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como se aman ciertas cosas oscuras

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Olho para o céu estrelado e contenho um suspiro. Gostaria que um suspiro fosse tudo o que eu preciso conter. Imagens indesejadas me enchem a cabeça e por mais que eu me esforce não consigo fazê-las ir embora. “Pare”, “pare”, “pare”, repito sem parar enquanto fecho os olhos com força. Em vão. Essas imagens não vão a lugar nenhum – muito pelo contrário, elas vão encher cada centímetro de mim até sabe-se lá quantas horas da madrugada, quando a exaustão finalmente vencer minha mente e me deixar dormir. E talvez até em meu sono as lembranças vão me torturar, convertendo-se em sonhos dos quais às vezes (só às vezes) eu desejo não acordar.

“Pare”, “pare”, “pare”, continuo repetindo, enquanto sinto as primeiras lágrimas caírem pelo meu rosto. Eu nem tinha percebido que estava prestes a chorar, em momentos como esse eu preciso me esforçar para perceber qualquer coisa ao meu redor. Abro os olhos e me forço a olhar para o céu. Não há uma única nuvem a vista e sua beleza me parte o coração. Não há muita coisa que eu não daria para compartilhar essa vista com ela. “Pare”, “pare”, “pare”.

Ouço o barulho da porta do quarto sendo aberta, e de passos que se aproximam. Limpo minhas lágrimas o máximo que posso e espero que meus olhos não estejam vermelhos nem inchados. Ouço os passos cada vez mais perto e saio da sacada.

- Oi, meu amor – digo – você está com dificuldade pra dormir?
- Sim - ela me responde – eu queria ficar um pouquinho com você, você deixa? – me pergunta com olhos esperançosos. O que eu não faria por esses olhos?
- Mas é claro, meu amor. Está frio, vamos para a cama. A gente conversa um pouco até você cair no sono, que tal?

Ela sorri e vai até a cama. Espera eu me deitar primeiro e me cobre com o edredom cor violeta que ela mesma escolheu. Meu coração transborda com essa demonstração de cuidado. Ela se deita ao meu lado e ficamos de frente uma pra outra. Sorrio.

- Você pode me contar uma história? – me pede, e eu esperava que ela não o fizesse. Ela não gosta de contos de fadas, pois segundo suas próprias palavras, “essas coisas não são reais”, de modo que preciso alimentar sua mente com histórias verídicas. Admiro essa peculiaridade de sua personalidade assim como admiro todas as outras, mas eu sei que minha mente não vai me deixar escolher nenhuma história na qual ela não esteja. E vai doer.
Ainda assim passo os próximos trinta minutos enchendo o quarto de palavras sobre uma cozinha, alguns corredores, beijos roubados em passeios compartilhados, e duas pessoas que se amavam muito.

- Mamãe, essa é uma das histórias sobre ela, não é?
- Sim, bebê. Essa é uma das nossas histórias.
- Eu sinto muito... Gostaria muito de ter conhecido a minha outra mãe.
- E ela iria amar te conhecer, meu amor.
- Mamãe, já estou com sono, mas você pode cantar uma canção pra eu dormir? Por favor?

Me olha com seus olhinhos imensos e pesarosos. Ela sabe que eu não gosto muito de cantar, então se me fez esse pedido é por que realmente precisa disso. Respiro fundo.

- É claro que eu te canto uma canção, meu amor. E se quiser amanhã te conto quantas histórias você quiser, e se você quiser me perguntar qualquer coisa, ou conversar sobre qualquer coisa, é isso o que vamos fazer, sim? – ela assente, e eu a abraço.
Começo a cantar baixinho, enquanto acaricio seu cabelo.

Eres el regalo que nunca pedí
La porción de cielo que no merecí
Todos mis anhelos se han cumplido en ti
Y no quiero perderte, no lo quiero así

- Mamãe – ela me interrompe – você sente muito a falta dela, não é?
- Sim bebê, todos os dias. Mas não se preocupe comigo, vai ficar tudo bem. Dorme e descansa que amanhã é outro dia e você vai precisar de toda a sua energia pra brincar e aprender na escola.

- Boa noite, mami.
- Boa noite, Violetita.

Continuo cantando e acariciando seus cabelos. Meus olhos estão fechados e sigo respirando fundo. Se eu não me controlar minha voz vai sair quebrada e preciso ser forte pela minha filha.

Eres mi sol, luz calor y vida para mi
Eres tu mi sol, estrella que a mi vida sustento
Eres tu mi sol

Quantas vezes ela cantou essa música para mim enquanto me abraçava após um longo dia, ou enquanto cozinhava, ou enquanto estávamos deitadas num parque e acariciávamos minha barriga de grávida?
Quantas vezes eu me peguei cantando essa música lamentando o fato de que era para ela estar aqui cantando e não eu?
Quantas vezes depois daquele dia eu me perguntei se essa música era um prelúdio para o que iria acontecer?

Te dejè y tan sola, me sentí sin ti
Y no quiero de nuevo estar así, así
Tómame en tus brazos, soy parte de ti
Soy parte de ti


“Pare”, “pare”, “pare”.