo braço para uma distância mais segura.

— Ai! O que foi? – reclamei olhando para ele.

— Não confio neles. – disse Nico.

— Por quê? Eles não tentaram nos atacar e os monstros claramente não os viam como amigos – disse enquanto cruzava os braços esperando o argumento dele.

— Aquele ali... De preto... – disse Nico indicando disfarçadamente com o olhar e sussurrando – Não gosto dele.

— Ótimo, não preciso ficar com ciúmes então? – brinquei e ele revirou os olhos.

— Ele me dá uma sensação forte de morte. – disse ele e eu olhei disfarçadamente para onde o garoto de roupas pretas estava.

Bem... Era difícil desconfiar dele, pois estava em uma cena que estava até bem fofa. Fiquei até com inveja, queria que Nico fosse mais... Ahm... Não sei a palavra... “solto”? “relaxado” talvez. Aí quem sabe poderíamos imitar. O garoto de preto se sentava na grama que estava coberta com uma leve camada de neve e, depois de checar o irmão, a garota loira se aproximou do garoto de preto e sentou-se em seu colo. Pude ver que o garoto de preto ficou meio corado quando a menina sentou-se virada para ele.

— Não está machucado né? – perguntou ela segurando o rosto dele com uma das mãos e olhando de um lado e do outro e no topo da cabeça e também checando o peitoral e abdômen dele encobertos pela camisa negra visto que a roupa dele estava meio rasgada e um pouco sujo de algo que parecia mercúrio líquido.

— Um pouco... O pior já sarou. Só faltam uns de quando Illuyanka me mordeu. – respondeu ele levantando um pouco a blusa e mostrando um ferimento na cintura que estava repleto do mesmo líquido que parecia mercúrio. Estranhei aquilo, ele tinha sangue de unicórnio por acaso? – E você? – perguntou ele dessa vez passando a mão na bochecha dela que estava suja de poeira e corria os olhos rapidamente por ela atrás de ferimentos.

— Só uns arranhões – respondeu ela com um doce sorriso dando então um beijo na testa dele – Mas não tente de novo dar uma de escudo para mim. – completou ela o fazendo revirar os olhos.

— Não ligo, prefiro bem mais que continue assim, viva e respirando. – respondeu ele.

Achando que já tinha visto o suficiente da cena repleta de açúcar, eu voltei a olhar para Nico.

— Olha... Não sei. Acho que estou mesmo com inveja. Porque não fazemos nada daquele jeito? – perguntei pra Nico que imediatamente corou.

— Eim? – perguntou ele se fazendo de desentendido cruzando os braços e virando o rosto corado.

— Tipo... – eu disse me aproximando e o pegando pelo queixo fazendo com que o rosto dele se aproximasse e ele me olhasse nos olhos. Também aproveitei para mudar um pouco meu tom de voz para algo mais doce – Não se machucou? Não está cansado de invocar os mortos?

Nico corou e desviou o olhar de um lado para o outro antes de responder.

— E-Estou bem... S-só um pouco cansado... – respondeu ele.

— Acham que os monstros vão nos seguir até aqui? – perguntou o garoto que curei o tornozelo.

— Acho – respondemos eu, Nico, o garoto de preto e sua namorada e Carter ao mesmo tempo. Todos aparentemente já acostumados à sermos iscas de monstros.

— Temos que planejar o que f-fazer... – disse Carter tentando se levantar, mas logo foi impedido pela garota de cabelos pretos e curtos que o forçou, de forma delicada, a continuar deitado.

— Nada disso, você tem que descansar – respondeu ela passando os dedos delicadamente pelo seu rosto fazendo carinho e então pegou a mão dele firmemente, mas como se estivesse com medo de o quebrar.

Carter sorriu para ela e, para deixar o romance mais no ar ainda, ela deu um beijo em sua testa de forma delicada. Sério, acho que estávamos todos esquecendo o mero detalhe de que estávamos no meio de um cemitério.

— Alguma pessoa menos quebrada poderia ajudar a pensar no que fazer – disse uma terceira garota que havia ficado quietinha até então. Ela tinha certo sotaque... Não era bem o sotaque latino que tinham os mexicanos, mas me lembrou um pouco.

— Pelo menos estamos num cemitério... Isso é bom. Né? – perguntou a garota loira olhando para o namorado que afirmou com a cabeça embora eu não entendesse qual a parte boa de estar em um cemitério.

— A escolha foi proposital – respondeu ele.

Até que o coração de todos quase saiu pela boca quando ouvimos passos se aproximando. Queria dizer que, assim como os bravos guerreiros semideuses que somos, nos levantamos de primeira, com armas em punho, prontos para lutar. Mas não foi o que aconteceu. Eu e Nico já estávamos de pé, então foi fácil sacar as armas. Carter estava fraco e ao tentar se levantar, pareceu sentir muita dor, o que atrapalhou sua namorada que teve que o impedir de se levantar e o segurar. A garota loira ainda estava no colo do de preto, então eles demoraram a levantar. A garota do sotaque ficou pronta rapidamente, pontos para ela. O que arrumei a perna e outro menino se enrolaram também quando o primeiro tentou se levantar e o segundo teve que o segurar. Ainda bem, no entanto, que nada tínhamos a temer, pois logo vimos Annabeth e Percy se aproximando. Não sei como nos acharam, mas agradeci por terem conseguido.

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NICO

Foi um alívio poder ver que Percy e Annabeth estavam bem. Não sei como eles lidaram com todos aqueles monstros, chuto que Annabeth deve ter tido um plano bem genial. Perguntaria sobre isso para eles mais tarde, pois, naquele momento, tínhamos coisas mais urgentes a tratar.

Como corriam, ao alcançarem o lugar no cemitério onde estávamos os dois já estavam bem ofegantes. Percy estava descabelado, as roupas sujas de sangue, mas com nenhum corte aparente. Annabeth, no entanto, estava sim com um corte e as roupas sujas de sangue. Ela ofegava mais do que ele enquanto segurava o machucado com firmeza.

- Você está bem? – perguntou Will ao notar o corte dela – Me deixe curar isso. Vem.

Will foi bem proativo e ajudou Percy a sentar Annabeth sobre um banco de pedra que tinha ali perto. Antes de ele sentar ela lá, no entanto, eu e uma das meninas que conhecemos hoje ajudamos a tirar um pouco de neve que tinha em cima do banco. Não era a menina que agora dava atenção total à Carter, nem a menina loira que estava perto do garoto de preto, era a menina que tinha sotaque brasileiro. Eu conhecia o sotaque mais do que Will já que era um dos poucos que conseguia falar com Paolo, o brasileiro que temos no acampamento meio sangue.

Não demorou muito para que Will curasse a ferida de Annabeth, no entanto, depois que o corte fechou, ele olhou sério para ela.

- Então... – disse ele – O corte fechou, mas... Parece que seja lá o que causou isso, também estava envenenado.

- Ugh. Droga. Como se já ter me cortado não fosse ruim o suficiente – reclamou Annabeth

- Temos que dar um antídoto para você. – continuou o Dr. Will - É um veneno bem forte para eu poder curar assim sem nada, até porque estou bem cansado ainda depois de curar o Carter. Mas relaxe que não tenho só más notícias. Eu consegui reduzir bastante à quantidade e conter o que restou do veneno por mais algumas horas. Você vai se sentir bem melhor agora, mas seria melhor se não se mexesse muito. Dê-me uns minutos que tento tirar o que falta. Você está segura pelo menos até amanhã à noite se ficar quietinha.

- Anotado – resmungou Annabeth suspirando lentamente enquanto, exausto depois de fazer três curas, sendo duas delas aparentemente complicadas, Will se jogou do lado dela no que restava no banco meio que deitando só que deixando as pernas para fora.

- Cansei. – resmungou ele.

Como o perfeito namorado atencioso que Percy era, ele sentou numa mísera beiradinha do banco perto de Annabeth que não estava sendo usada e deu um beijo no topo da cabeça dela. Eu olhei para Will, meio sem graça de fazer algo do tipo, mas também querendo dar alguma atenção e energia para meu namorado embora eu mesmo estivesse também meio exausto depois de invocar aqueles mortos que acabaram ficando para trás depois que atravessamos o portal. Assim, eu me agachei ao lado do banco ficando o mais perto que dava da cabeça dele e sussurrei para que só ele ouvisse.

- Tá mandando bem hoje, eim? Dr. Will? – disse-lhe depois de lhe dar um beijo na bochecha. Ele riu e olhou para mim bem nos olhos.

- Valeu – respondeu passando uma das mãos em meus cabelos.

- Mas então... – disse Percy quebrando o momento. Achei que ele estivesse olhando para nós dois, mas na verdade estava olhando para o grupo de pessoas dentre as quais eu apenas sabia o nome de Carter – faz tempo que não nos vemos eim, Carter e Sadie.

- Verdade, não imaginei que fosse encontra-los hoje, mas imaginei que quando nos encontrássemos de novo, seria em uma situação assim... – disse Annabeth quietinha no banco.

- Perigosa, cheia de monstros e coisas inexplicáveis? – respondeu a garota loira enquanto o garoto de preto a protegia com o casaco dele. Imagino que ela estivesse com frio mesmo já que estava vestindo o que mais pareciam ser os pijamas dela. Não acho que estava nos planos dela ir passear no cemitério hoje.

- É. Exatamente isso – disse Annabeth abrindo um sorriso.

- Ei. Calma. Pera. – eu disse me levantando e ficando entre os dois grupos – Vocês se conhecem? – perguntei. Especialmente porque eu estava preocupado com quem (ou o que) seria o garoto de roupas pretas.

- Faço de sua pergunta a minha – disse um dos outros meninos que não era Carter nem o menino de preto. Este tinha sotaque irlandês.

- Só conhecemos Carter e Sadie – explicou Percy.

- Prazer, Carter – respondeu fracamente quem eu já sabia que era Carter.

- Sadie aqui – respondeu a garota loira – Também só conhecemos Percy e Annabeth. – ela explicou e Percy e Annabeth levantaram a mão quando os nomes foram chamados.

- Acho que precisamos então de uma boa sessão de introdução de novos amigos – disse Percy.

- Concordo – eu disse. Talvez eu tenha encarado o garoto de preto e imagino que ele tenha notado, pois olhou de volta em minha direção e não parecia nem um pouco incomodado ou assustado quando notou que eu o observava. Muito pelo contrário, um leve riso pareceu escapar de seus lábios. Não sei se era um riso desafiador ou se ele achava graça em algo.

- Bem, prazer, me chamo Percy, filho de Poseidon.

- Pera... Pera e volta tudo – disse a garota de sotaque brasileiro – “filho” de Poseidon. Poseidon em “o deus grego do mar”?

- Ele mesmo. – disse Percy já acostumado com essa reação – Já peguei pelo pouco que falei com Carter e Sadie que vocês egípcios não são semideuses. Aparentemente os deuses egípcios não costumam fazer filhos por ai.

- Não costumam mesmo – respondeu o garoto de preto.

- Egípcios? – disse Will interrompendo toda a explicação. Embora eu deva admitir que se ele não tivesse o feito, eu teria – Cara... Que legal! E eles ainda se mantém fieis aos seus casamentos divinos? Algumas vezes parece que os gregos só sabem pular a cerca, fazer um amante aqui e ali, aproveitar uma noite empolgante e coisas do tipo. Ah, prazer, Will, filho de Apolo.

- Bem... – disse de novo o garoto de preto – Infidelidade acontece mais entre os outros deuses. A maioria acha bem repugnante se relacionar com mortais.

- Nojentos – disse a tal Sadie. O garoto de preto olhou para ela com um sorriso torto quase como se pedisse desculpas e então ela o abraçou.

- Bem, continuando – disse Annabeth – Eu sou Annabeth, filha de Atena.

- Atena? A deusa da sabedoria? Jura? Que legal! – disse a menina do sotaque brasileiro – Eu sou Cléo. Eu sigo o caminho de Toth.

- O deus egípcio da sabedoria – disse Annabeth com os olhos brilhando de interesse enquanto Cléo afirmava com a cabeça.

- Calma. – agora foi minha vez de interromper – O que é “seguir o caminho de Toth” e se vocês não são semideuses, o que são?

- Magos e descendentes de faraós – respondeu o menino de sotaque irlandês – Aliás, sou Sean, seguidor do caminho de Khonsu, deus egípcio da lua e do tempo.

- Quando a gente fala “seguir o caminho” de algum deus, significa que treinamos magias, técnicas de combate ou juntamos conhecimentos ou qualquer coisa do tipo ligado a esse deus e usamos como nossas habilidades – explicou o menino que Will arrumou a perna quebrada – É quase como se ligar profundamente ao deus, mas sem o ter dentro de seu corpo. Ah, e aproveitando, prazer, Julian, seguidor do caminho de Hórus.

Will assobiou, aparentemente achando aquilo de magos e descendentes de faraós bem legal. Eu, no entanto, já estava me coçando para saber quem afinal era o cara de preto. Será que, assim como eu era filho de Hades, ele seguia o tal caminho do sei lá qual que era o deus egípcio da morte? Esperando que talvez fosse o caso, resolvi me apresentar para quem sabe descobrir quem era ele visto que agora só faltava ele e a menina de cabelos curtos.

- Que diferente... – refleti antes de me apresentar – Bem, eu sou Nico. Filho de Hades, deus grego dos mortos.

Fiz questão de dizer do que meu pai era deus para o caso de ele não saber quem Hades já que eu não sabia também quem era o deus egípcio da morte. Eu olhei para ele esperando para ver qual seria a reação, e um brilho de entendimento pareceu cruzar seu olhar. Sadie, sua namorada, olhou para ele e cochichou algo no seu ouvido e ele afirmou com a cabeça. Enquanto isso, eu só ficava mais curioso. Ela falou alguma outra coisa que não pude ouvir e riu enquanto ele revirou os olhos com um sorriso no rosto.

- Bem – disse Sadie estragando meus planos de ele se apresentar depois de mim – Já disse que sou Sadie, mas não mencionei que sigo o caminho de Ísis. Deusa egípcia da maternidade e protetora da magia. Quanto ao meu irmão e a namorada dele...

- Ah sim, verdade, eu também não disse – disse Carter quando Sadie olhou para ele. Porque eu tinha a sensação de que ela queria que o namorado de preto fosse o último a falar? Será que essa foi uma das coisas que ela cochichou com ele? – Eu sigo o caminho de Hórus. Deus do céu e dos reis.

- E de umas porradas básicas também – completou Sadie fazendo Carter revirar os olhos.

- Wow, tá ai um caminho legal pra se seguir. E você? A tal namorada dele? – disse Percy olhando para a garota de cabelos curtos que ajudava Carter a ficar sentado.

- Sim – disse ela – me chamo Zia, seguidora do caminho de Rá. Deus egípcio do sol.

- Da última vez que chequei, não eram Hórus e Rá deuses bem importantes da mitologia egípcia? – perguntou Annabeth e todos eles afirmaram com cabeça.

- Bem... Foram quase todos – eu disse cruzando os braços já não aguentando essa enrolação toda.

- Desculpe, eu ia falar depois dela, mas ela pediu pra que eu enrolasse para ser o último – disse o garoto de preto apontando para Sadie com a cabeça.

- Ei! Que tipo de namorado você é? Dedurando a namorada assim! – reclamou Sadie dando uma cotovelada de leve nele enquanto Carter, Cléo, Sean e Julian riam ou abriam um sorriso.

- Percebi isso também – respondeu Carter.

- Desculpe – disse ele pegando na mão dela e dando-lhe um beijo nas costas da mão. Ela parece ter tentado continuar com raivinha dele, mas o sorriso bobo que queria aparecer em seu rosto mostrava que ela não conseguia ficar com raiva dele por muito tempo. – Bem, sou Anúbis.

- Pera – disse Annabeth o cortando antes que ele tivesse tempo de dizer qualquer outra coisa – Anúbis em tipo O Anúbis? O Deus egípcio da morte?

- Eu mesmo – disse ele dando de ombros levemente.

- Sadie... Você não mencionou da última vez que namorada um deus – disse Annabeth olhando para Sadie num misto de surpresa e preocupação.

- Pera. Para. Nem mago, nem semideus, você é um deus. – disse Will e Anúbis afirmou com a cabeça – Você mesmo não falou que os deuses egípcios não gostaram de se relacionar com humanos.

- Eu sou uma das exceções à regra. – disse Anúbis respondendo Will, mas depois olhando para mim – Bem, acho que talvez isso explique porque você estava tão desconfiado de mim Nico.

- Você notou. – eu disse e ele afirmou com a cabeça. Ok, não imaginava que ele era um deus. Talvez devesse ter considerado essa opção afinal, não era uma sensação muito diferente da que o meu pai passava. Só espero que não seja um daqueles deuses temperamentais e rancorosos. Não que eu não fosse enfrentar caso fosse, mas era sempre bom evitar uma dor de cabeça a mais.

- Ok, agora que todos nos conhecemos, acho que podemos dar uma versão resumida de o que aconteceu em cada lado de batalha que estivemos? – sugeriu Percy.

E assim, cada um foi dando a sua explicação da batalha. Foi meio bagunçado porque tinha muita gente. Mas conseguimos resumir, mais ou menos, o que aconteceu na casa (que agora sei que se chama Casa do Brooklyn e eles moram lá) e Percy e Annabeth resumiram as aventuras do Central Park. Aparentemente também, alguns daqueles monstros já haviam lutado contra Carter, Sadie, Zia e Anúbis e custado a vida de um tal de Walt.

- Acho então que é seguro dizer que eles vão vir atrás de vocês – disse Annabeth – Acho que ouvi a mulher que me atacou dizendo que eles queriam o deus da morte. Imagino agora que seja você Anúbis.

- Provavelmente. Já que também bate na descrição de estar sozinho já que nenhum deus egípcio está no mundo humano atualmente. No entanto, algumas coisas que você falou me preocupam.

- Tipo? – perguntou Annabeth.

- Quase parece que tem algum outro deus egípcio aqui. E, o que me incomoda, é que eu não sabia disso – disse Anúbis aparentando estar pensando sobre o assunto – Como era essa mulher que falava isso.

- Ela era bem bonita, tinha pele escura, cabelos azuis e olhos amarelos. – disse Annabeth descrevendo-a.

- Olhos amarelos como o de uma cobra? – perguntou ele como se lembrasse de algo – E ela que fez o seu ferimento e Will disse que o ferimento estava com veneno, certo?

- Certíssimo. Acha que conhece essa monstra? – disse Will.

- Acho. E acho também que ela não é uma monstra. Acho que é Naunet, uma deusa. – disse Anúbis.

- Ok, essa eu não sei do que é deusa – disse Sadie.

- Alguma chance de você ter o antídoto para o veneno dela? - perguntou Percy preocupado com Annabeth.

- Não tenho, mas sei do que ele precisaria. Posso passar para vocês. - respondeu Anúbis e Percy abriu um sorriso satisfeito.

- E Naunet representa o caos e as águas primordiais. É uma deusa bem antiga. Uma das... Primeiras... Né? – explicou Cléo que olhou para Anúbis como se estivesse em dúvida quanto à parte das informações e ele afirmou com a cabeça.

- Ela é minha... Ahm... Tetravó. – disse Anúbis.

- Isso é antes dou depois de “Tataravó”? – perguntou Sean.

- Depois – respondeu Annabeth.

- Ok, isso realmente parece bastante coisa – disse Percy.

- Você bem que podia ir falar com sua tetravózinha, pegar uns biscoitinhos, passar um tempinho com ela, o que acha? – perguntou uma moça que, na nossa distração com a conversa, não vimos se aproximando. Ela era muito bela, tinha o cabelo ruivo e estava suja de sangue principalmente na boca. Mas ela parecia gostar, pois até estava lambendo os beiços. Para nosso desespero, atrás dela vinha alguns dos monstros que estavam no Central Park e os que estavam na Casa do Brooklyn. A quantidade já estava bem menor, mas ali estavam eles, nos seguindo.

Preparamo-nos para a batalha o mais rápido que podíamos. Annabeth e Carter, no entanto, não. Percy e Zia ficaram brigando com eles insistindo que descansassem, mas eles acabaram se levantando de forma sofrida e se preparando para a batalha mesmo assim. A quantidade de monstros pode até ter diminuído, mas estávamos todos extremamente cansados.

Chapter Text

ANNABETH

Queria poder dizer que fui bem útil e parti para cima da mulher assim que a vi, mas não foi o caso. Eu ainda estava bem fraca apesar de o tratamento de Will ter ajudado bastante. Em situação bem ruim também estava Carter embora todos parecessem cansados em algum nível.

O primeiro a atacar a mulher foi Nico, pois ele estava mais perto, ele atacou a mulher com sua espada negra enquanto eu me sentia culpada por atrasar Percy já que ele demorou a reagir, pois estava preocupado comigo. A mulher se desviou de Nico com grande facilidade e, para terminar de piorar a situação em que estávamos ela ainda foi ágil o suficiente para chegar por trás dele e o morder no pescoço e lhe sugar sangue. Nessa hora, Will lançou uma flecha contra ela e ela se afastou de Nico com um sorriso no rosto. O sangue escorria pelo seu queixo e ela passou a mão limpando um pouco dele.

— Nico! Você está bem? – perguntou Percy enquanto usava a neve que estava caída no chão como arma. Ele a controlou e formou estacas de tamanhos diferentes que usou para perfurar qualquer monstro que tentasse chegar perto de nós. Eu, por outro lado, estava fraca, mas segurava minha adaga com força enquanto perfurava a cara de uma mantícora (que para minha felicidade era pequena) e também amaldiçoava a cetal Naunet pela perca de meu chapéu de invisibilidade que havia ficado para trás no Central Park.

— A-Acho... – disse ele segurando o ferimento enquanto Will alternava o olhar entre ele e a mulher.

— V-Você não vai virar vampiro não, vai? – perguntou Will preocupado.

— NÃO ME REBAIXE AO MESMO NÍVEL DE UM VAMPIRO! – gritou com a voz mais fina que o normal a mulher irada, o rosto se desfigurando como o de um fantasma possesso e então indo na direção de Will querendo provavelmente lhe cortar a garganta. Ela era muito rápida, achei que não ia dar tempo de salvar Will, mas, num piscar de olhos, a cena pareceu mudar. Will estava derrubado no chão com Sean sobre ele, como se o irlandês tivesse derrubado o filho de Apolo com um empurrão e a mulher parecia ter passado direto.

— O-o quê? – eu disse confusa tentando entender o que havia acontecido.

Olhar para o garoto irlandês amigo de Carter e Sadie, me fez notar que a mulher também tinha sotaque irlandês.

— Você não é um vampiro... Por que... Você é uma D-Dearg-Due? – disse Sean gaguejando com medo a palavra estranha que eu não conhecia.

— Acertou querido conterrâneo – respondeu a mulher, a Dearg-Due. Acho que eu teria que conversar com Sean um pouco depois, pois não entendi direito toda essa última cena que aconteceu. De toda forma, minha atenção foi voltada para minha parte da luta.

Percy fazia um ótimo trabalho afastando os monstros de nós, mas eu temia que suas estacadas de gelo não fossem o suficiente para os monstros. Para minha alegria, Zia também fazia o mesmo só que usando chamas. Dessa forma conforme matavam monstros, Zia e Percy criaram uma espécie de círculo de fogo e gelo de forma que o centro do mesmo, onde eu e Carter estávamos, virou uma área de segurança. Olhei para Carter, e vi que ele estava bem pior do que eu, mal havia conseguido ficar de pé e, consequentemente, sua participação na luta havia sido nula. Para nossa sorte também, boa parte dos monstros (provavelmente os mais fracos) desapareceram num piscar de olhos virando poeira quando Anúbis invocou seu cetro e simplesmente bateu no chão com sua ponta uma vez . Quisera eu sempre lutar com um deus do nosso lado.

— Alguns mortos vivos viriam bem a calhar! – gritou Sadie de algum lugar que eu não consegui ver onde.

— Não estou bem em condições de invocar mais ninguém! – gritou Nico de volta arrancando apressadamente um pedaço de sua camiseta e usando para amarrar ao redor do pescoço e parar o sangramento aproveitando que Will, Sean e agora Julian também estavam ocupados com a tal Dearg-Due.

— Sem querer soar rude, mas não estava falando com você. – gritou Sadie de volta.

Percebi que a voz dela vinha de alguns metros atrás de mim. Olhei para trás através das chamas de Zia e vi Sadie e Cléo lançando vários feitiços contra um trio de monstros que não consegui identificar. Um pouco mais além, vi acho que meia dúzia de monstros já caídos e mais um se juntos quando Anúbis transformou um monstro de dois metros em pó. Meus chutes diziam que provavelmente tinha sido com ele que ela havia falado e minhas suspeitas se confirmaram quando ele pareceu murmurar algo. Eu não entendi nada, julgo que estava em egípcio antigo, só sei que fiquei toda arrepiada e receosa. A voz dele ecoava por todo o cemitério enquanto uma de suas mãos tocava o solo do mesmo. Acho que por coisas assim que as religiões ditas “pagãs” ganharam essa palavra para as definirem e foram tão perseguidas. Ouvir aquelas palavras incompreensíveis sendo ditas daquela maneira um tanto séria e tenebrosa, era realmente meio assustador. Ele logo parou de falar e então... Tive a certeza de que era com ele que Sadie estava falando. Não sei quantos mortos vivos Nico era capaz de invocar ao mesmo tempo, só sei que aproximadamente metade dos mortos do cemitério se levantou para nos ajudar. Levando em conta que aquele era o maior cemitério de Nova Iorque, o feito era bem chamativo. Parecia cena de filme de terror.

Os mortos vivos foram rapidamente se juntando à luta de forma que fomos ficando mais livres e então Sadie e Cléo puderam ajudar Will, Nico, Sean e Julian com a Dearg-Due. Quanto a Anúbis, vi que algo o distraia e só depois que dei cabo de alguns monstros pequenos que haviam conseguido passar pelas estacas de gelo de Percy e que pude ver o que era. Mas verdade seja feita, acho que ele tinha o direito de se distrair um pouco, estava literalmente transformando em pó a maioria dos monstros sozinho. Dentre toda aquela bagunçam, vi o homem chamado Zababa se aproximando calmamente andando. Junto de Zababa se aproximando com duas criaturas que pareciam búfalos com asas. Zababa parou a certa distância, olhou para nós, pareceu reclamar de algo e apontou para nós. Os dois búfalos correram em nossa direção só que sem tocar o chão e eu me preparei do jeito que dava para enfrentar o novo inimigo.

— CUIDADO! NÃO DEIXEM ESSES MONSTROS DESGRAÇADOS TOCAREM EM VOCÊS! – gritou Sadie jogando magias bem luminosas contra os monstros. Um desviou completamente, mas o outro pareceu se machucar com o ataque. – LUZ! PRECISAMOS DE PODERES DE LUZ! COISAS PURAS E TAL!

Bem, eu não tinha exatamente magias do tipo para jogar, mas os outros fizeram mais do que o suficiente. Zia, Cléo, Sean e Will cumpriram bem o pedido de Sadie enquanto nossos amigos egípcios pareciam bem mais preocupados com o que esses búfalos podiam fazer. Sadie também ajudou bastante com seu próprio pedido, boa parte do serviço quem fez foi ela. Achei um feito muito bom já que sobrou para Julian e Nico distraírem a Dearg-Due. Os monstros búfalos pareciam ter odiado particularmente as flechas de Will. A cada flecha que ele dava que atingia partes dos corpos dos monstros, essas partes desapareciam completamente causando uma feia e sangrenta ferida nos monstros que logo estavam agonizando de dor e então desapareceram por completo.

—F-Foi por culpa deles que W-Walt morreu – disse Carter sentado às minhas costas. Eu olhei de soslaio lembrando-me da breve explicação que ele havia dado antes da Dearg-Due aparecer. Também passou pela minha cabeça como ele não parecia estar nada bem, especialmente considerando que Will já havia, teoricamente, o curado.

As palavras de Carter me fizeram entender porque Sadie estava tão irada e jogando magias cada vez mais poderosas contra os inimigos que enfrentava. Não sabia direito quem era Walt, mas provavelmente ver aqueles monstros tinha revivido memórias não muito felizes para ela.

— PORQUE AJUDA ESSES MORTAIS, INPU?! – gritou Zababa estendendo os braços, notei como ele não parecia querer entrar nos limites do cemitério. A quantidade de monstros já havia reduzindo muito graças aos mortos vivos.

— Espera que eu vá para seu lado então? – perguntou Anúbis.

— Pode ser sangrenta e complicada, mas egípcios e hititas tem uma história. Temos até um acordo de paz, não temos? – perguntou Zababa. A pergunta de Zababa foi acompanhada por um grito fino de dor enquanto a Dearg-Due era ferida mortalmente por um ataque de Nico. Ela caiu no chão imóvel.

— Que imagino ter acabado a validade há vários séculos atrás. – respondeu Zia enquanto eu notava que só estávamos agora nós e Zababa.

— CALADA, MORTAL! – gritou Zababa de volta para ela. Ele estralou o pescoço como se tentasse recuperar a calma e olhou de volta para Anúbis – Eim? Porque os ajuda? O que eles fizeram para merecer? Seu próprio povo trocou vocês, os deuses deles, por Jesus e então trocou Jesus por Alá. São voláteis e indignos!

— As coisas mudam com o tempo – disse Anúbis dando de ombros – Não faça parecer que foi coisa de dois ou três dias.

— Não me diga que já se rendeu ao mundo humano! – disse Zababa apontando para Anúbis e segurando a gola da própria roupa provavelmente indicando a camisa do Iron Maiden que o nosso amigo deus usava.

— Ah, colé, a capa desse álbum tem uma vibe bem Egito antigo. – disse Will tentando defender Anúbis.

— MORTAIS! PAREM DE INTERROMPER! – reclamou Zababa.

— A culpa não é minha se você ainda está preso no Antes de Cristo, Zababa – disse Anúbis suspirando.

— Sim o tempo passou, os mortais nos trocaram... – disse outra pessoa se juntando a Zababa literalmente aparecendo do nada, mas sem entrar no cemitério. Minha nova inimiga, Naunet – Não sente falta Inpu? Daqueles tempos, daquele poder.

— Podemos começar uma sessão de nostalgia milenar sentados em alguma dessas tumbas, o que acham? – sugeriu Anúbis e alguns de nós olhamos para ele como se tivesse ficado doido, mas Naunet abriu um sorriso frio e assustador.

— Não vou cair nessa. – disse ela – Sei muito bem que cemitérios são seu território. Está enganado se vai conseguir me fazer cair nessa armadilha.

— Por acaso o mais forte que pode ficar é num cemitério? – perguntou Zababa – Como decaiu, Inpu. Não é mais aquele que vi lutando na Batalha de Kadesh.

— De toda forma... Vamos Zababa – disse Naunet.

— Eim? Como assim “vamos”? – disse Zababa. Também ficamos surpresos com a fala. Eu teria perguntado a mesma coisa que Zababa se não fosse o fato de que eu estava doida para eles irem embora, já sentia a fraqueza do veneno voltando a mim.

— Ah não... – resmungou Percy embainhando a contra corrente. – Anúbis, não se importa se eu der umas na sua tatatatatataravó né?

Percy não esperou Anúbis responder e já foi correndo em direção a Naunet com uma expressão de raiva no olhar ela desviou e rebateu todos os golpes que ele dava com a contracorrente usando suas garras que haviam me envenenado. Zababa quis participar da briga mirando na cabeça de Percy, mas Nico e Sadie rapidamente se juntaram a luta contra Zababa. Eu tentei me juntar à luta contra Naunet, mas meus joelhos falharam e eu cai, novamente, para minha extrema raiva, no chão. Zia e Julian cumpriram minha vontade de atacar Naunet, mas ela era muito boa. Will tentou atirar uma flecha nela, mas ela parou essa flecha sem dificuldade criando um pequeno redemoinho d’água do tamanho de uma panqueca entre sua mão e a flecha que ia em sua direção. A flecha caiu inútil no chão ao mesmo tempo em que ela aumentava esse redemoinho e o mudava de lugar de forma que ele rodeava ela e Zababa. Esse redemoinho d’água expulsou de perto todos que lutavam contra eles, menos Percy. Aparentemente a presença de Percy não era algo que eles queriam, pois Zababa deu um forte soco na cabeça de Percy que fez com que ele caísse para fora do redemoinho e desmaiasse no chão. O redemoinho começou então a os engolir. Anúbis lançou o que pareciam faixas de múmia tentando os segurar e impedir de fugir assim como Sean lançou algo que pareceu uma corda luminosa e os demais que conseguiam lançar ataques de longa distância o fizeram, mas Naunet e Zababa se foram.

— Droga... – reclamou Nico desabando cansado no chão. Todos desabamos no chão.

— Estamos com uma cara bem mal né? – disse Zia enquanto eu me aproximava engatinhando de Percy que estava largado no chão desmaiado.

— E não tenho forças para curar ninguém agora, galera, foi mal. – disse Will que estava deitado no chão com o braço sobre o rosto.

— Não será um problema – uma voz feminina disse nos sobressaltando. Estávamos tendo surpresas demais com pessoas aparecendo do nada hoje. Estava ficando irritante. Eu já ia reclamar perguntando algo como “argh, o que foi agora?”, até que vi que a dona da voz era minha mãe.

— M-Mãe? – eu disse. Sim, lá estava Atena diante de nós no meio de um cemitério – O que...?

— O que estou fazendo aqui? – ela disse me olhando – Uma situação excepcional. Menrva me informou que se comunicou com você perto do museu e da agulha. Dada à situação atual, achei que uma pequena ajuda seria bem vinda.

- Que ajuda seria essa? – perguntei.

Minha mãe desviou o olhar de mim e então olhou para Anúbis.

— Eu, Atena, deusa grega da sabedoria, dou a ti, Anúbis, deus egípcio da morte, a permissão de abrir um portal para o acampamento meio sangue de forma que essas crianças, incluindo os magos egípcios possam descansar e se recuperar. – minha mãe disse e um olhar de surpresa cruzou a face de Anúbis. Ele afirmou com a cabeça. – E vocês... Por enquanto, descansem. Foi uma batalha árdua. A situação atual está muito complicada e sinto que logo encontrarão algo para fazer.

— Pequena pergunta... – disse Anúbis – Por acaso os outros deuses gregos sabem dessa pequena permissão que você acabou de dar?

— Acho que você, que adora quebrar uma ou outra regra, sabe que às vezes para vencer, regras devem ser quebradas. – disse Atena séria mas dando uma piscadela. Eu ri de leve.

— Acho que isso foi um “não” – comentou Zia com um sorriso.

Além disso, Atena se aproximou de Will e lhe entregou um papel com algumas coisas escritas.

— Esses ingredientes devem fazer um excelente antídoto. Use-o bem e deixe-o em estoque, filho de Apolo. – disse Atena. Will pegou a folha e afirmou com a cabeça. - Boa sorte, vocês precisarão.

E assim, minha mãe sumiu novamente.